Na sexta-feira, a Polícia Civil realizou uma ação conjunta que resultou na apreensão de várias armas de milicianos - Estefan Radovicz
Na sexta-feira, a Polícia Civil realizou uma ação conjunta que resultou na apreensão de várias armas de milicianosEstefan Radovicz
Por Thuany Dossares
Publicado 18/10/2020 00:00 | Atualizado 20/10/2020 11:20

Candidatos às Eleições de 2020 para cargos municipais na Zona Oeste do Rio e na Baixada Fluminense serão chamados para prestar depoimento, a partir de amanhã, na Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), para esclarecer um possível relacionamento com milicianos. O DIA confirmou que os primeiros a serem intimados serão candidatos de Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio, e Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Uma força-tarefa criada pela Polícia Civil investiga a suspeita de exclusividade de curral eleitoral em área de atuação de grupos paramilitares.

Desde o início dos anos 2000, as ações dessas organizações criminosas são investigadas. Elas são conhecidas pelo uso de violência e cobram pela suposta segurança a moradores. Nas eleições, os milicianos atuam com promessas financeiras para ajudar na vitória dos políticos nas urnas, além de garantirem currais eleitorais.

"Temos informações de certos candidatos que têm acesso exclusivo a uma determinada localidade. A gente recebe esse tipo de notícia, principalmente pelos outros candidatos que avisam que não têm como acessar determinada área. Essas notícias chegam direto na Secretaria de Polícia Civil ou via Tribunal Regional Eleitoral (TRE). A gente vai trazer essas pessoas para serem ouvidas, no sentido de explicarem porque eles têm trânsito exclusivo em determinado local. Serão convocados lá na Draco para que expliquem o porquê disso", disse o delegado Rodrigo Oliveira, subsecretário de Planejamento e Integração Operacional da corporação.

A força-tarefa foi criada após o assassinato dos candidatos a vereador de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, Mauro Miranda da Rocha, no dia 30 de setembro, e Domingos Barbosa Cabral, no último dia 10. De acordo com o delegado, a Polícia Civil não descarta a possibilidade de que as mortes tenham motivação política.

"Essas duas investigações estão sendo feitas pela Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense e são mantidas em sigilo. Mas a linha do processo eleitoral não é uma linha de investigação que está descartada, há de se considerar, sim, essa possibilidade. O que a gente não pode afirmar é que um homicídio tem a ver com o outro, apesar de ambos terem acontecido no mesmo município, num espaço de tempo pequeno", explicou o delegado.

 

Combate à milícia
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O principal foco da força-tarefa é o combate à milícia, que segundo relatório de inteligência da polícia atua, na Zona Oeste do Rio, principalmente nos bairros Campo Grande, Jacarepaguá, Paciência e Santa Cruz, em todas as cidades da Baixada Fluminense e em Itaboraí, na Região Metropolitana. O subsecretário recordou que esse tipo de atividade criminosa ganhou força há mais de 10 anos, na Zona Oeste do Rio, se aliando à política e vendendo currais eleitorais para conquistar eleitores para seus candidatos através de voto de cabresto.

"Tem-se um processo eleitoral em andamento e uma prioridade de ataque à milícia. Nesse momento, essas duas coisas convergem na mesma direção, que é justamente a gente impedir que haja esse tipo de voto de cabresto, que as pessoas sejam direcionadas a determinado tipo de voto por força do poder de armas que se fazem impor, seja em força do poderio financeiro. A prioridade de agora até o dia das eleições, serão as eleições", disse o subsecretário.

Este ano, o governo do estado não solicitou auxílio do Ministério da Defesa para que forças federais militares apoiem às eleições municipais. Durante a campanha, a força-tarefa da Polícia Civil estará acompanhando o trabalho dos candidatos que atuam nas regiões mapeadas. Rodrigo Oliveira garantiu que no dia da votação também será realizada uma operação presença nessas localidades.

"Nesse momento prévio, todos os departamentos estão envolvidos com as investigações que estão sendo centralizadas na Draco. A Subsecretaria de Inteligência também está produzindo uma série de relatórios, informações. Já estamos realizando algumas operações e, independente disso, no dia 15, a Polícia Civil vai estar com todo efetivo dela na rua, fazendo uma operação presença, para garantir o pleito eleitoral nas áreas que a gente entende serem sensíveis, que são as áreas de milícia", declarou.
Corrida eleitoral já fez diversas vítimas na Baixada
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Na última corrida para o pleito municipal, pelo menos sete cidades da Baixada Fluminense registraram atentados contra candidatos. As investigações da Delegacia de Homicídios (DHBF) apontaram suspeita de participação de milicianos em alguns crimes. Entre 2015 e 2018, a especializada investigou a morte de 16 políticos.

A primeira vítima foi o pré-candidato a vereador de Paracambi, Darley Gonçalves Braga, em 11 novembro de 2015. Quatro dias depois, a vítima foi Luciano Nascimento Batista, vereador de Seropédica, e a principal suspeita é de que sua morte tenha sido ordenada pela milícia de Três Pontes. Naquele mesmo ano, também foi assassinado o pré-candidato vereador de São João de Meriti, Nelson Gomes de Souza, e o vereador de Paracambi, Marco Aurélio Lopes.
Em 2016, foram nove homicídios, no ano corrida municipal. Em cinco dos crimes, a DHBF suspeitou da participação da milícia de Três Pontes ou de Duque de Caxias. As vítimas dos grupos paramilitares foram: o vereador de Magé Geraldo Cardoso Gerpe; Leandro da Silva Lopes, pré-candidato a vereador de Duque de Caxias; Manoel Primo Lisboa, pré-candidato a vereador de Nova Iguaçu; Sérgio da Conceição de Almeida Júnior, o Berém do Pilar, pré-candidato a vereador de Duque de Caxias; e do assessor de Duque de Caxias Denivaldo Meirelles da Silva.
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Já em 2018, foram assassinados o suplente de vereador em Magé, Paulo Henrique Dourado Teixeira, o Paulinho P9, o suplente de vereador em Seropédica, Raquel Siqueira Cardoso, e o ex-candidato à prefeitura de Seropédica, Miguel Steffan de Souza.
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