Enterro no Jardim da Saudade, de Eliana Almeida de Carvalho. morta em acidente com o BRT. Na foto, a mãe de Eliana, Sra. Maria da Guia, sentada.
Enterro no Jardim da Saudade, de Eliana Almeida de Carvalho. morta em acidente com o BRT. Na foto, a mãe de Eliana, Sra. Maria da Guia, sentada.Estefan Radovicz / Agencia O Dia
Por Bernardo Costa
Rio - Nas semanas anteriores à sua morte, na quarta-feira, a vítima de uma colisão entre o ônibus do BRT em que estava e um carro que invadiu a pista seletiva, Eliana Almeida de Carvalho, de 57 anos, prestava assistência a uma vizinha, também vítima de acidente na pista do BRT. A colega foi atropelada, quando descia do ônibus, por uma moto que invadiu a faixa seletiva. Eliana foi sepultada na manhã desta sexta-feira, no Cemitério Jardim da Saudade, em Sulacap. Já a vizinha Ana Selma Reis está em casa, com uma perna amputada.

"Minha esposa e eu estávamos cuidando dela e, há 15 dias, levamos quatro cestas básicas para ela. Pouco depois, a vítima era minha esposa. Mais uma trabalhadora a sofrer neste transporte indigno e humilhante do Rio. O ônibus estava lotado, como sempre, e tombou com a batida, causando a morte dela", disse o porteiro José Ricardo de Carvalho, de 54 anos, viúvo de Eliana, que também deixa três filhas e três netos.

O sepultamento de Eliana é marcado por um tom de protesto. Familiares e amigos empunham cartazes com dizeres como "Pedimos às autoridades mais fiscalização e punição aos infratores de trânsito" e "Até quando, prefeitura? Mais uma vida perdida". Em outro, se lê "Mais uma família destruída", ao lado de um desenho de um ônibus do BRT.

"O povo trabalhador está abandonado pelo poder público. E é obrigado a sofrer dentro dessas latas velhas e superlotadas todos os dias. A gente só queria um transporte digno para ir trabalhar e voltar para casa com tranquilidade, e poder descansar para o ganha pão do dia seguinte", desabafou José Ricardo.

Eliana de Carvalho, moradora de Campo Grande, trabalhava como servente em uma escola particular no Recreio dos Bandeirantes. Após completar dois anos de serviço, ela pretendia voltar a trabalhar em casa, em uma creche improvisada no quintal, onde cuidava das crianças da vizinhança.

"Ela não suportava mais o desgaste nos ônibus. Eram três conduções todos os dias e cerca de duas horas e meia nessas carroças precárias que temos na cidade. Por que fiscalizam as aglomerações em bares e restaurantes e não nos ônibus? Por que os trabalhadores têm que sofrer do jeito que sofrem?", questiona José Ricardo.

"Infelizmente, hoje é minha tia que morre. Amanhã será outra família a sofrer com a precariedade do nosso transporte. No dia seguinte à morte dela, um amigo mandou foto com o BRT lotado em Santa Cruz e com as duas portas abertas. Para cair alguém e morrer, não custa", disse Cristina Almeida de Carvalho, de 37 anos, sobrinha de Eliana.
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Polícia investiga acidente

A 43ª DP (Guaratiba) abriu inquérito para apurar o acidente. Os investigadores afirmam que o veículo que invadiu a pista, causando a colisão contra o ônibus, havia sido roubado na área da Penha, neste mês, e trafegava com placa clonada da cidade de Santo André, em São Paulo. Os policiais analisam câmeras de segurança da região para tentar identificar o motorista, que fugiu após o acidente.
Posicionamentos
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Em nota enviada ao DIA, Secretaria Municipal de Transportes (SMTR), informou que os corredores do BRT são monitorados por câmeras da Cet-Rio, que fiscalizam o tráfego indevido de veículos particulares na calha. Além disso, disse que a Guarda Municipal do Rio atua diariamente na fiscalização de trânsito com foco também nas infrações cometidas nas pistas exclusivas dos corredores do BRT e que guardas do Grupamento Especial de Trânsito realizam rondas para coibir esta infração que, além de atrapalhar a circulação dos ônibus nos corredores do BRT, também pode causar graves acidentes na via. 
Por fim, afirmou que "a infração por circulação indevida na faixa ou via de trânsito exclusivo, regulamentada com circulação destinada aos veículos de transporte público coletivo de passageiros, é prevista no artigo 184, inciso III, do Código de Trânsito Brasileiro (CTB), é considerada gravíssima, tem pena de multa de R$ 293,47 e perda de sete pontos na Carteira Nacional de Habilitação".  
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Já o BRT disse que está prestando todo apoio à família da Eliana de Carvalho e que está trabalhando com toda a sua capacidade operacional e se empenhando ao máximo para prestar um serviço melhor aos passageiros com a reforma de estações, apesar da grave situação financeira.
"Diariamente, os articulados do BRT Rio enfrentam o desafio de ter a pista exclusiva invadida por outros veículos. E o resultado dessa infração é preocupante: somente em 2020 houve 130 colisões com carros e motos".
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Ao finalizar, informou que o consórcio faz campanhas permanentes em suas redes sociais alertando para os perigos da invasão à pista exclusiva e da conversão proibida, e reitera a conscientização necessária por parte de todos – motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres para evitar esse tipo de acidente. 
Já a Polícia Civil disse que instaurou inquérito para investigar o acidente e que policiais analisam as câmeras instaladas na região e as investigações prosseguem para identificar o motorista do automóvel, que fugiu do local.