Milícia vive conflito interno e mortes por divergências na forma de atuação

Acordos com facção criminosa têm causado subdivisões nos grupos de milicianos

Por Yuri Eiras

Morro da Barão, na Praça Seca
Morro da Barão, na Praça Seca -
Conflitos internos têm marcado uma nova fase das milícias que atuam no estado do Rio de Janeiro. Focados em alcançar novas regiões, alguns grupos se aproximaram da facção Terceiro Comando Puro (TCP), especialmente na região entre Madureira e Jacarepaguá. Chamada de 5.3 - '5' é sinônimo de tranquilidade no vocabulário dos milicianos, e '3' é a saudação do Terceiro Comando -, a aliança mexeu com o tabuleiro do crime organizado carioca.
No fim de junho, líderes da milícia que domina o Quitungo, em Brás de Pina, Zona Norte, entraram em confronto por discordarem da união com o tráfico de drogas. Moradores relataram tiros na noite do dia 25. Pela manhã, dois corpos foram encontrados na comunidade. "Eles (milicianos) estão se matando. Até policiais se mudaram do Quitungo por causa dessa união", relata um morador nas redes sociais.
No dia seguinte, em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, um miliciano de Jacarepaguá foi assassinado na comunidade do Babi. A reportagem teve acesso a mensagens trocadas em grupos. Nelas, amigos afirmam que o criminoso foi vítima de uma emboscada feita pela própria milícia e juraram vingança. "Efetivo e disposição nós temos. Vamos levar isso à frente", escreveu um colega. "Ele era da firma. Não se faz isso com amigo da firma. Foi tratado como ganso (gíria usualmente usada para traficantes). Vamos pular naquela p... lá", prometeu outro.
Professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e autor do livro 'Dos Barões ao Extermínio: Uma História da Violência na Baixada Fluminense', José Cláudio Alves aponta que um processo de subdivisão entre as milícias está em curso no Rio e Região Metropolitana.
"As milícias estão se proliferando, e elas se subdividem em acordos que fazem entre si. Como a estrutura que ela usa é a do Estado e do próprio aparato policial, elas têm uma dinâmica própria de controle de áreas. Essas áreas passam a ser divididas ou unificadas de acordo com negociações. Essa é a forma que a milícia acaba se propagando", comenta Alves. "A milícia abriu um leque de interesses que vai além do assassinato de aluguel, que era o que o grupo de extermínio fazia. Vender água, gás, transporte clandestino, combustível adulterado, cesta básica, terrenos, imóveis, vaga em hospital, vaga em trabalho...Esse conjunto de bens e serviços que eles vão monopolizar vai também promover um conjunto de conflitos".
Traficante estaria escondido por milícia
Informações do Disque Denúncia apontam que um traficante conhecido como Lacoste esteve escondido no último mês em uma comunidade da Praça Seca, com apoio da milícia local. Lacoste é o apelido de Wallace de Britto Trindade, chefe do tráfico no Morro da Serrinha, dominado pelo Terceiro Comando. A denúncia dá conta de que 50 criminosos armados fazem a segurança do criminoso. A região é dominada pelo miliciano Edmilson Gomes Menezes, o Macaquinho. O Portal dos Procurados oferece R$ 1 mil por informações que levem à prisão de Lacoste, e outros R$ 1 mil por Macaquinho.
Macaquinho comanda a milícia do bairro do Campinho - rlima/Divulgação


No mapa da cidade, a proteção é estratégica: unidos, Terceiro Comando Puro e milícia criariam um cinturão nas favelas da Zona Oeste para rivalizar com o Comando Vermelho, maior facção do Rio. No último dia 8 de julho, o CV tentou invadir o Morro da Barão, na Praça Seca. O confronto entre traficantes e milicianos deixou três mortos.
Alves ressalta que, para a milícia, construir alianças com o TCP, além de ser importante para isolar o CV, gera lucros, já que os paramilitares alugam os pontos de venda de drogas. "A principal facção que estabelece essa relação com a milícia é o Terceiro Comando Puro. E o principal motivo que a milícia vai fazer essa aliança está associado a mais ganhos. Você mantém aquelas áreas sob o controle do Terceiro Comando, impedindo a entrada do Comando Vermelho, esse, sim, o principal inimigo das milícias, da polícia e do Terceiro Comando. O CV possui uma concepção muito mais reativa e beligerante de confronto. Nessa dinâmica, é interessante à milícia alugar pontos de vendas de drogas", analisa o sociólogo.

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Morro da Barão, na Praça Seca Reprodução / Internet
Macaquinho comanda a milícia do bairro do Campinho rlima/Divulgação
Lacosta, chefe da Serrinha, é procurado rlima/Divulgação