Complexo da Maré teve uma operação a cada nove dias em 2019, diz relatório

Só no ano passado foram registradas quase 300 horas de operações policiais

Por O Dia

Complexo de favelas da Maré
Complexo de favelas da Maré -
Rio - Os moradores do Complexo da Maré, Zona Norte do Rio, viveram cerca de 300 horas de operações policiais em 2019, o que representou uma operação a cada 9 dias. Foram 49 mortes: aumento de mais de 100% em relação a 2018. Delas, 34  foram em decorrência de ação policial e 15 por ação dos grupos armados. Além das mortes, houve 45 feridos por arma de fogo na região em 2019.
As informações fazem parte da 4ª edição do Boletim Direito à Segurança Pública na Maré, que será lançado nesta sexta-feira (14), às 16h, no Centro de Artes da Maré. O relatório traz dados e análises dos impactos da violência armada nas 16 favelas da Maré durante o ano de 2019. O Boletim é produzido pelo projeto "De Olho na Maré", através do Eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça da Redes da Maré.

Foram registrados 24 dias de atividades suspensas nas escolas da região, totalizando até 12% dos dias letivos perdidos e 25 dias de atividades suspensas em unidades básicas de saúde, estimando-se que 15 mil atendimentos não foram realizados por conta de operações.

Para a coordenadora do Eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça da Redes da Maré, Lidiane Malanquini, o Boletim surge da ausência de dados que contemplem o impacto das operações policiais na Maré. Para ela, o dado que mais chama a atenção é o recorde de 34 mortes praticadas por agentes do Estado sendo 100% pretos e pardos, demonstrando que a política de segurança pública do Rio de Janeiro tem alvo seletivo e atua para reforçar o racismo estrutural da sociedade brasileira, atingindo sobretudo jovens negros das favelas e periferias.

“O Boletim surge para construir novos parâmetros de avaliação pensando como isso impacta no cotidiano de quem mora e está na Maré. Historicamente, os indicadores de sucesso de uma operação policial são medidos através do número de pessoas presas, apreensão de drogas e armas. A produção de dados e narrativas de quem sofre os impactos severos desta política de segurança que não preserva a vida, fecha escolas, postos de saúde e limita tantos outros direitos, é fundamental para pensarmos como as políticas públicas podem se estruturar a partir das necessidades e das demandas locais”, destacou Lidiane.

O lançamento do Boletim contará com a participação de Aline Maia, coordenadora do eixo de Direito à vida e Segurança Pública do Observatório de Favelas; Pedro Abramovay, diretor regional da Fundação Open Society para a América Latina e Caribe; e Vitor Santiago, morador da Maré alvejado por agentes das Forças Armadas em fevereiro de 2015, vítima de um política de segurança que não prioriza a preservação da vida de quem mora nas favelas. A mediação do debate será feita pela coordenadora do Projeto De Olho na Maré, da Redes da Maré, Camila Barros.

Relembre o caso de Vitor Santiago

No dia 12 de fevereiro de 2015, o carro de Vitor Santiago foi atingido por seis tiros de fuzil pelo Exército. Aos 29 anos, o morador da Vila dos Pinheiros, no conjunto de favelas da Maré, foi atingido por dois tiros: um pegou na coluna, deixando-o paraplégico, e o outro atingiu a perna direita e saiu na esquerda, resultando em sua amputação. Cinco anos após o crime, o soldado que atirou contra Vitor será julgado no dia 18 de fevereiro, próxima terça-feira, pela Justiça Militar.

Embora o promotor militar tenha alegado que o soldado agiu em “legítima defesa imaginária”, a esperança é de que o soldado seja responsabilizado pelo crime que cometeu e que o caso sirva de exemplo para que não se repita. Vitor estará presente no julgamento junto com amigos e familiares.

“Lembro que um pouco antes de acontecer isso comigo eu tive como heróis os soldados que entraram aqui dentro porque eles tinham projeto no papel, na teoria, de tirar as crianças da rua, de fazer isso e aquilo. Pô, eu fiquei encantado com aquilo, eu passava com a minha filha no colo e dava tchau pro soldado… E aí no final das contas eu fui alvejado, tive a vida modificada completamente por quem deveria ter trago segurança pra cá pra dentro, por quem um dia eu confiei”, destacou Vitor.

Confira a íntegra da 4ª edição do Boletim Direito à Segurança Pública na Maré com os dados completos: http://redesdamare.org.br/br/info/22/de-olho-na-mare


Serviço:
Lançamento do 4º Boletim Direito à Segurança Pública na Maré
Sexta-feira, 14 de fevereiro, às 16h
Local: Centro de Artes da Maré (Rua Bittencourt Sampaio, 181. Travessa da Av. Brasil, na altura da passarela 10. O Centro de Artes da Maré fica a 50 metros da Av. Brasil.)
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