Muzema: milícia cobra população por prestações de imóveis que caíram ou foram interditados

Moradores da favela, localizada no Itanhangá, denunciam ainda o pagamento de diversas taxas. Ministério Público pede que denúncias sejam feitas via Ouvidoria, pelo telefone 127, ou por correspondência

Por O Dia

Prédios foram construídos onde havia uma pedreira. Local foi alvo de especulação imobiliária nos últimos dez anos
Prédios foram construídos onde havia uma pedreira. Local foi alvo de especulação imobiliária nos últimos dez anos -

Após ter sobrevivido à queda de dois prédios na Muzema, em abril de 2019, por não estar em casa no momento do desabamento, M., de pouco mais de 30 anos, continuou sendo cobrada pelo apartamento que havia comprado parcelado. O imóvel, erguido irregularmente pela milícia local, foi pelos ares, mas a cobrança continua de pé. "Eles ligam todo mês querendo o dinheiro. É um absurdo. Hoje eu moro de aluguel e não vou conseguir reaver o que já havia pago", conta a moradora, que não vive mais no Condomínio Figueiras do Itanhangá, onde 24 pessoas morreram.

O mesmo problema é enfrentado por moradores que tiveram imóveis, vizinhos aos que desabaram, interditados pela Prefeitura do Rio no último dia 21. "A gente sabe que corre o risco de ter os apartamentos demolidos, mas somos obrigados a continuar pagando", afirma outra moradora. "Eles vêm buscar a prestação todo mês, batem na porta", completa ela, que paga R$ 1.500 mensais.

Ao passar pelo Condomínio Figueiras, avistam-se os seis prédios interditados com bandeiras brancas e inscrições de protesto contra a possível demolição. Entre eles, um edifício cinza e outro marrom, com elevador e nove andares. Moradores dali contam que compraram os imóveis da imobiliária OJ Imóveis, que fica na própria favela, mas está de portas fechadas desde a data da tragédia. O proprietário, identificado apenas como Orlando, sumiu. Mas dois funcionários fazem as cobranças.

 

MP: 'Estamos à disposição para denúncias'

Responsável por deflagrar a Operação Muzema, em julho do ano passado, com 13 presos, o promotor Plínio Araújo, do Grupo de Atuação Especializada em Meio Ambiente (Gaema), pede que as pessoas façam denúncias.

"Sabemos das dificuldades e do medo da população. Mas estamos aqui para colaborar. As denúncias podem ser feitas pelo 127 (Ouvidoria do MP-RJ) ou até por carta", diz ele. As correspondências não precisam ter identificação do remetente e podem ser entregues no saguão do MP (Rua Marechal Câmara 370, Centro).

O promotor faz um apelo para que a população não compre os imóveis ilegais: "São apartamentos sem segurança alguma. Além de colocar a vida da sua família em risco, os compradores jogam dinheiro fora".

Favela teve 'boom' imobiliário nos últimos dez anos

Próxima da Barra da Tijuca, a favela da Muzema, no Itanhangá, nasceu às margens da Lagoa da Tijuca, com sucessivos aterros. Seu crescimento se deu em direção ao Maciço da Tijuca e seu grande 'boom' imobiliário aconteceu há cerca de dez anos.

Nesse período surgiram inúmeros edifícios entre as casas mais simples. Nessa época, segundo Censo do IBGE de 2010, viviam na região cerca de 4.500 pessoas. Completamente irregulares, esses mesmos prédios, com fino acabamento, foram erguidos também no Condomínio Figueiras, um dos mais recentes.

A agressiva especulação imobiliária pôs fim ao bucolismo do lugar, que tornou-se alvo de frequentes operações policiais. "Mesmo depois que os prédios caíram, não vemos melhorias. As obras da milícia continuam. Parece que isso nunca vai acabar e só nos resta pagar um monte de taxas", reclama uma moradora.

 

Uma assinatura que vale muito

Contribua para mantermos um jornalismo profissional, combatendo às fake news e trazendo informações importantes para você formar a sua opinião. Somente com a sua ajuda poderemos continuar produzindo a maior e melhor cobertura sobre tudo o que acontece no nosso Rio de Janeiro.

Assine O Dia

Comentários