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Engenho Novo: o bairro da segunda mãe de Dom Pedro II

Chegou o momento de lembrar da condessa de Belmonte, contar sobre a capela que é cheia de ossos do período da escravidão e a importância do trem para o desenvolvimento da Zona Norte

Por Thiago Gomide

Estação Engenho Novo: inaugurada por Dom Pedro II e importante para o desenvolvimento da zona norte
Estação Engenho Novo: inaugurada por Dom Pedro II e importante para o desenvolvimento da zona norte -
“Deixa acontecer naturalmente, eu não quero ver você chorar, deixa que o amor encontre a gente, nosso caso vai eternizar”, cantava Xande de Pilares em uma roda de samba no Arranco do Engenho de Dentro.

O grupo Revelação, nascido no Engenho Novo, já encontrava os louros do sucesso. A gravação de 1998 está disponível aqui.

Surpresa para alguns, cotidiano para tantos outros.

O samba da rapaziada sempre ecoou da Barão do Bom Retiro a condessa de Belmonte.

Por falar na segunda mãe de Dom Pedro II, uma das mais ilustres moradoras da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Engenho Novo, trago para a conversa o historiador britânico Roderick J. Barman:

“Na ausência da mãe e da madrasta, (Dom Pedro II) apegou-se a Mariana Carlota de Verna Magalhães Coutinho, futura condessa de Belmonte, dama da corte encarregada de sua criação a quem chamava de Dadama. Era uma viúva portuguesa, muito religiosa, que chegara ao Brasil com a corte de dom João em 1808. “Pedro II passou uma infância tristíssima, na qual experimentou carência emocional e manipulação psicológica”, escreveu Barman, no livro “O Imperador Cidadão”, editora Unesp.

Dom Pedro II, inclusive, chorou as pitangas no colo de Dadama por causa de Teresa Cristina, sua futura esposa. Não tinha gostado e se sentia enganado.

Paciência. Casamento era negócio.

Quando condessa de Belmonte batia perna pela região, uma capelinha já era referência para quem buscava um contato com a fé.

Em 1720, a construção de uma capela dedicada a São Miguel e Nossa Senhora da Conceição contribuiu e muito para o crescimento da área.

A capelinha foi ganhando novas formas com o tempo. E até esconde uma exposição de ossos do vergonhoso período escravocrata.  

“Capela das almas ainda precisa ser investigada. É um dos mistérios da Zona Norte. Existia uma pequena capelinha até a década de 1960. O Padre Ricardo quis tornar em uma catedral, uma referência de Igreja para a Zona Norte. Por isso tem uma torre gigantesca. Quando estavam fazendo os pilares das obras, escavaram a antiga sede do engenho. No entorno da capela ou dentro se enterravam os mortos. Muitos ossos de escravos estavam ali. Padre Ricardo fez um altar com os ossos na parte de baixo da capela. Os ossos estão em uma redoma de vidro”, explica o professor de história e morador do bairro Rafael Mattoso.

De qualquer canto da Igreja, é possível perceber o trem passando de um canto para o outro. O barulho é inesquecível.  

O que talvez nem todos saibam é que a estação Engenho Novo, aberta em 1858, foi a primeira na parada dos trens da central, antiga estação Dom Pedro II.

“No dia 29 de março de 1858, às dez horas e trinta minutos da manhã, partiu, do campo da Aclamação, o primeiro trem da Estrada de Ferro D.Pedro II, aos olhos do ‘ povo feliz e jubiloso’ que circundava a estação e o caminho até Queimados. Segundo o repórter do Jornal do Comércio, a festa de inauguração da estrada de Ferro havia agitado a população na viagem inaugural, que durou uma hora e quarenta minutos”, escreveu a historiadora Elaina Serfaty no livro “Pelo trem dos subúrbios”, pelo Arquivo Geral da cidade do Rio de Janeiro.

Com o trem, o bairro foi mudado drasticamente. Virou a porta de entrada da Zona Norte. O comércio cresceu. O número de moradores cresceu. A economia cresceu. O saneamento chegou.

Se isso ficou no passado, é outra história.
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Trem das Onze e Revelação
Uma das mais famosas regravações do grupo Revelação é “Trem das Onze”, pérola do paulistano Adoniran Barbosa.

“Se eu perder esse trem, que sai agora às onze horas, só amanhã de manhã”, compôs Adoniran.

É, nunca foi uma boa perder o trem. Independente do lugar.

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Origem do bairro e livro do Rafael Mattoso

“ Toda região que dá origem ao que a gente compreende como subúrbios do Rio de Janeiro surgiu das antigas freguesias rurais. A freguesia mais antiga é a de Irajá. Ela foi fundada em 1644. A partir dela foram feitas subdivisões que acabaram gerando toda zona norte. A primeira subdivisão é a freguesia de Inhaúma e foi criada em 1743. A freguesia do Engenho Novo surgiu de uma capelinha fundada em 1720, em um território jesuíta. Ali surgiu o que conhecemos como freguesia do Engenho Novo, em 1783. A partir dali toda a região de entrada da zona norte se formou. Essas terras eram muito grandes quando foram criadas. Elas iam basicamente da Tijuca, da divisão entre São Cristovão e antigo engenho velho de São Francisco Xavier até onde hoje é o Engenho de Dentro. O Engenho de Dentro eram as terras que estavam sendo subdivididas da freguesia de Inhaúma”, conta Rafael Mattoso.

Pra quem se interessa pelo subúrbio: Mattoso acabou de lançar o livro “Diálogos Suburbanos”, junto de Teresa Guilhon e Joaquim Justino dos Santos, pela excelente editora Mórula.

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Quem foi Barão de Bom Retiro?
Barão de Bom Retiro era jurista de formação, pela faculdade de São Paulo. Ele trabalhou em alguns cargos públicos. Foi presidente do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, fundado por Dom Pedro I e intensificado por Dom Pedro II. Ele é muito conhecido pelo reflorestamento da Floresta da Tijuca.
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