Marcas da diversão: árvores acumulam pipas "voadas" na Zona Oeste - Danillo Pedrosa
Marcas da diversão: árvores acumulam pipas "voadas" na Zona OesteDanillo Pedrosa
Por Danillo Pedrosa

Árvores, telhados e fios de energia denunciam: a temporada de pipas continua aberta no Rio de Janeiro, já que a quarentena prolongou o período de 'férias' para milhares de adultos e crianças. Nos bairros do subúrbio, as marcas da diversão estão por toda parte, com linhas e peões perdidos numa brincadeira para todas as idades. Basta o sol começar a baixar para o céu da cidade ficar mais colorido nos finais de tarde. 

Os responsáveis pelo espetáculo no céu costumam ficar nas lajes e quintais das casas, seja nas comunidades ou em áreas nobres da cidade. Mesmo a distância, a interação é grande entre os vizinhos que gostam do passatempo. 'Pode vir' e 'Bota outra' são alguns dos gritos que fazem parte do vasto repertório de gozações entre os colegas que, por enquanto, precisam se comunicar de longe.

A diversão havia sido deixada de lado por muita gente nos últimos anos, e as poucas aparições de pipas costumavam acontecer entre janeiro e março ou em julho, no período de férias escolares. A quarentena, porém, manteve mais pipeiros em casa, resgatando a velha tradição do subúrbio carioca.

"Achava que era o único pipeiro de onde eu moro. Hoje, vejo muita gente soltando. Legal ver as pessoas que estavam afastadas soltando também. Tenho observado mais gente se divertindo com as pipas, lembrando os velhos tempos", afirma Carlos Magno, morador de Campo Grande, empresário e presidente da Associação de Pipas Artísticas e Esportivas do Estado do Rio de Janeiro (Aperj). Aos 34 anos, ele tenta passar a paixão para os filhos Kauzinho, de 3, e Maria Fernanda, de 2, levando-os até o quintal para soltar pipa no tempo livre.

Carlos Magno, presidente da Aperj, solta pipa com os filhos do quintal durante a quarentena - Arquivo pessoal

Para todas as classes

Tradição do subúrbio carioca, as pipas têm feito aparições até mesmo nos bairros mais nobres da Zona Oeste. Realengo é o bairro que tem mais tradição no assunto, com direito a peões no alto em quase todo fim de semana, mas até locais como Recreio e Barra da Tijuca têm sido tomado por pipeiros, que se divertem até em playgrounds de condomínios.

"Na Zona Oeste, Realengo, Campo Grande e Santa Cruz costumam ter mais, mas até no Recreio está tendo muita pipa na quarentena. Aqueles condomínios estão dando muito pipa. Recebo vídeos de amigos e vejo que até alguns famosos estão soltando pipas por lá",  conta Carlos Magno.

 

Pipa como esporte
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A luta da Aperj (Associação de Pipas Artísticas e Esportivas do Estado do Rio de Janeiro) é por muito mais que manter a cultura das pipas ativa no estado. A ideia é, pouco a pouco, superar o preconceito contra os pipeiros a ponto de fazer a prática ser reconhecida como um esporte. A inspiração vem do surfe e do skate.
"Queremos fazer algo parecido com o surfe e o skate. Só mudaram a visão das pessoas quando viram que virou esporte. Queremos que a gente vá por esse caminho. A pipa sempre foi esporte, mas ninguém levantou essa bandeira", disse Carlos Magno, conhecido como Kau, presidente da Aperj.
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Outra questão levantada pela associação é a regulamentação da linha esportiva, que contém material cortante, mas apenas em espaços destinados para prática da pipa esportiva, os pipódromos. Fora deles, o grupo defende a proibição devido ao alto risco de acidentes.
Entendemos o risco da linha, mas precisamos do combate. É o mesmo que o futebol sem trave, não tem gol. Usamos como base a lei do chile, da linha cortante". explica Kau.
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Vendas disparam na quarentena
Dono da Negão Pipas, em Campo Grande, Luciano Torres (e) é apaixonado pelo trabalho. Na foto, sua esposa Érika e os filhos João Gabriel e Pedro
Dono da Negão Pipas, em Campo Grande, Luciano Torres (e) é apaixonado pelo trabalho. Na foto, sua esposa Érika e os filhos João Gabriel e PedroDivulgação
O período da pandemia acabou rendendo um lucro inesperado para os lojistas que trabalham com pipas na região. Especializado no assunto, Luciano Torres, de 43 anos, é dono da loja Negão Pipas, em Campo Grande, e há muito tempo não via uma temporada de tantas vendas.
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"Tem sido uma das melhores temporadas que já vivi em relação a pipa. Com todo mundo em casa, o pessoal antigo voltou a soltar pipa. Pegou todo mundo de surpresa, ninguém esperava por isso. A procura foi está tão grande que falta material, está tudo mais caro", relata Luciano, que passou a paixão para os filhos Pedro, de 15 anos, e João Gabriel, de 9. Na quarentena, eles soltam pipas junta da laje de casa.
 
Pedro e João Gabriel, filhos de Luciano Torres, soltam pipa da laje de casa - Arquivo pessoal
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Em Santíssimo, Bruno Privat, outro empresário do ramo, mais que triplicou as vendas durante a pandemia. Por causa do aumento na procura, ele deixou de vender a varejo e está se dedicando apenas às vendas no atacado.
"Se ligar para qualquer fornecedor, quase não tem material. A demanda está muito grande. Todo dia recebo muitas mensagens de gente procurando pipas", relata Bruno, de 31 anos.
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Paixão que rompe fronteiras
Espalhar a cultura das pipas pelo mundo é um dos sonhos dos pipeiros mais fanáticos do Rio de Janeiro. Carlos Magno, presidente da Aperj, organiza campeonatos nacionais, estudais e até sul-americano. No ano passado, inclusive, ele foi ao Chile pela quinta vez para participar de um grande festival em Santiago, que acontece durante o feriado da pátria.
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"Foram cerca de 100 brasileiros. Ganhamos o primeiro, segundo e terceiro lugares. No chile, a pipa é profissional. Eles já fazem lá há muitos anos, mas não têm a mesma cultura daqui", explica Kau.
A aventura dos brasileiros vai virar até documentário, que será lançado no dia 29 deste mês, data em que é comemorado o Dia da Pipa, que desde 2018 é considerada patrimônio histórico, cultural e imaterial do Rio de Janeiro.
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