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Homenagem ao Noel Rosa

A vida e a obra do poeta da vila precisam ser exaltadas sempre

Por Thiago Gomide

Estátua de Noel Rosa em Vila Isabel
Estátua de Noel Rosa em Vila Isabel -
O sambista Noel Rosa fazia da cidade seu enredo. Ruas, relações, medos, amores.

Em Vila Isabel, bairro da zona norte do Rio de Janeiro, o poeta nasceu. E nasceu gordinho naquele domingão, dia 11 de dezembro de 1910.

Por causa do tamanho, rolou uma dificuldade de tirar o menino da barriga de dona Martha. A bacia era estreita demais para um grande Noel.

Qual foi a solução? Os médicos usaram o fórceps. E usaram de uma maneira errada. O resultado marcaria o compositor: fratura no osso da mandíbula. O queixo, que seria motivo de ataques em toda vida, sofreu as consequências.

Desde muito cedo, Noel conviveu com as perdas. Sua avó se suicidou e coube ao adolescente Noel, com 16 para 17 anos, encontrar o corpo da avó sem vida. Suicídio foi a causa. Ele voltava de uma noite regada a bebidas e amores. Seu pai repetiria a dose alguns anos depois.

Desde muito cedo também, Noel conviveu com a boemia, com o samba, com a música, com a rua. Fez do violão seu parceiro. Foi autodidata. Na casa dos pais, rolavam saraus. Ele já arranhava sambas.

Noel caminhou muito pelo centro da então capital da república, mas foi em Vila Isabel que ele se tornou conhecido.

O bairro, que hoje tem uma estátua homenageando um de seus filhos mais ilustres, era agitadíssimo nas décadas de 1920, 1930, 1940. Quer diversão? Vila Isabel. Quer boemia? Vila Isabel. Pessoas interessantes? Vila Isabel.
Noel trafegava tanto no asfalto como na favela. Atitude quase que impossível naquele começo de século. Isso não era bem visto por uma turma que achava que um grupo era melhor que o outro.
Noel dava de ombros, abria caminhos. No começo da década de 1930, floresceu a amizade dele com Cartola, da Mangueira. Os dois andavam muito juntos. Frequentam bares juntos. Frequentavam suas respectivas casas. Compuseram dois sambas.
Um deles é “Não faz, amor”.

Já que falei de 1930, não posso esquecer do lançamento de um dos grandes sucessos de Noel: “Com que roupa?”.

Ainda no samba, é claro que a vida de Noel não era só flores. Teve muitos amigos, mas também teve quem não cruzasse com ele.
A mais famosa briga foi com um jovem sambista chamado Wilson Batista, que tinha chegado a pouco tempo no Rio de Janeiro, vindo de Campos de Goytacazes.

Tudo começou com uma canção escrita por Wilson e gravada por Silvio Caldas: Lenço no Pescoço.

“ Meu chapéu do lado

Tamanco arrastando

Lenço no pescoço

Navalha no bolso

Eu passo gingando

Provoco e desafio

Eu tenho orgulho
Em ser tão vadio”

Na cabeça de Noel, isso era um atentado. Que visão é essa da malandragem? A resposta veio logo. “Rapaz Folgado” era um cruzado de direita. Preste atenção nos últimos versos da letra.

“Malandro é palavra derrotista
Que só serve pra tirar

Todo o valor do sambista

Proponho ao povo civilizado

Não te chamar de malandro

E sim de rapaz folgado”

Quem gravou foi Aracy de Almeida, que depois virou uma rigorosa jurada de programas de calouro.
Essa batalha entre os dois geraria inúmeras canções incríveis. Wilson era mais direto nas citações. E os ataques foram aumentando de intensidade.

Como resposta a Wilson Batista, Noel ainda escreveria “Feitiço da Vila”, mostrando onde estava um dos berços do samba.

E “Palpite Infeliz”.

Wilson Batista, além de debochar do tal feitiço de Vila Isabel, ainda foi ultra agressivo com a música “Frankenstein da Vila”.

Falamos de briga, agora vamos falar de amor. E Noel não teve poucos não. Mesmo com todas as debilidades físicas, lá estava Noel aos beijos com uma moça. Nos bailes, nos bares.
Em uma festa no Cabaré Apollo, em 1934, ele conheceu Ceci. Ele, no palco, defendendo um trocado. E ela sambando como poucas. Foi inspiração de muitas letras dele, como “Dama do Cabaré”.

Paixão proibida. Ele estava noivo de Lindaura. Noel se casa com Lindaura em 1934, mesmo ano da paixão arrebatadora. Lindaura quase foi mãe de um herdeiro ou herdeira de Noel. Ela perdeu o bebe em 1936, após cair de uma árvore.

O mundo perde Noel um ano depois. Em 1937, muito novo, com 26 anos, a tuberculose vence. Noel lutou contra essa doença desde 1934. Saiu do Rio, foi para Nova Friburgo, porque era uma forma de tratar, mas ele não deixou de canto a noitada. Pelo contrário, não desacelerou nadinha.

Noel influenciou a composição de inúmeros gênios da música popular brasileira. Entre os fãs declarados, Chico Buarque de Hollanda.

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