Rio - Já se vão mais de cem anos desde que a ideia de "Cidade Maravilhosa" foi inventada para se vender cartões-postais de um Rio de Janeiro que, sob golpes de picaretas e demolições, tentava apagar seu passado. A modernização do espaço urbano, que chega com o famoso prefeito engenheiro Francisco Pereira Passos, pretendia colocar a cidade nos eixos das demandas daquele momento histórico.
Enquanto o hino canta que a Cidade Maravilhosa é cheia de encantos mil, nos subúrbios foram alocados os desencantos, que só se acentuam com o passar dos anos. E nessa realidade propagadora de desigualdades, os transportes públicos são uma eterna ferida aberta.
Semana passada, estive em encontro virtual com o compositor Danilo Firmino, morador de Honório Gurgel, e o deputado estadual Waldeck Carneiro falando justamente sobre isso: a cidade que queremos para o pós-pandemia começa a ser pensada a partir dos transportes. E mais: ficarmos reféns de empresas como a Supervia não tem mais cabimento. Entre cálculos tortuosos e sonhos de diminuição de gastos e aumento de lucros através do sacrifício de corpos suburbanos, a empresa uniu os ramais Deodoro e Santa Cruz, acreditando que o tempo de viagem da linha que sai da Zona Oeste até a Central diminuiu, mesmo tendo que parar em mais 11 estações.
Esses atentados ao bem-estar suburbano estão bem demarcados em pesquisa divulgada pela Casa Fluminense: o Mapa da Desigualdade mostrou que mais de um terço do orçamento familiar de moradores de determinados locais dos subúrbios e da Baixada estão comprometidos com gastos de passagem de ônibus. Já as ciclovias para uso de uma opção barata adotada por milhões de brasileiros das classes mais pobres, viraram item de cartão-postal e exclusividade da orla carioca.
Fica a pergunta para suburbanos e suburbanas: vamos continuar bancando os encantos mil da Cidade Maravilhosa enquanto nos sobram apenas os desencantos?