Arte Kiko  - Arte Kiko
Arte Kiko Arte Kiko
Por ANA CARLA GOMES
“Se números frios não tocam a gente/Espero que nomes consigam tocar”. Os versos são do poeta cearense Bráulio Bessa, musicados pelo paraibano Chico César. Em maio, Chico mostrou, num vídeo no Instagram, um registro caseiro da canção que teve sua origem em dados do memorial ‘Inumeráveis’. Através dele, vítimas da covid-19 deixam de ser números para se revelarem em histórias de vida. Nunca serão apenas estatísticas.
Amanhã é Dia de Finados. Mas o coração de quem já viu alguém muito querido partir não escolhe data para saudade. Ela pode vir em forma de lembrança através da comida que aquela pessoa tão querida mais gostava. Na melodia da canção que quem nos deixou mais curtia ou na risada que nos vem à mente, daqueles que estão em outro plano agora. E também através de frases e causos que fazem a família sorrir novamente ao se lembrar de quem não está mais fisicamente por aqui. Mas nunca morreu em pensamento.
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Todos os que já nos deixaram, não importa há quantos anos, são lembrados por memórias bem particulares. Como a máquina de escrever do professor Vilmar, pai da minha amiga de infância Camila. O objeto, usado por ele diariamente para trabalhar, está bem guardado. Para outra amiga, a Delma, a memória da mãe, Isaura, está no biscoito amanteigado de fécula de batata. Em Brasília, o chef Bruno Domingos presta, com a arte de cozinhar, uma linda homenagem à Alanna, a companheira que o deixou em 2017. O nome dela batiza um dos pratos mais pedidos do seu delivery.
A recordação está também na realização de um sonho. Como vi o psicólogo Rossandro Klinjey contando numa live com o poeta Fabrício Carpinejar durante a pandemia. Sua mãe idealizava a ida ao Natal Luz de Gramado, mas não conseguiu concretizá-la. Toda vez que ele é aplaudido em palestras na cidade do Sul do país, Rossandro fala internamente: “Está vendo aí, mãe?”.
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Os 26 países visitados pelo meu ex-chefe Carlos Silva ao lado de sua saudosa Airam, que o deixou em dezembro de 2018, estão simbolizados nas lembranças trazidas desses lugares. Em cada laço dessas sempre difíceis despedidas da vida estão milhares de caminhos percorridos. Não apenas em milhas de voos, mas em memórias trilhadas.