O estudante de Nutrição da Uerj Arthur Cortines Laxe Ferreira da Conceição, de 18 anosAcervo pessoal

O estudante de Nutrição da Uerj Arthur Cortines Laxe Ferreira da Conceição, de 18 anos, viu a vida mudar drasticamente após ser atingido no olho direito por uma bala de borracha durante uma ação policial no entorno do Maracanã, depois do clássico entre Vasco e Flamengo, no dia 3 de maio.

Quase três semanas após o episódio, Arthur ainda convive com dores, medo, traumas emocionais e a incerteza sobre a recuperação da visão. Hoje, segundo ele, todos os sonhos pessoais e profissionais deram lugar a apenas um desejo: voltar a enxergar.

“Isso me impactou muito sobre os sonhos profissionais e pessoais, porque esse é o sonho da minha vida agora. Hoje o meu maior sonho é voltar a enxergar. Ultrapassou todos os outros”, desabafou.

O jovem contou que já passou por duas cirurgias e segue em recuperação intensa. Apesar dos procedimentos, ele continua sem enxergar do olho direito.
“Eu fiz duas cirurgias. Ainda estou no processo de recuperação delas e da própria lesão. Sigo sem enxergar com o olho direito”, afirmou.

Arthur relata que ainda tenta compreender tudo o que aconteceu naquela noite. Segundo ele, além da violência do disparo, o abandono após o ferimento também deixou marcas profundas.

“Não estou desacreditado só do tiro e da forma que foi o tiro, mas também de como eu tive que me virar sozinho pra lutar pela minha vida”, disse.

O universitário afirmou que, mesmo gravemente ferido e sangrando, precisou caminhar sozinho procurando socorro. Segundo o relato prestado à Polícia Civil, Arthur tentou pedir ajuda aos policiais que estavam próximos, mas ouviu deles apenas a frase: “Se vira”.

Depois disso, ele conseguiu chegar até uma ambulância particular próxima ao estádio. De acordo com o jovem, os socorristas fizeram apenas um curativo para conter o sangramento, mas se recusaram a levá-lo ao hospital.

Arthur foi encaminhado inicialmente ao Hospital Municipal Souza Aguiar, no Centro do Rio, e posteriormente transferido para uma unidade particular, onde passou por cirurgia.

De acordo com a família, o disparo provocou lesões severas no globo ocular, além de fraturas na região do rosto e do nariz. A mãe do jovem, Christiane Cortines, chegou a afirmar anteriormente que a bala “praticamente explodiu” o olho do filho.

Atualmente, a rotina do universitário ainda é marcada por limitações físicas e emocionais. Até poucos dias atrás, ele seguia praticamente isolado dentro de casa.

“Até o começo dessa semana era o mesmo clima do hospital, só em casa, sem poder sair nem nada”, disse.

Aos poucos, os médicos começaram a liberar algumas atividades leves, como caminhadas e o retorno gradual à faculdade, mas Arthur admite que ainda sente medo constante.

“É muito complicado sair na rua e as pessoas te olharem diferente de como era antes. Sem contar o receio. Não me sinto totalmente seguro”, relatou.

O estudante contou que o episódio abalou profundamente sua família e amigos, muitos deles frequentadores assíduos de estádios.

“Meus pais estão muito abalados. Muitos dos meus amigos costumam frequentar estádios também”, afirmou.

Apaixonado pelo Vasco, Arthur diz que ainda não consegue pensar em voltar ao Maracanã.

“Eu sigo sendo um torcedor completamente apaixonado pelo Vasco, mas não pensei sobre voltar a frequentar os estádios ainda. Acho que está muito recente do ocorrido”, contou.

Além de estudante, Arthur sempre teve uma rotina ligada ao esporte. Ele pratica musculação e integra equipes universitárias da área da saúde da Uerj, atuando no basquete, handebol e futebol.

Agora, porém, o foco está totalmente voltado para a recuperação.

“A minha esperança é um milagre de Deus na minha vida”, disse.

Muito religioso, o jovem afirma que a fé tem sido seu principal apoio desde o dia do disparo.

“Eu sou um cara de muita fé. Frequento a igreja toda semana desde pequeno. Rezo assim que acordo, faço o terço das 15h e rezo antes de dormir todos os dias. Eu acredito muito em milagres e sigo confiando que vai acontecer comigo”, afirmou.

O caso aconteceu após o fim do clássico entre Flamengo e Vasco, quando houve tumulto no entorno do Maracanã. Policiais utilizaram bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo e balas de borracha para dispersar torcedores. Arthur afirma que estava deixando o estádio com amigos quando foi atingido.

A advogada do jovem, Mara Teixeira, informou que Arthur realizou exame de corpo de delito no Instituto Médico Legal (IML) nesta semana e que a Polícia Civil já começou a colher depoimentos sobre o caso.

A investigação é conduzida pela 18ª DP (Praça da Bandeira). A Polícia Militar informou anteriormente que instaurou um procedimento interno para apurar as circunstâncias da ocorrência. Já o Governo do Estado afirmou que a Procuradoria-Geral do Estado entrou em contato com a Defensoria Pública para avaliar formas de garantir assistência médica e psicológica ao estudante.