Primeira morte por coronavírus confirmada reforça alerta sobre necessidade de isolamento social

Vítima fatal era de São Paulo. Apesar da triste notícia, especialistas dizem que Brasil está no caminho certo no combate à Covid-19

Por Maria Luisa Melo e Danillo Pedrosa

Medo do contágio: na Rua 25 de Março, que equivale à região da Saara em São Paulo, é comum ver pessoas circulando com máscaras
Medo do contágio: na Rua 25 de Março, que equivale à região da Saara em São Paulo, é comum ver pessoas circulando com máscaras -

A apreensão por conta da pandemia do coronavírus está ainda maior entre os brasileiros. Ontem, o país registrou a primeira morte pela doença, que, no mundo, já causou a morte de 7.426 pessoas. A primeira vítima é um porteiro aposentado que tinha diabetes, hipertensão e hiperplasia prostática - um aumento benigno da próstata e estava internado na rede particular da capital paulista. Ele morreu dois dias após ser internado e não tem registro de viagem recente à Europa, como a maior parte dos 291 casos dos infectados brasileiros. Ele teve os primeiros sintomas no dia 10 de março e foi internado quatro dias depois. Na mesma unidade de saúde, a relação de outras quatro mortes com o coronavírus está sendo investigada.

A morte de uma idosa de 63 anos, em Miguel Pereira, no interior fluminense, também está sob análise. Ela era um dos casos suspeitos da doença, mas o exame laboratorial capaz de detectar o vírus só ficará pronto em 48 horas. De acordo com a Prefeitura de Miguel Pereira, ela teria contraído o vírus de sua patroa, que mora na cidade do Rio, e tinha voltado recentemente da Itália. A idosa saiu do trabalho e deu entrada no hospital já em estado grave.

Ao todo, segundo a Secretaria estadual de Saúde do Rio, há 33 casos confirmados no estado, sendo 31 na capital, um em Niterói e outro em Barra Mansa (o primeiro caso do estado). Apenas um dos pacientes está internado em estado grave, enquanto os demais estão em isolamento domiciliar.

Os infectologistas destacam a importância da reclusão em casa para evitar a rápida proliferação do vírus. Para eles, o país está no caminho certo, no que tange aos pedidos de isolamento das autoridades.

"Tudo nos leva a crer que a Itália, por exemplo, se equivocou, não combateu como deveria. O Brasil está tentando acertar. As medidas adotadas, muito discutidas entre especialistas, podem dar bom resultado para evitar essa elevação dos casos no nosso país", avaliou o infectologista Edmílson Migowski. "Torço para, daqui a duas semanas, podermos dizer que foi um exagero. Na verdade, a gente tem que ser exagerado nesse momento para evitar que pessoas morram nos corredores ou nas ruas. Essa doença é grave", completou.

Também infectologista, Bruno Scarpellini faz um alerta: "O isolamento precisa ser levado a sério. Só é para sair de casa para fazer compras. Quem puder, faz online. Se não for assim, poderemos ter um pico da doença, com diversas mortes".

 

Isolamento para atrasar epidemia e não sufocar a Saúde

Cada infectado contamina outras duas ou três pessoas e, a cada sete dias, o número de doentes por coronavírus se multiplica por dez. A observação do médico Bruno Scarpellini reforça o apelo das autoridades, por isolamento domiciliar. Para ele, as restrições a aglomerações, imposta por decreto do governo estadual, são fundamentais.

"O objetivo é desinclinar a curva. Porque com um pico alto e rápido (como se viu na Itália), a gente tem mais mortes, porque a pressão sobre o sistema de saúde é muito maior. E o sistema não está preparado para esta pandemia", explica. Ainda segundo ele, trabalhos mostram que se 75% da população aderir ao isolamento social, a curva de infectados cai drasticamente.

O infectologista Edmílson Migowski também apela para o isolamento domiciliar. "Não tem respirador para todo mundo. A complicação está numa pneumonia, que causa falência respiratória. Mesmo que se queira comprar, não há para pronta entrega. Só com o isolamento, podemos ter um resultado melhor do que o observado na Itália".

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Idosa morre e gera temor em asilo de Realengo

Funcionários e idosos de um asilo em Realengo, na Zona Oeste do Rio, temem que o coronavírus esteja se espalhando pelo local. Uma residente de 79 anos morreu, na segunda-feira, com os sintomas da doença. Outras duas internas, próximas a ela, estão com os mesmos sintomas.

Os funcionários do asilo, que abriga 60 pessoas, temem um surto da doença no local e questionam o fato de nenhum teste ter sido realizado na unidade de saúde da região, para onde a vítima foi levada.

A idosa deu entrada na unidade de saúde no sábado, com febre, falta de ar e tosse, mas não realizou teste para Covid-19, segundo fontes do asilo. Ela foi liberada com diagnóstico de pneumonia e acabou falecendo por volta de 22h30 de segunda-feira. As outras duas mulheres se consultaram também em unidades de saúde da região e ainda não fizeram testes para coronavírus.

Em contato com o Disque-Saúde (136), o abrigo não conseguiu informações sobre exame para Covid-19 nas residentes. Procurada, a Secretaria Municipal de Saúde informou: "Ela apresentava quadro de falta de ar e dor no peito há 15 dias. Não tinha febre e outras queixas. Fez raio-x de tórax, que indicou pneumonia e, após medicação, teve alta hospitalar".

 

Dois médicos da Uerj internados

O Hospital Universitário Pedro Ernesto (Hupe), da Uerj, confirmou ontem que dois médicos de seu corpo clínico estão com coronavírus. Segundo a direção do hospital, um médico da especialidade de nefrologia recebeu o diagnóstico positivo para a Covid-19 e está internado em um hospital particular. O outro caso é de um professor que se encontra em boas condições de saúde e está em isolamento domiciliar.

Ontem, o presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio, desembargador Claudio de Mello Tavares, determinou que os servidores da área de Saúde em Campos de Goytacazes voltem ao trabalho em até 24h, tendo um vista a pandemia do coronavírus. Caso a decisão não seja obedecida, a categoria - que está em greve desde fevereiro - terá que pagar multa diária R$ 1 milhão, além de sofrer sanções e responsabilizações cabíveis.

 

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Medo do contágio: na Rua 25 de Março, que equivale à região da Saara em São Paulo, é comum ver pessoas circulando com máscaras ALEX SILVA/ESTADÃO CONTEÚDO
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