Visor para leitura labial

Preocupada com a realidade da filha surda, mãe criou máscaras especiais

Por Gabriel Sobreira

Ângela de Fátima Pinheiro, 60 anos, fez uma máscara com visor transparente para que a filha, a arquiteta Gabriela Pinheiro de Souza, que é surda, possa fazer leitura labial dela e do genro, o engenheiro civil Caio Jannuzzi de Souza
Ângela de Fátima Pinheiro, 60 anos, fez uma máscara com visor transparente para que a filha, a arquiteta Gabriela Pinheiro de Souza, que é surda, possa fazer leitura labial dela e do genro, o engenheiro civil Caio Jannuzzi de Souza -

Úteis para evitar transmissão do coronavírus, as máscaras se tornaram um problema para pessoas que fazem leitura labial. Preocupada com a realidade da filha, que é surda, Ângela Pinheiro criou uma máscara com visor.

"Ela só se comunica através de leitura labial, o que é impossível com uso de máscara. Foi quando vi no Facebook uma aluna criando máscaras transparentes, achei a ideia genial e resolvi imitar, fiz pra mim e pro meu genro. Perfeito, começamos a usar e conseguimos conversar normalmente", conta Ângela.

A filha, Gabriela Pinheiro de Souza, confessa que ficou 'toda boba' com a atitude da mãe. "O único problema é que o plástico embaça quando se fala, ainda não descobrimos qual tipo não embaça", confidencia a filha.

A arquiteta Gabriela nasceu surda e fez oralização ainda bebê, mas não aprendeu Língua Brasileira de Sinais (Libras) para se comunicar. "Somos mais de 10 milhões de surdos no país. A maioria perdeu a audição em algum momento da vida, então já sabia falar", conta a jovem.

Para Mônica Campello, fonoaudióloga do Instituto Nacional de Educação de Surdos, pesquisas recentes apontam que o uso de máscara atenua o volume da voz.

"Dependendo do tipo de máscara, pode atenuar o volume em ate 12dB em frequências mais altas (de 2.000hz até 7.000hz) que são aquelas que nos dão a inteligibilidade de fala. Com isso, o reconhecimento auditivo da mensagem durante uma conversa, principalmente para as pessoas com perdas auditivas, fica bem prejudicado", explica ela, que também é professora.

Dificuldades enfrentadas pela comunidade surda

Wallace Arthur, barbeiro de 32 anos, é surdo desde os três e conta as dificuldades enfrentadas durante a pandemia - Acervo Pessoal
O barbeiro Wallace Arthur, de 32 anos, é surdo desde os três anos, oralizado e se sente confortável se comunicando em Libras. Ele conta que passa por situações complicadas quando está diante de águem que usa máscara convencional, bem quando já se viu exposto quando alguém levanta a máscara para que ele faça leitura labial. "Normalmente em supermercado ou farmácia", explica ele, que mora na Barra da Tijuca.
"Me sinto excluído da sociedade ouvinte. Já aconteceu de ser mal entendido por ser surdo, se a máscara com transparência for mais acessível, as pessoas poderão escolher por usar e incluir o surdo na sociedade", defende Arthur.
De acordo com a especialista, as pessoas surdas oralizadas e que não sabem Libras, dependem muito da leitura de fala e essas máscaras com visor ajudam muito. "Mesmos aqueles que usam algum tipo de tecnologia assistiva, como o Aparelho de Amplificação Sonora Individual (AASI) ou o Implante Coclear (IC), muitas vezes também fazem uso da leitura labial, principalmente em ambientes ruidosos", esclarece.
Em relação aos surdos usuários de Libras, a máscara acessível também é importante, pois por ser a Libras uma língua visuoespacial, que utiliza não só as mãos como também a expressão corporal e facial para comunicação, a máscara sem visor pode muitas vezes atrapalhar a visualização da expressão facial importante para a mensagem.

