Assim, em casa, olhando as fotos em que pareço estar num voo, pensei em quantas histórias os nossos olhares e corações já confidenciaram às janelas de um aviãoArte: Kiko
Nas nuvens
"'Será que ele (ou ela) vai gostar do que comprei na viagem?' Afinal, clichê ou não, 'estive pelo mundo e me lembrei de você' é sinal de amor. E dos bons"
Dizem que os cancerianos são sonhadores, e talvez por isso eu também adore viajar mesmo sem sair do lugar. Volta e meia, vejo uma foto minha e relembro o momento vivido ou embarco em novos pensamentos através daquela imagem. E assim aconteceu quando eu passei os olhos, uma semana depois, em cliques que havia registrado na instigante exposição 'A tensão', do argentino Leandro Erlich, no CCBB-RJ. Aquele novo olhar me fez zarpar na fantasia de uma maneira bem diferente do "ao vivo".
Numa das obras, uma janela de avião aparece fixada numa parede, trazendo o céu azul e as nuvens de um voo diurno. O zumbido das viagens aéreas também está presente, apesar de os visitantes estarem com os pés bem fincados no chão. Mas a imaginação, com toda a sua magia, tem o poder de nos fazer voar. Assim, em casa, olhando as fotos em que pareço estar num voo, pensei em quantas histórias os nossos olhares e corações já confidenciaram às janelas de um avião.
Diante da imensidão azul, podemos viver a expectativa pela viagem que está por vir ou a lembrança do destino que ficou para trás; a saudade já apertada de quem nos despedimos ou a ansiedade pelo reencontro com alguém querido. "Será que ele (ou ela) vai gostar do que comprei na viagem?" Afinal, clichê ou não, "estive pelo mundo e me lembrei de você" é sinal de amor. E dos bons.
Também já encarei as nuvens lá no alto, carregando uma vontade imensa de voltar para casa, após a minha primeira viagem internacional. Eu tinha 17 anos à época e retornava de um intercâmbio de um mês em Londres pelo curso de Inglês. E havia chorado de saudades de casa praticamente todos os dias.
As janelas do avião são também testemunhas dos nossos sentimentos mais íntimos. Lembro que, numa das viagens para uma competição de vôlei pelo Brasil, uma jornalista me confessou o seu medo de voar. O avião decolou com ela rezando, e a cumplicidade nos fez amigas.
Para mim, há também sempre uma imagem especial na chegada ao Rio, quando o avião vai se preparando para o pouso e o céu com nuvens de algodão dá espaço à cidade grande. Lá do alto, imagino que, em algum momento, sobrevoamos a minha casa, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.
Assim, nesse momento a sós com as nuvens, há espaço para a felicidade de quem tem boas histórias para contar na volta para casa ou até a tristeza de um desencontro para lamentar. No céu de desejos, alguns se realizam como imaginamos, e outros não. Afinal, adoramos festejar a imensidão azul, mas aprendemos que a vida também nos reserva voos turbulentos.






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