Moradores sofrem com exploração de serviços clandestinos em comunidades da Zona Sudoeste do RioReginaldo Pimenta/ Arquivo/ Agência O Dia

Rio - Durante anos, Vargem Grande e Vargem Pequena foram conhecidas pelo crescimento imobiliário, condomínios residenciais e áreas verdes que atraíram milhares de famílias para a Zona Sudoeste do Rio. Hoje, no entanto, a realidade é outra. A região se transformou em um dos principais palcos da disputa entre milicianos, traficantes do Comando Vermelho (CV) e do Terceiro Comando Puro (TCP), impondo uma rotina de medo a moradores e comerciantes.
De acordo com investigações da Polícia Civil e do Ministério Público do Rio (MPRJ), essa mudança aconteceu de forma gradual e violenta. Durante as décadas de 2000 e 2010, o território esteve sob predominância de grupos milicianos, que mantinham o controle da região por meio da exploração de serviços clandestinos, como transporte alternativo, internet, TV a cabo e venda de gás, além da influência sobre empreendimentos imobiliários.
Nos últimos anos, entretanto, o enfraquecimento de parte dessas organizações, provocado por prisões de lideranças, mortes em confrontos e disputas internas, abriu espaço para a expansão das facções do tráfico. Um dos marcos desse processo foi a Operação Porto Firme, deflagrada em julho de 2020, onde 16 policiais e milicianos foram alvos.
Para a coordenadora do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (GENI/UFF), Carolina Christoph Grillo, o que acontece nas Vargens faz parte de uma mudança mais ampla na forma de expansão das organizações criminosas no Rio. "Nos últimos anos, a principal forma de crescimento dos grupos armados deixou de ser a ocupação de áreas sem domínio criminoso e passou a ser a conquista de territórios que já eram controlados por outras organizações", explica a pesquisadora.
Segundo a Polícia Civil, o Comando Vermelho aproveitou esse cenário de instabilidade para avançar sobre áreas antes dominadas por milicianos, iniciando a ofensiva por comunidades como Rio das Pedras e Muzema. Nas Vargens, porém, o processo acontece de forma diferente. Em vez de uma ocupação rápida, a disputa passou a ser marcada por sucessivas invasões, contraofensivas e mudanças frequentes no controle territorial.
Em diversas operações realizadas nos últimos anos, a Polícia Civil identificou que a estratégia da facção inclui o deslocamento de criminosos entre comunidades para reforçar invasões, o uso de armamento de alto poder de fogo e a rápida consolidação do controle sobre os territórios conquistados.
A entrada do TCP tornou o cenário ainda mais complexo. A disputa deixou de envolver apenas milicianos e integrantes do CV e passou a reunir três grupos criminosos em uma guerra permanente pelo domínio da região.
Segundo as investigações, um dos principais articuladores da expansão do TCP nas Vargens era Vitor da Silva Ferreira, conhecido como Vitinho, preso em abril deste ano durante uma operação nas comunidades do Pombo Sem Asa e do Guandu.
De acordo com a polícia, ele exercia papel estratégico na organização criminosa, sendo responsável pela segurança armada e pelo apoio ao domínio territorial da facção em Vargem Grande e Vargem Pequena. As investigações apontam ainda que, após a prisão de Vitinho, o traficante Gabriel da Silva Alves, o GB, uma das principais lideranças do TCP no estado, passou a assumir as incursões nas Vargens.
Já as invasões promovidas pelo Comando Vermelho são lideradas por Edgar Alves de Andrade, o Doca, apontado como um dos principais chefes da facção, e por Carlos Costa Neves, o Gardenal, que também integra a cúpula da organização criminosa.
Embora tenha perdido parte de sua influência nas Vargens, a milícia ainda tenta manter presença na região por meio de alianças pontuais com o CV. Segundo as investigações obtidas por meio da Operação Contenção Red Legacy, realizada pela Polícia Civil, o miliciano Phellipe de Souza Batista, o Tikinho, então apontado como chefe da comunidade da Taboinha, em Vargem Grande, chegou a negociar a entrega de pelo menos dez comunidades até então dominadas por milicianos para a facção.
Após consolidarem o controle sobre parte dos territórios, integrantes do TCP e do CV passaram a explorar serviços clandestinos e cobrar taxas de moradores e comerciantes, práticas historicamente associadas à atuação das milícias.
Um dos episódios mais emblemáticos da escalada da violência foi o assassinato da líder comunitária Frauzenete Soares da Silva, que se opunha à atuação de criminosos na comunidade Novo Palmares, em Vargem Pequena. Após o crime, o filho da vítima passou a sofrer ameaças e deixou a comunidade.
Distribuição territorial
De acordo com o mapeamento mais recente das forças de segurança, as comunidades César Maia, Fontela, Palmares, Montserrat, Coroado, Cascatinha e Ilha dos Porcos estão sob influência do Comando Vermelho.
Já Pombo Sem Asa, Beira Rio, Vila Taboinha e Canal estavam sob influência de criminosos ligados ao TCP, que avançaram sobre essas localidades após firmarem alianças com grupos milicianos.
Desde o início de julho, porém, Pombo Sem Asa e Canal passaram a ser alvo de novas ofensivas do CV. Segundo fontes da investigação, os ataques contaram com o apoio de antigos integrantes da milícia que romperam com o grupo e passaram a colaborar com a facção rival para manter influência na região. Os investigadores também apuram que parte dos integrantes do TCP decidiu migrar para o CV após a prisão de Vitinho.
Expansão do conflito para o Recreio
Segundo a Polícia Civil, os grupos criminosos também passaram a mirar o Recreio dos Bandeirantes, bairro vizinho às Vargens e historicamente dominado pela milícia. Em abril deste ano, a Delegacia de Repressão a Entorpecentes da Baixada Fluminense (DRE-BF) e da Capital (DRE-CAP) realizaram uma operação após o setor de inteligência identificar movimentações do CV e do TCP para tentar invadir áreas da região. Três suspeitos foram presos e drogas apreendidas.

A operação foi resultado de meses de investigação, com análise de dados, monitoramento de integrantes das facções e mapeamento das áreas críticas. Um dos principais pontos de tensão identificados é a orla do Recreio, na altura do Posto 12, onde já foram registrados diversos homicídios relacionados à disputa entre os grupos criminosos.
Fatores geográficos favoreceram a expansão
Além da disputa entre grupos rivais, fatores geográficos e urbanos contribuíram para tornar Vargem Grande e Vargem Pequena estratégicas para o crime organizado. A localização entre Barra da Tijuca, Recreio dos Bandeirantes, Jacarepaguá e Campo Grande, a presença de extensas áreas de mata e a rápida expansão imobiliária facilitaram a circulação de criminosos, a instalação de bases operacionais e a exploração de atividades ilegais.
A pesquisadora Carolina Grillo explica que a urbanização acelerada das Vargens transformou a região em um dos territórios mais cobiçados pelas organizações criminosas. Segundo ela, investimentos públicos em infraestrutura urbana, impulsionados principalmente pelos megaeventos realizados no Rio e pela expansão habitacional do programa Minha Casa, Minha Vida, valorizaram o mercado imobiliário local e ampliaram o interesse de grupos armados.

"Vargem Grande e Vargem Pequena eram áreas com características mais rurais, compostas por sítios, e passaram por um processo recente de urbanização, marcado por grandes empreendimentos imobiliários. Com a valorização da terra, aumentou também o interesse de grupos criminosos em controlar esse mercado", explica.
Grillo analisa que as milícias foram as primeiras a explorar economicamente esse processo, por meio da grilagem de terras, especialmente em áreas de proteção ambiental e terrenos da União, além da influência sobre a expansão urbana. Posteriormente, segundo ela, as facções passaram a reproduzir esse modelo de atuação.
"As milícias começaram a lucrar com o mercado imobiliário e com os serviços de infraestrutura urbana. Depois, as facções perceberam que ali havia uma oportunidade de ganhos muito significativa e passaram a mimetizar essa forma de atuação", diz.
Segundo Carolina, esse movimento representa uma mudança na dinâmica da expansão do crime organizado no estado. Ela explica que o GENI/UFF diferencia dois processos: a colonização, quando grupos armados ocupam áreas que antes não eram dominadas por nenhuma organização criminosa; e a conquista, quando um território controlado por um grupo passa a ser tomado por outro.

"Nos últimos anos, observamos que a conquista passou a ser a principal forma de expansão dos grupos armados. Antes, predominava a colonização de áreas sem domínio criminoso. Hoje, o que mais vemos é a disputa por territórios que já estavam ocupados por outra organização", afirma.

Na avaliação das forças de segurança, esse conjunto de fatores transformou Vargem Grande e Vargem Pequena em um dos principais pontos de tensão na Zona Sudoeste. A região passou a concentrar operações policiais frequentes e confrontos motivados pela tentativa de diferentes organizações criminosas de ampliar ou recuperar o controle territorial.

Para a pesquisadora, enfrentar esse cenário exige mais do que ações policiais. Ela defende o fortalecimento da fiscalização sobre mercados explorados por grupos criminosos, como os de telecomunicações, gás, energia e saneamento, além de uma atuação integrada entre órgãos reguladores, concessionárias de serviços públicos e forças de segurança. Carolina também ressalta a importância de mecanismos de controle interno das polícias para combater a corrupção e impedir a infiltração do crime organizado nas instituições.
O professor do Departamento de Segurança Pública da UFF, Lenin Pires, analisa que essa escalada evidencia que o principal desafio da segurança pública no Rio de Janeiro não é apenas ter estratégias para reprimir organizações criminosas, mas enfrentar uma dinâmica de fragmentação do controle territorial.
"A substituição de um grupo por outro não significa, necessariamente, a recuperação da autoridade do estado. Muitas vezes, apenas muda quem exerce o controle sobre aquele território. O problema, portanto, é mais estrutural. Ele envolve inteligência policial, investigação patrimonial, capacidade de desarticular as economias que financiam essas organizações e, sobretudo, a construção de uma presença estatal permanente, capaz de oferecer previsibilidade institucional aos moradores. Sem isso, cada operação tende a produzir apenas rearranjos no equilíbrio entre grupos armados, sem alterar as condições que permitem sua reprodução", diz. 
Moradores reféns da guerra
Para o professor Lenin Pires, o impacto mais imediato da disputa entre milícias e facções é a deterioração da rotina de quem vive e trabalha nas Vargens. Segundo ele, quando diferentes grupos armados disputam um mesmo território, moradores passam a conviver com mudanças constantes nas regras impostas pelas organizações criminosas, restrições à circulação, confrontos armados e um cenário permanente de incerteza.