"Alguns surdos, que usam tecnologias assistivas, também já comentaram sobre a dificuldade que tem para tirar e colocar a máscara sem que caia o aparelho auditivo. Já observei algumas mães, por meio das redes sociais, confeccionando máscaras que são usadas juntas a uma espécie de tiara que prende a máscara, parece-me que por meio de um botão, ao invés de ficar atrás da orelha. Enfim, adaptações criativas, cercadas de empatia e amor, para esse novo tempo que se apresenta para nós", comemora a especialista.

Criando uma máscara com visor transparente

Professora Ana Luísa Antunes ensina o passo a passo para fazer uma máscara com visor transparente - Reprodução
Professora Ana Luísa Antunes ensina o passo a passo para fazer uma máscara com visor transparente - Reprodução
Professora Ana Luísa Antunes ensina o passo a passo para fazer uma máscara com visor transparente - Reprodução
Professora Ana Luísa Antunes ensina o passo a passo para fazer uma máscara com visor transparente - Reprodução
De olho nessa necessidade, a professora Ana Luísa Antunes, de 31 anos, criou um passo a passo – disponível nas redes sociais do jornal – para ensinar a fazer uma máscara com visor transparente. "Resolvi tentar fazer manualmente, em um vídeo caseiro, uma máscara que pudesse ajudar nessa acessibilidade em tempos de isolamento social", explica ela, que trabalha há 10 anos com pessoas surdas.
"De fato, é uma ajuda para que a comunicação possa acontecer de alguma forma, ou que a pessoa ao menos tome conhecimento de que está lidando com uma pessoa que se comunica com as mãos, que não ouve e que, portanto, precisará de calma e paciência para fazer o atendimento e se comunicar com ela seja no comércio seja onde for", ensina a docente.
Materiais:
Dois retângulos de tecido de 17cmx21cm;
Agulha;
Linha;
Tesoura;
Dois pedados de elástico de 15cm cada;
Um retângulo de plástico de 7cmx9cm.
Passo a passo:
Costure por dentro dos dois retângulos uma ponta do elástico;
Costure cada ponta do elástico de um lado do retângulo por dentro;
Faça o mesmo do outro lado. Pronto, você já fez as alças da sua máscara;
Pegue o plástico e costure no meio do tecido duplo;
Faça um rasgo no tecido e depois recorte contornando a costura que você fez no plástico;
Dobre um pouco do tecido para dentro e costure;
Faça duas dobras de cada lado e costura. Repita em ambos os lados e está pronta a máscara.

Galeria de Fotos

Ângela de Fátima Pinheiro, 60 anos, fez uma máscara com visor transparente para que a filha, a arquiteta Gabriela Pinheiro de Souza, que é surda, possa fazer leitura labial dela e do genro, o engenheiro civil Caio Jannuzzi de Souza Acervo Pessoal
Ângela de Fátima Pinheiro, 60 anos, fez uma máscara com visor transparente para que a filha, a arquiteta Gabriela Pinheiro de Souza, que é surda, possa fazer leitura labial dela e do genro, o engenheiro civil Caio Jannuzzi de Souza Acervo Pessoal
Ângela de Fátima Pinheiro, 60 anos, fez uma máscara com visor transparente para que a filha, a arquiteta Gabriela Pinheiro de Souza, que é surda, possa fazer leitura labial dela e do genro, o engenheiro civil Caio Jannuzzi de Souza Acervo Pessoal
Ângela de Fátima Pinheiro, 60 anos, fez uma máscara com visor transparente para que a filha, a arquiteta Gabriela Pinheiro de Souza, que é surda, possa fazer leitura labial dela e do genro, o engenheiro civil Caio Jannuzzi de Souza Acervo Pessoal
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Ângela de Fátima Pinheiro, 60 anos, fez uma máscara com visor transparente para que a filha, a arquiteta Gabriela Pinheiro de Souza, que é surda, possa fazer leitura labial dela e do genro, o engenheiro civil Caio Jannuzzi de Souza Acervo Pessoal
Ângela de Fátima Pinheiro, 60 anos, fez uma máscara com visor transparente para que a filha, a arquiteta Gabriela Pinheiro de Souza, que é surda, possa fazer leitura labial dela e do genro, o engenheiro civil Caio Jannuzzi de Souza Acervo Pessoal

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