Policiais buscam cumprir mais de 40 mandados nesta segunda-feira (19)Divulgação / PF
Família de Oruam e vereador: quem são os presos em operação da PF
Policiais federais foram às ruas para prender suspeitos de envolvimento em estrutura de exploração de internet do Comando Vermelho
A operação contra um esquema de exploração de internet pelo Comando Vermelho (CV), realizada nesta segunda-feira (19) pela Polícia Federal, gerou a prisão de familiares do rapper Oruam e de Márcio dos Santos Nepomuceno, conhecido como Marcinho VP, apontado como um líder histórico da facção.
Policiais federais foram às ruas para cumprir 23 mandados de prisão preventiva - sendo alguns deles contra alvos já encarcerados - para ajudar as investigações sobre o monopólio do serviço de internet imposto pelo Comando Vermelho nos complexos da Penha, Alemão e Chapadão, todos na Zona Norte do Rio.
As apurações revelaram que Marcinho VP, que está preso no presídio de segurança máxima de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, continua controlando as atividades empresariais exploradas nesses territórios, em conjunto com seus familiares e outras lideranças do CV.
De acordo com a PF, os lucros chegavam à família de Marcinho por meio de empresas arrecadadoras, operadores financeiros e contas de passagem. O dinheiro era dissimulado em produtoras de eventos, empresas de publicidade, imóveis de alto padrão – pagos em dinheiro vivo – e criptoativos.
Um dos parentes presos nesta segunda é Márcia Gama dos Santos Nepomuceno, companheira de Marcinho e mãe do rapper Oruam. Carioca, a mulher acumula mais de 490 mil seguidores nas redes sociais, onde tem o costume de compartilhar reflexões sobre fé e momentos com a família.
Márcia é autora do livro "Fé com Reflexão". A obra é apresentada como inspiração para quem acredita em um recomeço. Além disso, também tem um negócio de higienização de tênis, a qual se declara a primeira personal washer do país.
Em 2010, a mulher foi presa por suspeita de lavar dinheiro do tráfico de drogas do Comando Vermelho. Ela passou cerca de cinco meses encarcerada.
Em março desse ano, Márcia foi alvo de uma operação da Polícia Civil. Segundo as investigações, ela atuava na intermediação de interesses da facção fora da prisão, participando da circulação de informações entre os integrantes e de articulações envolvendo operadores da organização e agentes externos.
Em abril, agentes da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) fizeram uma ação para desarticular o braço financeiro do Comando Vermelho, que movimenta e oculta recursos oriundos do tráfico de drogas. Márcia também foi procurada na ocasião.
Em maio, o Ministério Público do Estado do Rio (MPRJ) denunciou a mulher e seus familiares pelos crimes de organização criminosa e lavagem de dinheiro. De acordo com a denúncia, ela é gestora financeira da facção. As investigações apontaram que Márcia recebia, regularmente, dinheiro em espécie oriundos de traficantes do Comando Vermelho, entre eles Edgar Alves de Andrade, o Doca, Wilton Carlos Rabello Quintanilha, o Abelha, e Luciano Martiniano, o Pezão.
Policiais federais também prenderam, nesta segunda-feira (19), Lucas Nepomuceno, o Lucca, filho de Márcia e de Marcinho, e irmão de Oruam. Nas redes sociais, onde tem mais de 185 mil seguidores, ele mostra seus momentos com a família e com o trabalho, também no ramo musical.
Assim como a mãe, Lucca, conforme a denúncia de maio do MPRJ, integraria o núcleo familiar do Comando Vermelho, responsável por intermediar a execução das ordens do pai e a gestão de ativos.
Ainda na operação desta segunda, o vereador Fábio Silva (Podemos) foi preso. Nas redes sociais, ele se apresenta como defensor das comunidades e da inclusão.
Empresário e gestor comunitário da Zona Norte do Rio, Fábio embaixador do projeto "Onda Carioca", no Complexo do Chapadão. Segundo a Polícia Federal, o Comando Vermelho impõe o monopólio de internet nesse conjunto de comunidades.
O vereador exerce seu primeiro mandato na Câmara do Rio de Janeiro. Em 2024, ele recebeu 15.846 votos.
Em nota enviada por sua assessoria, Fábio negou qualquer acusação feita contra si, assim como qualquer ligação com práticas ilícita. A defesa, ainda sem acesso aos autos, tecerá comentários através de um posicionamento próprio, após análise do processo.
De acordo com as investigações, que geraram a Operação Backbone, traficantes armados cortam cabos e incendeiam caixas de distribuição de operadoras regulares e de suas concorrentes, impedem os reparos e obrigam moradores e comerciantes a contratar a chamada "internet do tráfico".
Segundo a PF, provedores autorizados pela facção pagam mensalmente uma "tarifa" pelo direito de operar nos territórios. As apurações identificaram que, em um único mês, a cobrança sobre a internet respondeu por mais de 40% de todo o lucro do Comando Vermelho na Penha.
"A exploração desse serviço público tornou-se uma das principais atividades lucrativas do crime organizado e fomenta a guerra pelo controle de territórios: cada comunidade dominada representa uma base de clientes cativos e uma nova fonte de receita para a facção", explicou a corporação.
Até o momento, 20 mandados de prisão foram cumpridos. O Supremo Tribunal Federal (STF) determinou o bloqueio de bens e valores em até R$ 558 milhões, alcançando 40 pessoas físicas e 42 empresas suspeitas. Além disso, também suspendeu atividades econômicas de pessoas jurídicas, entre provedores de internet, produtoras de eventos, empresa de contabilidade e empresas de fachada que eram usadas pela facção.
Os investigados responderão pelo crime de domínio social estruturado, que pune grupos que empregam violência, grave ameaça e coação para impor controle territorial e social, intimidar populações, reprimir autoridades e atacar serviços essenciais.
Além do delito, os suspeitos poderão responder por extorsão majorada, atentado contra a segurança de serviço de utilidade pública, interrupção de serviço telemático, desenvolvimento clandestino de telecomunicações e lavagem de dinheiro.
A reportagem ainda tenta localizar a defesa de Márcia e Lucca Nepomuceno. O espaço está aberto para manifestação.





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