Na cartilha de Thaiane, ninguém fica de fora

Nem mesmo a pandemia afastou a jovem do prazer de ensinar crianças e adultos

Por O Dia

Nas salas de aula do país, a pandemia do novo coronavírus transformou o barulho de risadas acaloradas e ranger de carteiras em silêncio absoluto. As novas práticas de ensino, adaptadas a modelos remotos, trasportaram para dentro de casa o processo de aprendizagem e acentuaram as disparidades no acesso à internet e ao conhecimento no Brasil. A falta de amparo presencial, entretanto, não impediu que a paixão pela didática florescesse pela internet - de jovens, para jovens.

As novas lacunas no ensino levaram a técnica em enfermagem e professora Thaiane Oliveira, de 22 anos, a refletir sobre a importância da Educação não apenas para as crianças, mas também para os pais. Primeira da família a conseguir um diploma, a jovem optou pelo Curso Normal para poder alfabetizar a avó. Durante a pandemia, decidiu expandir os ensinamentos para outros lares, principalmente em comunidades e na periferia.

"Como eu moro em comunidade, sempre penso em ajudar pessoas menos favorecidas. Aqui, mesmo sem pandemia, as crianças quase não estudam por conta da violência. Muitas não conseguem falar comigo por falta de acesso à internet, e boa parte dos parentes não quer se envolver porque acha que vai haver algum tipo de cobrança", explica Thaiane. De forma voluntária, a jovem procura convocar outros professores que, assim como ela, ensinam por amor. 

O projeto Um Olhar Para o Ensino começou semana passada na casa de Thaiane, no Complexo do Chapadão, Zona Norte do Rio, e rapidamente se espalhou para outros estados brasileiros, a partir de uma postagem nas redes sociais. Agora, ela e a xará, Thayane Karine, têm equipe com dez professores, de Educação Infantil ao Ensino Médio, em cinco estados e no Distrito Federal, e uma psicóloga para acompanhamento psicopedagógico, além de um professor de xadrez online. A supervisão dos 15 alunos é feita por plataformas digitais, com aulas gravadas e em tempo real, podendo ser por telefone, caso não tenham acesso à internet. 

Recompensa inestimável

Thaiane trabalha a alfabetização de duas crianças e de uma senhora de 60 anos, a primeira aluna de Educação de Jovens e Adultos, e mostra que, apesar de recém-nascido, o projeto representa muito para os alunos. "Me emociono com o sorriso no rosto, o mesmo que via na minha avó quando a ensinava. Nem todos têm os mesmos acessos e as mesmas oportunidades, e consigo perceber que pais têm esperança porque sentem que seus filhos vão conseguir aprender algo durante a pandemia", comemora. 

Desafios da alfabetização remota

Do outro lado do país, no Maranhão, a estudante de Psicologia Brenda Rosa compõe a equipe coordenada por Thaiane. Durante o ensino remoto, ela reforça que o acompanhamento psicopedagógico representa um grande suporte para a família e para o aluno, sobretudo em fase de alfabetização.

"O processo é muito importante para a criança porque é o primeiro contato com um sistema de socialização para além do ciclo familiar, e vai proporcionar as primeiras noções de como funciona a sociedade, além de formação cultural e emocional. O afastamento da escola pode afetar a criança de formas inimagináveis, e os pais não estão preparados para lidar com as necessidades escolares dos filhos", afirma a jovem. 

O diferencial do projeto dos professores voluntários está na inclusão de pais no processo de alfabetização para que, caso haja alguma lacuna na sua educação, possa ser construído de modo a não impactar a formação de seus filhos. Segundo ela, o ensino dos responsáveis impacta positivamente em sua autoestima e garante autonomia, além de contribuir para o desenvolvimento emocional da família.

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