Sem novas escolas em 2019, rede estadual tem CIEPs com salas improvisadas que extinguem pátios

Na Zona Oeste, três unidades de educação passam por processo de construção de 'puxadinhos' - como os professores batizaram as salas de drywall. As novas salas acabaram com os pátios dos Centros Integrados de Educação Pública

Por Maria Luisa de Melo

Canteiro de obras: no meio do entulho, bancos e mesas antes destinados ao lazer dos jovens (detalhe)
Canteiro de obras: no meio do entulho, bancos e mesas antes destinados ao lazer dos jovens (detalhe) -
Rio - Com a promessa de erguer novas escolas para atender o aumento de alunos - e após admitir um déficit de vagas estimado em 20 mil, em 2019 - a Secretaria de Estado de Educação (Seeduc) está construindo pequenas salas no andar térreo de alguns Centros Integrados de Educação Pública (Cieps) da Zona Oeste, extinguindo o pátio das unidades.

As novas salas são erguidas com paredes de blocos de gesso (drywall), nas unidades Aspirante Francisco Mega, em Magalhães Bastos, além de Mário Quintana e Brigadeiro Sergio Carvalho, ambas em Campo Grande.

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Novas obras nos CIEPs, CIEP. Reginaldo Pimenta Reginaldo Pimenta
Construções no Ciep Brigadeiro Sergio Carvalho, em Campo Grande. No detalhe, o antigo pátio virou um corredor, com caixa de luz ao alcance dos alunos FOTOS DE Reginaldo Pimenta
Canteiro de obras: no meio do entulho, bancos e mesas antes destinados ao lazer dos jovens (detalhe) Reginaldo Pimenta / Agencia O Dia

O espaço onde era o pátio foi tomado por salas improvisadas, restando apenas um corredor. "Essa construção não resolve o problema de falta de vagas na rede estadual. Na verdade, causa outros problemas: gera superlotação e não há funcionários para dar conta do novo quantitativo de alunos que a escola vai receber. Não foram realizadas obras nos banheiros e refeitórios para aumentar a capacidade de atendimento", comentou Bruno Melo, coordenador geral do Sepe (Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação), Regional V.

No Ciep Brigadeiro Sergio Carvalho, onde o pátio deu lugar a oito novas pequenas salas, as obras estão a todo vapor. Mas, ao contrário do que acontece nos 2º e 3º andares, não há extintores de incêndio. Todas, no entanto, contam com aparelhos de ar condicionados.

"A gente que vê de fora acha que está tudo certo, porque dá para ver os aparelhos de ar condicionado", disse a dona de casa Maria das Neves, moradora do Rio da Prata, em Campo Grande. "O que eu acho muito ruim foi ter perdido o pátio, porque é importante para os adolescentes essa convivência. É básico", comentou ela, enquanto aguardava uma sobrinha para formalizar a matrícula iniciada pela internet.

A perda do espaço no andar térreo vem sendo sentida pela comunidade escolar porque aquele era o único destinado a atividades de cunho cultural das escolas.

Sem se identificar, uma professora do Ciep Mário Quintana opinou nas redes sociais sobre essas mudanças.

"Apesar de se tratar de um prédio com valor arquitetônico inquestionável, idealizado por Darcy Ribeiro e Oscar Niemeyer, surpreendeu-nos a notícia de que serão construídas sete salas com paredes de drywall, em nosso pátio, descaracterizando tão importante estrutura e inviabilizando o único espaço usado para eventos culturais e atividades diversas".

O outro lado
Procurada, a Secretaria de Educação comunicou que a medida foi adotada para não deixar os alunos fora de sala. 
“Graças a essas ações, foi possível garantir a oferta de vagas diurnas, já que em anos anteriores muitos jovens eram obrigados a estudar à noite ou não estudavam”, respondeu a Seeduc, em nota. A secretaria acrescentou ainda que essas instalações são provisórias, e que já está licitando as obras necessárias para a expansão das escolas em regiões com déficit histórico de vagas.
Projeto educacional do antropólogo Darcy Ribeiro, os Cieps foram concebidos pelo arquiteto Oscar Niemeyer e implantados no Rio de Janeiro ao longo dos dois governos de Leonel Brizola (de 1983 a 1987 e de 1991 a 1994).
Seu estilo arquitetônico simples, à base de concreto, foi tombado em 2010 pelo Patrimônio Histórico e Urbanístico pela Prefeitura do
Rio. Mas, em janeiro deste ano, as unidades foram destombadas.
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