Crianças que ocupam o prédio participam do projeto social - Arquivo pessoal
Crianças que ocupam o prédio participam do projeto socialArquivo pessoal
Por Luísa Bertola*
Rio - As famílias que foram despejadas da Casa Cruz, na Rua Ramalho Ortigão, no Centro do Rio, no ínicio de setembro, estão passando por uma segunda ordem de despejo após ocuparem um prédio na Avenida República do Paraguai, também no Centro. Leo Motta, ativista do projeto "A rua é a casa de muitos, não deveria ser a de ninguém", relatou, em entrevista ao DIA, que no local ocupado há dois meses, vivem 10 famílias, com 33 crianças, uma gestante e até um senhor de 70 anos.

Leo contou que várias das famílias que moram no local ficaram desempregadas durante o período de pandemia da covid-19, e atualmente não têm local para morar. Após o primeiro despejo, essas pessoas ficaram três dias nas ruas e logo depois ocuparam esse prédio.

A ação de reintegração de posse foi feita pelo Instituto Brasileiro de Música e Educação (IBME) e as famílias precisam sair do local até a próxima terça-feira, 1º de dezembro, conforme determinado pelo mandado do Tribunal de Justiça. 

"O local está bem ruim. Precisamos trocar as telhas porque estava inundando", afirmou. 
Na decisão da Justiça, a defesa afirma que o prédio é usado para as atividades de "ações pedagógicas e administrativas do Programa Orquestra Escolas", "atividades de formação continuada para professores do ensino fundamental e da educação infantil da Rede Pública Municipal de Educação e produção de recursos pedagógicos, metodológicos e materiais no âmbito do Projeto Sinta o Som" e que está impedido de usar o prédio.
Publicidade
"O autor da ação encontra-se impedido de cumprir a missão assumida com o município do Rio de Janeiro porque o imóvel hoje se encontrado esbulhado pelos réus", afirma o texto da defesa. 
Segundo o ativista do projeto, "é um desperdício" colocar essas pessoas de volta nas ruas. 
Publicidade
"Nós lançamos um apelo desesperado para que suspenda a ação de despejo movida pela senhora e por seu Instituto Brasileiro de Música e Educação contra nós e nos dê, ao menos, o tempo para que possamos conseguir um outro lugar que nos abrigue e que igualmente possa acolher nosso Projeto Cultural que atende aos nossos irmãos e irmãs em situação de rua e suas crianças", escreveram em apelo a ordem de despejo.
Leo também informou que será realizado uma manifestação pacífica, nesta sexta-feira, às 8h, no Centro, para pedir ajuda por essas famílias que não tem onde morar no momento. 
Publicidade
Em nota, a prefeitura informou que as dez famílias "já foram despejadas da Casa Cruz, na Rua Ramalho Ortigão, no início de setembro". Confira a íntegra:

"A Subsecretaria de Patrimônio Imobiliário informa que o prédio citado pertence ao município e encontra-se cedido, desde agosto deste ano, ao Instituto Brasileiro de Música e Educação (IBME).

A Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos (SMASDH) acompanha regularmente a situação da ocupação na Av. República do Paraguai, s/n, através do CRAS Professora Ismênia de Lima Martins.

Atualmente, são cerca de 25 pessoas vivendo no local, entre adultos, crianças, idosos e pessoas com deficiência (auxiliados pelo Benefício de Prestação Continuada - BPC). As famílias já tiveram atendimento via CRAS, e algumas delas estão incluídas no projeto de Acompanhamento Familiar (PAIF). Todos os adultos estão recebendo o auxílio emergencial, fora os que recebem o BPC.

Em visitas anteriores, os agentes do CRAS ofereceram a possibilidade de acolhimento institucional às famílias, mas não obtiveram sucesso. A SMASDH seguirá acompanhando o caso."
Projetos sociais no local

Leo contou que no local, ele e os voluntários do projeto realizam ações sociais com as crianças, com projetos de rodas de capoeira, música, capoeira, além da alfabetização. Segundo o idealizador do projeto, nesta terça-feira, eles começaram o processo de alfabetização das crianças, que vão de 0 a 14 anos,

"A maioria não saber ler, então iniciamos aulas de alfabetização. Conseguimos doação de carteiras e um quadro para poder dar aula. Coloquei todos de uniforme para fazer um ambiente escolar", revelou.

Além disso, ele informou que em outubro, no Dia das Crianças, o projeto promoveu uma festa para os pequenos. "Tentar acabar com o trauma. O despejo foi traumatizante".
Publicidade
Também está sendo organizado uma ação para uma campanha de Natal neste ano, no qual todas as crianças irão receber presentes.
*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes