Covid-19: painel lançado por comunidades do Rio mostra alto número de óbitos em favelas

Levantamento realizado em parceira com a organização Comunidades Catalisadoras tem como objetivo mostrar a realidade dos números confirmados de coronavírus nas favelas. Números de casos e óbitos são superiores aos divulgados pela Prefeitura do Rio

Por Luísa Bertola*

Na Maré, painel aponta 110 mortes por covid, enquanto prefeitura ainda contabiliza 83
Na Maré, painel aponta 110 mortes por covid, enquanto prefeitura ainda contabiliza 83 -
Rio - As comunidades do Rio de Janeiro em conjunto com a organização Comunidades Catalisadoras (ComCat) lançaram, nesta quinta-feira, o "Painel unificador covid-19 nas favelas", feito com dados de 25 regiões. O levantamento, realizado com diversas organizações independentes, parceiras internacionais e instituições, aponta que os números oficiais da prefeitura da cidade são inferiores ao real. Eles mostram que, atualmente, são 4.057 casos confirmados nas comunidades e 639 óbitos. 
Um exemplo é o Complexo do Alemão, que de acordo com os dados da prefeitura são 12 casos confirmados e cinco óbitos, enquanto o painel das comunidades registra 108 casos confirmados e 37 óbitos.
Já no caso do Complexo da Maré, oficialmente, há 382 confirmados e 83 óbitos, bem menor que os 1.088 casos e 110 mortes do painel das favelas.
A diretora executiva da ComCat, Theresa Williamson, disse que o projeto vem sendo feito há mais de dois meses com ajuda de parcerias internacionais e tem como principal objetivo unificar os dados levantados por diversas organizações, além de melhorar o mapa da prefeitura, já que o órgão informa os dados na maioria dos casos pelos bairros.
"Há a necessidade de mobilizar e informar os dados que o poder público não disponibiliza, então, a gente está tendo o esforço porque sentiu a necessidade de suprir isso". Theresa ainda relembrou que as comunidades são as áreas mais vulneráveis para o vírus e que "o poder público precisa focar nessas áreas". 
Em entrevista ao DIA, ela afirmou que no mapa são registradas 25 favelas, mas algumas foram contabilizadas como complexos, como é o caso da Maré — que engloba 16 comunidades, do Lins, do Jacaré, entre outros. Isso representa mais de 100 favelas das mil registradas pela prefeitura. 
"Até agora, são 25 complexos ou favelas inclusos no mapa. Se fosse contar só favelas, seriam em torno de 120 comunidades. Ou seja, 10% das favelas estão contempladas no painel. Vale ressaltar que o painel possui desde favelas com 30 habitantes até favelas com mais de 100 mil moradores", afirmou a diretora.
Alguns dados são de registros da prefeitura, como o caso de Vigário Geral e outros são de organizações que participam ativamente ao combate a doença nas regiões, como o Redes da Maré, no Complexo da Maré, Favela Vertical, na Gardênia Azul, SOS Providência, na Providência, entre outros.
Como funciona o mapa
A ComCat se baseou nas recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS), que pede que em países com baixa disponibilidade de testes para a população sejam contabilizados também os dados de casos suspeitos.  
A diretora executiva explicou que o projeto funciona com os casos sintomáticos (em amarelo), que são feitos pela autodeclaração de moradores por um questionário, que já circula nas comunidades desde segunda-feira.
Além disso, no site, os moradores também podem preencher o formulário e relatarem os sintomas que apresentam e o algoritmo mostra se representa baixo, médio ou alto risco da covid-19. Os casos de baixo risco não são contabilizados pelo sistema, já os casos de médio e alto risco entram na conta. 
Os casos confirmados (em laranjas) e os óbitos (em vermelho) são registros confirmados por instituições e passaram pelo processo interno de confiabilidade e verificação.
De acordo com Theresa, um dos objetivos do painel é apoiar os esforços de prevenção realizados por movimentos comunitários, para informarem seus vizinhos e pressionarem por políticas públicas necessárias,
além de fornecer uma visão mais precisa do impacto da pandemia nas favelas. 
Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) informou que está  atenta e atuante na investigação de casos em comunidades. "Em parceria com o Ibope, a SMS está realizando o primeiro estudo sobre a covid-19 em comunidades do Rio, iniciativa que está na segunda fase de investigação epidemiológica. Os resultados permitirão a ampliação do planejamento de ações para controle, prevenção e diminuição do impacto da doença nas comunidades cariocas", disse a pasta. 
"É preciso que fique muito claro a diferença fundamental entre os métodos utilizados para levantar as informações sobre casos de Covid-19 em comunidades. A Prefeitura do Rio utiliza um sistema de informação oficial, baseado nos casos confirmados por exame feito em laboratório. Este padrão é nacional e tem um critério científico e objetivo", completou a SMS. 
Segundo a pasta, a Prefeitura - como órgão público responsável por mapear a pandemia e implantar políticas públicas para combatê-la - não pode e não deve trabalhar com métodos como inquérito verbal/autodeclaração, que levam em consideração a informação de sinais e sintomas, o que resulta no levantamento de casos prováveis de infecção - e não de casos confirmados.
*Estagiária sob supervisão de Adriano Araujo

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