Espaço vai abrigar biblioteca, salão de exposições e um bistrô abertos ao públicoDivulgação
O prédio, localizado na Praça XV, viu nascer o Rio de Janeiro e ganhou notoriedade com a chegada ao Brasil de D. João VI e sua mãe, a rainha de Portugal, D. Maria I. O Príncipe Regente foi morar no Paço Imperial e sua mãe ocupou o Convento do Carmo, onde permaneceu até sua morte em 1816. A circulação da família real por estes espaços era feita por passadiços, que mais tarde foram demolidos, que ligavam o Convento ao Paço Imperial e à capela real, antiga Catedral da Sé.
Após décadas de abandono, o prédio, um dos mais antigos do Rio de Janeiro, construído em 1620, foi retomado judicialmente para o Estado pela PGE em 2011, que assumiu a tarefa de fazer a reforma a partir de 2018, que custou em torno de R$ 30 milhões. De acordo com o órgão, investimento foi inteiramente financiado com recursos próprios da PGE, sem comprometer nenhum centavo do orçamento do Poder Executivo.
"Não poderíamos deixar esse patrimônio cultural da cidade ser destruído e sucateado. A PGE agiu no interesse da sociedade e a ela devolve agora esse monumento da história que viu o Rio de Janeiro nascer e foi residência da única mulher que se tornou rainha de Portugal, D. Maria I. A conclusão da obra de restauração e a abertura do antigo Convento do Carmo simboliza o renascimento do Centro da Cidade no pós-pandemia", ressalta o Procurador-Geral do Estado, Bruno Dubeux.
Arquitetura original revelada
O prédio do Convento do Carmo é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 1964. Por isso, o projeto de reforma buscou adaptar a construção secular ao uso contemporâneo mas, ao mesmo tempo, manter e preservar o estilo original da arquitetura da época de sua construção e restaurar os vestígios da passagem da família real portuguesa pelo Rio.
"O principal foco do projeto foi a restauração de esquadrias, pisos, forros, cantarias e pinturas, assim como a recuperação da identidade arquitetônica do prédio, que sofreu grandes modificações ao longo do tempo. Esse desafio veio junto com o objetivo de permitir um novo uso da edificação, trazendo novas soluções de acessibilidade, conforto ambiental, acústico e de instalações prediais, que possibilitaram agregar um projeto contemporâneo sem perder de vista as características históricas do prédio", explica Patricia Gullo, gerente de Arquitetura, Projetos e Obras da PGE.
No andar térreo do prédio de três andares, a obra reavivou os arcos que enfeitam seus grandes salões, que tiveram suas estruturas de tijolinhos expostas com a remoção da argamassa que encobria sua originalidade. No primeiro andar, onde estão os aposentos que serviram à D. Maria I, o piso com tábuas de pinho de riga trazidos em navios da Europa foi completamente restaurado. Assim como a cor das paredes e as pinturas que adornam o ambiente, além do forro do teto.
Ainda no primeiro andar, a parede com vigas de madeira entrelaçadas e pedras lembra a preocupação com os abalos sísmicos que devastaram Lisboa em 1755. Ao lado dessa lembrança trágica, a reforma também descortinou uma delicada pintura na parede que imita uma divisória em madeira, uma técnica artística conhecida como Trompe l'oeil (engana o olho, em francês), que cria uma ilusão de ótica e transforma a figura em três dimensões. No mesmo andar, o visitante também vai encontrar paredes que foram erguidas com pedras coladas com óleo de baleia.
Tesouros arqueológicos
As escavações feitas no prédio para a instalação de novos sistemas de água e esgoto desenterraram dezenas de achados arqueológicos que marcam a passagem da família real portuguesa pelo local. São louças francesas e inglesas, garrafas de vinho, tralheres de prata, moedas, pentes, cachimbos e muitos fragmentos de cerâmica.
Esses achados arqueológicos vão ser reunidos e organizados para uma exposição no próprio Convento ainda este ano, mostrando esses tesouros encontrados durante as escavações que revelam os mais diversos objetos usados no dia a dia pela família real portuguesa durante sua passagem pelo Rio de Janeiro.
"O interessante nesse sítio é que ele nos remete a um universo que não tem apenas a realeza e os escravos, mas uma massa de pessoas de outras classes que estão convivendo nesse espaço e deixando igualmente seus remanescentes”, destaca a arqueóloga Jeane Cordeiro, que coordenou o trabalho das escavações.








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