Projeto Adote Um Aluno se espalha pelo Rio e Niterói

Aulas têm professores voluntários e estudantes de todas as idades

Por *Rachel Siston

Professores que ensinam ao ar livre: na Praça Tobias Barreto, em Vila Isabel, alunos de todas as idades e graus de instrução veem horizontes se expandirem graças às aulas dos voluntários
Professores que ensinam ao ar livre: na Praça Tobias Barreto, em Vila Isabel, alunos de todas as idades e graus de instrução veem horizontes se expandirem graças às aulas dos voluntários -

Rio - Há quase dois anos, quando decidiu compartilhar saberes em uma praça de Botafogo, o engenheiro Silvério Moron não imaginava o movimento que começava. Hoje o projeto Adote Um Aluno, de aulas gratuitas, está em Copacabana, Flamengo, Vila Isabel, Grajaú, Barra da Tijuca e Quintino, na capital, e em Itaipuaçu (Niterói). "O projeto é simples, mas eficaz. Comecei sozinho e hoje temos cerca de 60 professores e 400 estudantes. A conquista do aluno é gratificante", diz Silvério.

O aposentado Frederico Cunha, com o domínio em Economia, passou a lecionar educação financeira. "Quando compartilhamos conhecimento, melhoramos as pessoas", explica o voluntário.

Para os professores de Física e Português, respectivamente Bruno Melo e Pedro Laranjeiras, a ação é uma forma de mudar a vida de quem participa. "A educação tem o poder de nos conduzir para fora da nossa zona de conforto, porque vai muito além da própria matéria, é cidadania, é a relação com o outro", diz Pedro. "A escola pública tem esteriótipos, mas os alunos têm vontade de aprender. Basta um empurrãozinho."

As aulas acontecem de segunda a sábado, das 8h às 15h, nas praças Compositor Mauro Duarte (Botafogo), Edmundo Bittencourt (Copacabana), Praia do Flamengo, Edmundo Rego (Grajaú), Soldado Geraldo da Cruz (Barra) e dos Gaviões (Itaipuaçu). Em breve, estará em Quintino e onde mais houver interessados. Basta entrar em contato com os coordenadores pelo www.facebook.com/AdoteUmAlunoBotafogo e pedir as orientações.

Sem limite de idade para retomar antigo sonho

O DIA marcou presença na aula a céu aberto em Vila Isabel. Por lá, uma das alunas mais empolgadas é dona Delza Carvalho. Aos 92 anos, a idosa conta que foi nesse projeto que ela viu a chance de realizar um sonho de infância: aprender a calcular frações.
 
"Cheguei a frequentar o colégio quando era criança, mas logo que aprendi a ler e a escrever, minha mãe me impediu de dar sequência aos estudos. Ela disse que era suficiente. Voltei a estudar somente aos 40 anos, mas não consegui aprender o cálculo. Agora, tenho uma nova chance", contou a aposentada.
 
Coube à professora do Ensino Fundamental Cássia Novelli a missão de ensinar fração à dona Delza. Essa é a primeira vez que ela trabalha como voluntária. "É muito gratificante ver a evolução dela. A dedicação tem sido grande. Espero que esse projeto chegue em todas as praças da cidade e alcance ainda mais pessoas. Precisamos ocupar os espaços", diz a moradora da Tijuca.
 
Responsável pelo projeto em Vila Isabel, o professor de Matemática Marcos Vinícius Caldeira demonstra o tamanho do seu sentimento ao falar sobre a experiência. "A gente ensina, mas também aprende bastante com eles. Dia desses, uma aluna trouxe uma fórmula para o cálculo de divisão que eu desconhecia. Tem sido uma grande troca de aprendizado. Era uma vontade antiga que eu precisava colocar para frente", explica Marcos Vinícius.
 
Sonho da faculdade fica mais próximo

Na corrida para ingressar em uma faculdade, Vinícius de Almeida, de 18 anos, e a recepcionista Maria Zenaide, de 40 anos, começaram as aulas de reforço desde que a ação chegou em Vila Isabel. Para ambos, as aulas foram grandes aliadas, já que não podiam pagar pelo reforço.

"Eu estava sem dinheiro para pagar um cursinho e as aulas me ajudaram muito no Enem, na parte de Português e Redação, e semana que vem, me ajudará na prova de Química. É um projeto que favorece muita gente", contou Vinícius.

"Quero fazer faculdade de Psicologia, mas tenho bastante dificuldade em Matemática, e como eu não podia pagar aulas particulares, tive medo de não conseguir passar no vestibular. Eu me sinto privilegiada por poder aprender e ter professores tão bons que me ajudam de graça. Aprendi tanto que meus dois filhos também aderiram ao reforço na praça", completou Maria.
 
*Estagiária sob supervisão de Renan Schuindt

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