"Os sons da nossa natureza — pássaros, assobios ou um tom de voz mais característico — também ficam gravados na nossa memória e basta fecharmos os olhos para que eles ecoem novamente" - Arte Kiko
"Os sons da nossa natureza — pássaros, assobios ou um tom de voz mais característico — também ficam gravados na nossa memória e basta fecharmos os olhos para que eles ecoem novamente"Arte Kiko
Por ANA CARLA GOMES
Sabe aquela sensação de entrar no mar, desde a beirinha até se molhar totalmente? Posso praticamente revivê-la só de pensar na cena. Com a água gelada, vamos nos molhando aos poucos, dando pulinhos, até nos adaptarmos à temperatura. Quando crianças, ficamos na água até os dedos se enrugarem. E o barulhinho das ondas vai dormir junto com a gente. Banho de mangueira na infância também me transmite alegria: aquela água sendo espirrada para todos os lados e a garotada gargalhando ao redor.
Sensações nos movem e nos guiam no mundo. Se falta a visão aos cegos, eles tateiam. O sistema em Braille está ali, em alto relevo, para ser sentido. Não lhes faltam o olhar do coração e nem a sensibilidade de quem grava fragrâncias e identifica sabores.
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Sentir faz tanto sentido para nós que angustiam os relatos de quem se curou da covid-19 e ainda sofre pela perda de olfato e paladar mesmo após a reabilitação. Um perfume passa a ser marcante quando usado por alguém. Basta o aroma chegar para denunciar a presença da pessoa. Assim como é impossível passar despercebido com o cheiro da tangerina se revelando no ambiente. Os sons da nossa natureza — pássaros, assobios ou um tom de voz mais característico — também ficam gravados na nossa memória e basta fecharmos os olhos para que eles ecoem novamente.
Parece que temos, cada um de nós, uma vitrola particular. Quem mora perto de uma igreja, como o meu amigo Macarrão, em Marechal Hermes, sabe que, às 18h, o sino toca, anunciando a hora da Ave Maria. Na minha casa, na Baixada Fluminense, o barulho dos aviões rumo ao pouso no Aeroporto Internacional Tom Jobim já se tornou um pouco nosso também.
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A voz que avisa as estações no metrô, as buzinas dos carros, o locutor que tornou famoso o "Suderj informa", no Maracanã. Já imaginaram quantos sons tocam nossas sensações, permeando nosso dia a dia e nossa história?
E o paladar? Há uma riqueza de sabores nesse Brasil, como o azeite de dendê na Bahia ou o manjericão que dá um toque peculiar a uma boa massa. Já o cheirinho potente do milho estourando anuncia a presença do pipoqueiro. Há pratos que só de destampar a panela já sentimos o cheirinho e sabemos do que se trata. E aí, olhem só, voltamos à fragrância. As sensações são mesmo os temperos que apimentam a vida.