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UFRJ já foi atacada por aranhas: a solução foi bombardear

A estranha e pouco conhecida história aconteceu em 1961 e envolveu o presidente Jânio Quadros, Força Aérea Brasileira, bombas incendiárias e um enorme ninho de aranhas

Por Thiago Gomide

Aranhas da espécie
Aranhas da espécie "Flamenguinha" aterrorizaram a Ilha do Fundão em 1961: a Força Aérea Brasileira foi convocada para tentar resolver -
Os estudantes, professores e funcionários da Universidade do Brasil, atual UFRJ, estavam assustados.

Os moradores da Ilha do Fundão pareciam só ter um assunto: a proliferação de aranhas conhecidas como “Flamenguinhas”, prima distante da perigosa “Viúva Negra”.

Eram vistas em tudo que era canto.

Você estava almoçando e batia de cara com uma. Estava sentadinho em um banco e logo apareciam algumas para incomodar. Tirando aquela pestana e acordava com uma danada na testa.

Entravam nos sapatos. Subiam pelas calças. Pelos vestidos. Além do evidente incomodo, havia a informação que elas eram peçonhentas. Casos de ataque foram registrados.

Precisava-se resolver aquela parada. O Rio de Janeiro corria risco. Até o presidente da república, Jânio Quadros, entrou no circuito prometendo dar um fim ao problema.

O gigantesco ninho ficava perto do Instituto de Puericultura da então Universidade do Brasil. Crianças, inclusive, estavam internadas nesse lugar.

“Olha o perigo", muitos defendiam.

Para descascar uma maça, o Rambo se vangloriava de usar uma faca de 30 centímetros. Nós nos orgulhamos de preparar uma verdadeira guerra contra as bichinhas.

Foram instalados cem tambores de óleo e gasolina. Jatos da Força Aérea Brasileira iriam jogar bombas exatamente nesses alvos, ampliando a potência e destruindo o que tivesse pela frente. 
No dia 26 de julho de 1961, os caças levantaram voo. Era tardinha. A população observava tudo à distância.

Bombas incendiárias, que lembram aquelas lançadas pelos americanos no Vietnã, tomaram conta. As fotos impressionam. De longe só era possível perceber que pedaços de terra pulavam para tudo que é canto. E fumaça, muita fumaça.

Houve aplausos. Houve quem jurasse ser o fim daquela praga. Houve quem sonhasse com um almoço tranquilo. Houve quem pensasse que “pronto, vida normal, posso dormir em paz".

Logo chegou a informação que nossos bravos pilotos sofreram com a concorrência do vento. As bombas não acertaram os tambores.

E pior: com as explosões e contando com um mecanismo de defesa, as aranhas mais jovens conseguiram acompanhar as correntes aéreas e pararam em outros lugares.

Aranhas espalhadas significava, significa e sempre significará novos ninhos.

Até na Barra da Tijuca elas foram parar. Niterói, coitada!, só faltou receber uma festa de aracnídeos. 

Mais alguns ataques precisaram ser feitos para consertar a barbeiragem.

A chamada Operação Aranha não foi um sucesso absoluto, como pudemos ver, mas não se escutou mais sobre o imenso ninho.

Na Ilha do Fundão, é claro.


*
Parabéns
A UFRJ, tão atacada, é um orgulho para o Rio de Janeiro. 
Parabéns pelo trabalho e pela resistência. 
*

Por que Viúva-Negra?

Porque muitas fêmeas têm o hábito de devorar o macho após a cópula.

Eita.

*

Puericultura?

“É a ciência que reúne todas as noções (fisiologia, higiene, sociologia) suscetíveis de favorecer o desenvolvimento físico e psíquico das crianças, desde o período da gestação até a puberdade”, é a definição mais encontrada nos portais sérios de ciência.

Galeria de Fotos

Aranhas da espécie "Flamenguinha" aterrorizaram a Ilha do Fundão em 1961: a Força Aérea Brasileira foi convocada para tentar resolver Reprodução Internet
Ilha do Fundão viveu dias complicados em 1961: na época, o perigo era ser picado por aranhas Reprodução Internet
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