Para além do Maracanã, os subúrbios cariocas

O estádio é a porta de entrada dos bairros longe da Zona Sul. É dali em diante que a Cidade Maravilhosa desencontra o Rio

Por O Dia

Castores da Guilherme, torcida do Bangu  - coluna suburbano
Castores da Guilherme, torcida do Bangu - coluna suburbano -
Rio - Na semana passada, o gigante Maracanã completou 70 anos. Para quem vem da Zona Sul e do Centro, o Maracanã é a porta de entrada nos subúrbios cariocas; é dali que a vida da maioria da população da cidade do Rio de Janeiro começa. É dali em diante que a Cidade Maravilhosa desencontra o Rio de Janeiro.
De certo, o Maracanã é parte de nossa história. Tenho minhas ligações com o Maracanã, a começar com um pai e um tio-avô que foram jogadores profissionais de clubes do Rio, mas quero falar mesmo do Maracanã como porta de entrada para uma cidade que ainda precisa ser cidade.
Aqui, onde em muitos bairros a internet de qualidade não chega; aqui onde a água desce suja da torneira; aqui onde ônibus circulam pelas ruas como latas velhas e até pegam fogo durante o itinerário; aqui onde se tem os piores índices de qualidade do ar para se respirar, encontramos um Rio de Janeiro a ser refeito, superando as camadas de projetos políticos que nos trouxeram até aqui.
Sim, precisamos ter em mente que a depreciação dos subúrbios cariocas fazem parte de projetos políticos de sacrifício de uns em benefício de outros.
Para além do Maracanã, uma construção de identidade se forma, ano após ano, por meio das torcidas de clubes históricos de nossos bairros. Da Zona Norte à Oeste, jovens desses bairros resgatam o orgulho local através dos times. Juntam-se a moradores mais antigos e reerguem o sentimento jogada para baixo numa onda de destruição de autoestima proporcionada principalmente pelos noticiários e seu bombardeio de notícias sobre violência.
As torcidas dos times de nossos bairros, expressões espontâneas através do sentimento que só o futebol consegue mobilizar, são uma importantes chaves para falarmos sobre a reciclagem do Rio de Janeiro a partir dos subúrbios cariocas.

E o que temos para as eleições deste ano?

Poucos dias atrás, li no Informe do Dia sobre um pré-candidato a prefeito do Rio que pretende focar na Zona Sul. É legítimo que pense assim, principalmente por ser oriundo dessa região. Mas, enquanto morador dos subúrbios, questiono se o mesmo pré-candidato realmente conhece a História do Rio para tentar se dispôr a disputar a vaga do Executivo por aqui. É que ele disse que "As pessoas falam da Zona Sul do Rio de Janeiro como se fosse uma região de privilegiados. Não é". Aconselho o aspirante a prefeito da cidade retornar aos livros e documentos históricos e administrativos do Rio de Janeiro para tentar basear melhor sua afirmativa.

Por um Rio suburbano

A cidade carece ser pautada por suburbanos e suburbanas. Gosto de lembrar que somos a maioria da população, e uma maioria que vive sob os descasos históricos, falta de planejamentos e de perspectiva. Quem fala que precisamos continuar nos deslocando para a Zona Sul para continuar trabalhando, por exemplo, está fora de sintonia com tendências de cidades grandes ao redor do planeta, que cada vez mais promovem a proximidade do lar de trabalhadores e trabalhadoras. Esse ano vai ser importantíssimo para se colocar a vida nos subúrbios do Rio como prioridade nas políticas da cidade.

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