Coisas do Rio
Coluna
Coisas do Rio
Thiago Gomide - thigomide@gmail.com

Praia já teve regras e quem descumpria era preso

Durante a Gripe Espanhola, não se podia fazer quase nada nas praias do Rio de Janeiro; Entenda esse fato e os motivos para que o prefeito tomasse essa atitude

Por Thiago Gomide

Clima Tempo - Movimentação de cariocas e turista na orla da praia do Arpoadore Ipanema. Foto: DanielCastelo Branco / Agência O Dia
Clima Tempo - Movimentação de cariocas e turista na orla da praia do Arpoadore Ipanema. Foto: DanielCastelo Branco / Agência O Dia -
Você gosta de ir cedinho à praia no domingão e ficar até o pôr do sol? Não podia.

Você ama fazer luau com os amigos? Não podia.

Curte jogar uma bolinha, tomar uma cervejinha, escutar um pagode à beira mar? Esquece.

Você vende mate, biscoito Globo, camarão fritinho ou pau de selfie? Saiba que não podia berrar - além que não podia negociar nada.

Você vai de biquíni? Nem pensar. De sunga? Impossível.

Galeria de Fotos

Rio de Janeiro - RJ - 11/08/2020 - Banhistas nas praias do Leme e Arpoador, na foto Daniel Alves, Joao Paulo e Cristiane - Foto Gilvan de Souza / Agencia O Dia Gilvan de Souza / Agencia O Dia
Do Leme ao Arpoador, as praias lotaram ontem: extensão das areias pode ser empecilho à demarcação Gilvan de Souza
Atriz Mônica Martelli na Praia do Leblon, na Zona Sul do Rio Ag. News
Rio - 10/08/2020 - Movimentacao na calcada e na praia do Leblon. Foto: Daniel Castelo Branco / Agencia O Dia Daniel Castelo Branco
Rio - 10/08/2020 - Movimentacao na calcada e na praia do Leblon. Foto: Daniel Castelo Branco / Agencia O Dia Daniel Castelo Branco
Rio - 10/08/2020 - Movimentacao na calcada e na praia do Leblon. Foto: Daniel Castelo Branco / Agencia O Dia Daniel Castelo Branco
Praia do Leme em tempos de pandemia Estefan Radovicz / Agência O Dia
Clima Tempo - Movimentação de cariocas e turista na orla da praia do Arpoadore Ipanema. Foto: DanielCastelo Branco / Agência O Dia Daniel Castelo Branco
Clima Tempo - Movimentação de cariocas e turista na orla da praia do Arpoadore Ipanema. Foto: DanielCastelo Branco / Agência O Dia Daniel Castelo Branco
Em pleno inverno, cariocas e turistas puderam aproveitar o sol que fez ontem. Sufistas curtiram as ondas nas praias do Arpoador e Ipanema Daniel Castelo Branco


O decreto assinado pelo prefeito do então Distrito Federal Amaro Cavalcanti, em 1917, era direto: banhos de mar somente estavam permitidos das 5h às 9h e das 16h às 18h de 1 de abril a 30 de novembro.

E o resto do ano?

Tinha moleza do dia 1 de dezembro a 31 de março: era permitido frequentar as praias de 5 da matina às 8h e das 17h às 19h.

Se estivesse fora desse horário e não cumprisse as normas que também indicavam vestimentas “apropriadas”, de duas, uma: ou pagava uma salgada multa ou ia em cana por cinco dias.

Prisão, meu chapa.

A época de Amaro Cavalcanti, hoje nome de avenida no Méier, foi marcada por uma troca de cultura: se antes a praia era encarada como espaço terapêutico, de tratamento, agora era cada vez mais de diversão.

Nesse período foram instalados os primeiros postos de guarda-vidas em Copacabana. Virou febre ir pegar um solzinho na famosa areia.

Havia um temor que afogamentos manchassem a imagem turística que o Rio de Janeiro começava a imprimir no mundo.

Esse é considerado um dos motivos da tomada radical de atitude do prefeito. Mas um ponto além deve ser considerado: o desejo de manter um tal pudor. Sabe, né? 

Só faltava vestir terno e gravata para ir dar um mergulhinho. Era complicado.
Apesar do mundo estar enfrentando os momentos finais da pandemia de Gripe Espanhola, não há nenhum registro que indique o prefeito pensou nesse problema.

Como pode-se prever, muita água passou por debaixo da ponte até o biquíni de Leila Diniz chocar a moçada na década de 1970 ou de Luz Del Fuego criar sua própria ilha de nudismo: teve campanha contra a praia e à favor de limites, prisões e mais prisões e até quem alugasse barcos para fugir da fiscalização.

Essa está valendo até hoje.


*

Dom João VI e o complicado banho de mar

Em seu turbulento período no Brasil, o príncipe-regente Dom João VI viveu maus bocados por causa de um carrapato.

Tomou uma mordida e infeccionou.
Os médicos eram categóricos: precisava de um marzinho para tudo voltar ao normal.

Dom João VI era capaz de enfrentar a tropa de Napoleão Bonaparte para fugir de um bom mergulho.
Saúde é saúde. Não teve escapatória. 

As idas dele para a praia do Caju, bem pertinho do hoje Cemitério, eram verdadeiras novelas.

O rapaz ia dentro de um barril e só molhava as pernas. Rápido. Bem rápido. 

Os portugueses não eram afeitos ao banho, seja de mar, de chuveirão ou o que fosse. 

Ao contrário dos índios, que nos deixaram essa herança.
Ainda bem. 

Comentários