Rafaelly da Rocha Vieira, de 10 anos, morreu nesta quarta (25)Reprodução
Ainda segundo o Instituto Fogo Cruzado, entre 5 de julho de 2016 até esta sexta-feira (27), 122 crianças foram atingidas por disparos de arma de fogo, desse número, 34 morreram e 88 ficaram feridas.
Durante janeiro do ano passado duas crianças foram baleadas, sendo uma morta e uma ferida, enquanto neste ano as duas vítimas atingidas morreram.
Para o professor José Ricardo Bandeira, comentarista de Segurança Pública e assuntos periciais, a morte de pessoas inocentes vitimadas por balas perdidas nas comunidades das grandes cidades, expõe para o mundo uma triste realidade, de violência e dor.
“Enquanto discutimos de onde saíram os tiros que mataram essas vítimas inocentes, matando com elas os sonhos e esperanças de suas famílias, esquecemos de discutir outro fato tão importante quanto: Por que armas de guerra estão sendo utilizadas em áreas urbanas? Sejam não mão de criminosos ou de policiais”, questionou.
O especialista ainda fez algumas críticas ao Governo Federal e Estadual no combate a violência.
“No que cabe ao Governo Federal, ele se mostrou incapaz de impedir que drogas, armas e munições, atravessem as nossas fronteiras, nossas estradas, portos e aeroportos e cheguem às comunidades dominadas pelo tráfico de drogas, possibilitando a morte de crianças e vítimas inocentes. Quanto aos governos estaduais a falta de investimentos em tecnologia de inteligência e investigação, juntamente com a falta de combate às organizações criminosas compostas em sua maioria por políticos, empresários e policiais corruptos, faz com que o tráfico de drogas domine cada vez mais territórios, deixando reféns milhares de brasileiros que hoje vivem longe do estado legalmente constituído”, comentou.
O professor José Ricardo Bandeira comentou ainda sobre a política de enfrentamento direto à criminalidade que vem ocasionando diversos confrontos e consequentemente balas perdidas.
“Os nossos governantes ainda veem como saída a intensificação da política de enfrentamento armado nas comunidades, contrariando os dados históricos que comprovam que essa política de enfrentamento praticada a décadas em alguns estados, nunca reduziu os índices de criminalidade e violência.
Enquanto a Segurança pública não for tratada como ciência, continuaremos vivendo esta triste realidade de crianças e trabalhadores inocentes mortos por balas perdidas”, finalizou.
De acordo com a ONG Rio de Paz, contabilizando crianças de 0 a 14 anos, o total de vítimas baleadas chega a 92 desde 2007.
Relembre os casos
Kevin Lucas dos Santos, de 6 anos, morreu no dia 6 de janeiro de 2022 após ser baleado em um tiroteio no Morro da Torre, em Queimados, na Região Metropolitana do Rio. Ele chegou a ser socorrido na UPA de Queimados, mas não resistiu aos ferimentos. Segundo a família, ele estava ajudando na mudança de um vizinho quando foi atingido. No dia em que ele foi atingido houve um confronto entre policiais militares e criminosos na comunidade
No mesmo dia, outras duas meninas foram baleadas, a pré-adolescente Gabriela de 13 anos e Ludimila Teles, 9 anos. Elas sobreviveram.
Karina Sobral de Souza, de 9 anos, morreu no dia 1º de maio de 2022 após ser atingida por uma bala perdida quando voltava para casa, após lanchar no bairro de Volta Fria, em Angra dos Reis, na Costa Verde.
"Era uma criança muito carinhosa, maravilhosa. Ela não era uma criança de ficar na rua, era caseira, carinhosa com todo mundo, bondosa. Ela gostava de brincar de boneca, de casinha, era uma criança muito boa, adorava estudar. Era amada pela família e por todos. Foi uma perda que por dentro de mim está um buraco. A minha família está abalado, não tem chão, eu não consigo dormir, não tenho chão para nada", lamentou a mãe da menina, Ana Carla Sobral, 41 anos.
O autor do tiro que matou a criança foi preso. Mattheus dos Santos Machado, conhecido como "Coroa", de 20 anos, foi preso três dias depois na casa do pai, em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio. Enquanto outro envolvido no crime, Felype da Silva Ribeiro, 18, foi preso quando seria executado por traficantes, no Morro da Glória, em Angra dos Reis.
Esther Vitória de Melo Pires, 5 anos, foi baleada na cabeça enquanto estava com parentes, voltando para casa, na comunidade do Carvão, em Itaguaí, na Região Metropolitana do Rio, no dia 20 de julho de 2022.
Segundo a polícia, o autor do crime, Caio Cezar Barbosa, de 23 anos, foi preso e confessou ter efetuado os disparos para tentar atingir um traficante rival, porém, errou a mira e acertou Esther.
“A gente não ouviu o disparo, foi como se um vidro tivesse quebrado, a gente até achou que a garrafa de champanhe tinha quebrado e cortado ele, mas quando a gente viu que a garrafa estava inteira e ele no chão ensanguentado, quase sem vida, nós deduzimos que podia ser um disparo. Aconteceu na varanda, nos anos que fomos pra lá sempre comemoramos ali, mas essa foi a primeira vez e a última que isso aconteceu porque agora não vai existir mais Natal e nem Ano Novo. Ele era o motivo daquilo tudo acontecer”, disse o primo da vítima, Luis Felipe Alves, 29 anos.
Rafaelly da Rocha Vieira, de 10 anos, foi baleada por volta das 19h30 na Rua Doutor Monteiro de Barros, esquina com a Rua Getúlio de Moura, perto de casa. Segundo a Polícia Civil, testemunhas foram ouvidas e informaram que um carro não identificado passou pela rua atirando. A criança chegou a ser socorrida e encaminhada a UPA do Jardim Íris, mas não resistiu.
Rafaelly completou 10 anos no último dia 20 de janeiro. A menina iria ganhar uma festa de aniversário no próximo sábado (28).
"A minha revolta é perder a minha neta assim. Eu não sei nem o que eu faço. Será que vai ser mais um caso arquivado ou a polícia vai atrás para ajudar a família?", indagou a avó da criança.





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