JR PEREIRA
JR PEREIRADivulgação
Por Bruna Fantti
Publicado 12/10/2020 11:20 | Atualizado há 4 dias
Rio -- Em entrevista ao O DIA o empresário JR Pereira, que está à frente do projeto do Autódromo de Deodoro, fez uma confissão: já solicitou a mudança do local do autódromo ao Exército, que negou. O empresário, até então desconhecido, ganhou destaque na imprensa ao encabeçar o projeto que prevê a derrubada de 70 mil árvores de uma região protegida. Além disso, teve seu nome envolvido na liminar que justificou a busca e apreensão na casa e no gabinete do prefeito Marcelo Crivella. Em um trecho, o Ministério Público afirma que Rafael Alves, apontado como um dos protagonistas do esquema de corrupção na prefeitura, teve encontro agendado com Pereira, o que segundo a promotoria “revela a indispensável validação e aprovação de Rafael Alves para o avanço das negociações”. Pereira nega.
O DIA: Qual foi o motivo do encontro com Rafael Alves?
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JR PEREIRA: Eu não tive encontro com o Rafael Alves. Aquela mensagem ali (reproduzida na liminar do Ministério Público, na qual um encontro entre os dois é agendado), naquele dia ali, eu fui visitar o Marcelo Alves, irmão dele, então presidente da Riotur. E, quem me levou até ele foi o Marcelo Falhauber, que era o cara de marketing do prefeito. Eu tinha ligado para ele, dizendo que a gente estava terminando um estudo de viabilidade da PMI (Proposta de Manifestação de Interesse), mas que tinha uma pouca resposta dos secretários e de todos que estavam envolvidos nessa PMI. Então, pedi a reunião com o Marcelo e, nessa reunião, conheci o Rafael Alves. Até achei ser uma boa pessoa, achei que trabalhasse lá.
DIA: E onde foi esse encontro e o que foi tratado?
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PEREIRA: Foi na Cidade das Artes. O processo do autódromo começou em fevereiro de 2017. Foi uma chamada pública, que é a PMI. E a PMI é isso: a prefeitura faz uma chamada pública, diz que não quer gastar dinheiro com isso, mas quem quiser fazer um estudo para esse projeto ser viabilizado, pode se apresentar. Então, qualquer empresa poderia ter se apresentado. Nós nos habilitamos para desenvolver o projeto, sem custo para a prefeitura. E, quando você faz a PMI, você está autorizado a conversar com qualquer ente público para ver a viabilidade do projeto, encontrar com qualquer secretário para isso era normal. E, por isso a gente estava conversando com o Marcelo Alves. Ele tinha ideia de carnaval, de atrair patrocinadores. Nós temos muitos patrocinadores e queríamos coordenar isso melhor. Esse foi o mote da conversa.
DIA: Então, não houve nenhuma tratativa de influência na licitação do autódromo nessa reunião?
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PEREIRA: A gente já estava habilitado pela prefeitura a fazer o tratamento do projeto. Não precisava de influência alguma e já tínhamos feito contato com o Prefeito, em fevereiro de 2017. A forma como está relatada pelo MP essa conversa está fora de time (tempo).
DIA: Como o senhor pretende financiar a construção do Autódromo de Deodoro?
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PEREIRA: O valor de investimento já está definido através de fundos internacionais. E de grandes patrocinadores, que têm interesse na mudança da Fórmula 1 de São Paulo para o Rio.
DIA: A CVM (Comissão de Valores Mobiliários) desconfia de possível uso de fundos de pensão, que seria dinheiro público. Tem dinheiro público também?
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PEREIRA: Não sou da área financeira e quando vi o comunicado da CVM, nem entendi. Nós não estamos acessando nenhum fundo estatal ou privado.
DIA: A licitação que lançou o autódromo exigia que a empresa tivesse experiência na área de administração de eventos esportivos. A Motopark, na qual o senhor é diretor-executivo, e que venceu o certame, foi criada somente 11 dias antes do resultado. Isso não seria irregular?
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PEREIRA:  O edital diz que poderia apresentar consórcio. O TCM (Tribunal de Contas do Município) exigiu que as empresas internacionais tivessem uma empresa com sede no Brasil para participar e assim foi criada a MotoPark, que representa o consórcio, que tem ampla experiência de gestão esportiva.
DIA: Como o senhor recebe as críticas de ONGs ligadas ao Meio Ambiente de que é um empresário que fomenta o desmatamento?
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PEREIRA: Nunca é bom escutar isso. Mas, tirando esse quesito do desmatamento e alguns números que o pessoal fala que não correspondem à realidade, por exemplo: que tem 200 mil árvores, quando são 114 mil árvores; não possui mata nativa na região. Essa parte, às vezes política do comentário, é sempre ruim, porque cria uma estática na comunicação de passar a verdade em relação ao autódromo. Mas, do ponto de vista das críticas técnicas que foram feitas por eles e passados para o Inea, a gente recebe muito bem. Assim conseguimos sempre melhorar o projeto. E, o projeto, é 100% sustentável, que é uma exigência da Fórmula 1 e dos investidores. 
DIA: O senhor pensa em aceitar a sugestão de transferir o autódromo para outro local, que já tenha sido desmatado?
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PEREIRA:  Quando as ONGs fizeram essa sugestão em audiência pública, nós pedimos ao prefeito que enviasse um ofício ao Exército oficialmente perguntando se poderia fazer nessa outra área, que o grupo havia sugerido na audiência. E o Comando Maior do Exército disse que não poderia, que era uma área de segurança nacional, e que a área escolhida em 2006, inclusive já tem uma lei própria disso, é essa atual. Então, a gente acatou essa crítica construtiva deles, fizemos essa consulta ao Exército, mas o Exército não quis fazer isso. Então, não é que existam outras áreas e a gente não quer. Nós até tentamos, mas não obtivemos sucesso.
DIA: Mas se o Exército autorizar, o senhor poderia mudar o autódromo de lugar?
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PEREIRA: Se o Exército autorizasse. Nesse caso, eu acho um pouco tarde demais, porque teria que fazer todo um ressarcimento, mas, no limite, se fosse uma decisão de Estado...mas teria que rever todos os acordos assinados: Ministério do Esporte na época, prefeitura, com o estado, com a União, com o COI (Comitê Olímpico Internacional). Acho que seria muito difícil de acontecer.
DIA: O senhor pretende construir prédios, além do autódromo?
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PEREIRA: Não. Essa é uma outra informação que saiu truncada. Quando nós começamos o projeto, a nossa contrapartida era 41% da área ( ter à disposição). E todo mundo achou que era justamente para construção imobiliária. Quando isso aconteceu, várias empresas imobiliárias nos procuraram, fazendo várias propostas. Nós analisamos isso e, na época, resolvemos deixar de lado, porque a nossa preocupação era realmente o autódromo. Conforme o tempo passou e a gente viu que a forma de construção imobiliária iria ter um conflito com o que gostaríamos de fazer, nós então desistimos disso. E, depois que nós desistimos, e que isso apareceu na audiência pública, nós formalizamos ao Inea, e isso passou a ser um condicionante: pode construir o autódromo, mas vai ter que garantir, em escritura, que não vai fazer o desenvolvimento imobiliário na área.  
DIA: Como o senhor quer ser conhecido no futuro?
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Pereira: Gostaria muito de ser conhecido como o chefe de uma equipe que trabalha muito, que está enfrentando uma crise super difícil, desenvolvendo um projeto desse durante um ano em que a gente não pode viajar...que a gente perde o contato com a Fórmula 1, com investidores. Tudo é muito mais difícil. Mas que nós conseguimos implantar esse autódromo e que conseguimos trazer esses grandes eventos para o Rio, gerando renda, gerando alegria para o carioca, respeitando a parte sustentável e mostrando que tem uma forma de trabalhar sem ter que usar atalhos para isso.