"A vida cotidiana torna-se mais custosa, porque decisões elementares, como abrir um comércio, levar os filhos à escola ou retornar para casa, passam a depender da dinâmica do conflito", afirma.

O pesquisador destaca que os prejuízos também atingem comerciantes, que passam a enfrentar aumento dos chamados "custos de proteção", além de extorsões, cobranças ilegais, fechamento temporário de estabelecimentos e redução na circulação de clientes.

No mercado imobiliário, os impactos também são significativos. Segundo Lenin, Vargem Grande e Vargem Pequena se consolidaram como uma das principais fronteiras de expansão urbana da cidade e, justamente por isso, concentram interesses econômicos expressivos. "O avanço de grupos armados introduz um fator adicional de insegurança jurídica e patrimonial, afetando investimentos, a valorização dos imóveis e o próprio funcionamento do mercado formal", explica.

O professor ressalta ainda que a disputa vai além do tráfico de drogas. "As organizações criminosas também participam desse mercado, controlando ocupações, loteamentos, construções e a oferta de serviços urbanos", conclui.
Dados do ISP
Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) evidenciam o agravamento da violência na região. Entre janeiro e maio de 2022, a área CISP 42, que engloba Vargem Grande e Vargem Pequena, registrou 343 ocorrências de ameaça. No mesmo período deste ano, esse número saltou para 517, um aumento de cerca de 51%.
Os casos de extorsão também cresceram. Nos cinco primeiros meses de 2022, foram registradas 30 ocorrências. Em 2026, o total chegou a 43. O aumento mais expressivo, no entanto, foi observado nas tentativas de homicídio. Entre janeiro e maio de 2022, foram registrados sete casos. No mesmo período deste ano, o número chegou a 29.
O que dizem as polícias do Rio
Procuradas pela reportagem, as polícias Civil e Militar afirmaram que mantêm ações permanentes para conter o avanço das facções criminosas em Vargem Grande e Vargem Pequena.
A Polícia Civil informou que atua de forma integrada nas duas regiões por meio de inteligência, investigações e operações contínuas, com foco no enfraquecimento das estruturas financeira, logística e operacional das organizações criminosas que disputam o controle territorial.
Segundo a corporação, uma das principais iniciativas é a Operação Contenção, criada para frear o avanço do Comando Vermelho (CV). Em nota, a Civil informou que a ofensiva já resultou na captura de mais de 370 criminosos e na morte de outros 137 em confrontos. Além disso, foram apreendidas cerca de 480 armas, entre elas, 190 fuzis e mais de 51 mil munições.

A Polícia Militar, por sua vez, informou que o 31º BPM (Recreio dos Bandeirantes) mantém policiamento ostensivo permanente em Vargem Grande e Vargem Pequena. Entre as principais medidas adotadas estão operações de ocupação nas comunidades César Maia e Pombo Sem Asa, com equipes posicionadas em pontos estratégicos, realização de abordagens e ações para impedir o avanço de grupos criminosos e reforçar a segurança da população.
A corporação destacou ainda a implantação de Bases de Ostensividade nas estradas do Sacarrão e Pedro Afonso, com o objetivo de ampliar a presença policial e a capacidade de resposta operacional em áreas consideradas estratégicas.
Segundo a PM, o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) também realiza operações frequentes na região para enfrentar grupos criminosos armados e conter as disputas territoriais. "As ações nas regiões de Vargem Grande e Vargem Pequena são permanentes, respaldadas por análises de inteligência e pelo emprego integrado das unidades operacionais da corporação", informou a instituição.
Na última sexta-feira (10), policiais do 31º BPM realizaram uma operação na comunidade Pombo Sem Asa, em Vargem Grande. Durante a ação, foram apreendidos um fuzil, uma pistola, cinco granadas, carregadores, cinco bornais, equipamentos eletrônicos utilizados na adaptação de drones para o lançamento de explosivos, baterias de drones, além de uma motocicleta e um carro.
Já no sábado (11), agentes do Bope realizaram uma operação na comunidade César Maia, em Vargem Pequena, após informações de inteligência apontarem a movimentação de criminosos armados e a preparação de ataques contra grupos rivais. A ação terminou com a prisão de sete suspeitos e a apreensão de quatro fuzis.