Como enganei a censura para revelar o golpe militar na Argentina

Com texto cifrado, consegui transmitir a notícia de Buenos Aires para o Brasil

Por Luarlindo Ernesto

Sheriff sifu. Bugios brincando nas ruas. Marcial passeando em todo o canto. Lavadeiras usando tanques em todo o quintal. Somente tangos e milongas nas rádios e jornais. Frio deixa cidade deserta. Povo preso aos compromissos...
Entenderam o telegrama?
Pois foi esse o início de uma reportagem, em julho de 1966, que passei, de Buenos Aires, para o telex do jornal, no Rio de Janeiro, em uma madrugada de chuva, após mais um golpe militar na Argentina. Bem, Rogério, o meu editor, velho companheiro de jornal, conhecedor de gírias, boêmio de primeira, jornalista internacional, sabia de tudo do país vizinho. Pediu apenas uma coisa, diante do aparelho que picotava a informação em fita:
- Você confirma a milonga?
Com a confirmação, ele pegou o telefone interno e avisou ao editor-chefe que acabara de acontecer outro golpe militar. A dúvida era a de que se poderíamos publicar, em manchete, a derrubada do agora ex- presidente da Argentina.
Pois foi esse o motivo de mandar a notícia cifrada. Consegui enganar os censores de lá e de cá. Afinal, nós tínhamos dois coronéis, fardados, na redação, lendo todas as matérias que produzíamos. Nós estávamos sob censura nacional em rádios, revistas, televisões e jornais. E, ainda, éramos proibidos de frequentar reuniões com mais de três ou quatro pessoas. Tudo sob controle. Barra pesada. Mas acho que vale a pena traduzir o início do despacho - era assim que chamávamos o texto que enviávamos do exterior - que virava a matéria.
do - Luar para - Rogério
-Presidente derrubado. Militares patrulhando as ruas e Lei Marcial valendo em todo o país. Os militares estão com tropas e tanques por todas as províncias. Rádios transmitem músicas sacras e, vez por outra, um velho tango de Gardel. Há informações de que as prisões acontecem sem mando judicial.
O restante era pura enrolação, enaltecendo os golpistas (para poder citar nomes dos golpistas, como o do general Ongania, que assumiu o poder, e de outros oficiais que o apoiaram).
É bom avisar o óbvio aos mais jovens: não havia smartphones ou internet. Nuvens eram as dos poetas, aviadores e dos meteorologistas. O telex era uma máquina tipo de escrever, que usávamos para mandar os textos para outra máquina, em outro ponto, usando linha telefônica. Fotos? Eram passadas por rádio fotos, que gravavam as imagens em rolos intermináveis. O mais moderno da época, um luxo. O repórter escrevia o texto, gravava em fita e entregava ao militar da censura (no caso, em Buenos Aires). Ele lia e jogava fora. Ou entregava a fita, caso fosse aprovada a mensagem.
Bem, nessa "aventura", em terra dos hermanos, consegui um aumento salarial. Afinal, conseguimos, por sorte e cansaço do censor argentino, driblar a censura e mandar a matéria de mais um golpe no país vizinho. O militar já havia lido dezenas de matérias de jornalistas de todo o mundo que estavam em Buenos Aires. O meu jornal vendeu o texto para agências de notícias internacionais (com fotos dos tanques e militares nas ruas). E, logo o caso estava nas páginas pelo mundo afora. O Presidente Illia morreu em 1983, pobre, trabalhando em uma padaria de um amigo. Nem carro tinha. Ele vendeu o que comprou antes de ser eleito. E, com o dinheiro, tentou curar a esposa, vítima de câncer. Foi sepultado com roupas simples que usava no dia a dia.
Calçaram o único par de sapatos que teve, bem surrados. Pouco antes da sua morte, voltei a Argentina e tentei uma entrevista. Ele recusou.
-Não falo de política, tenho minha vida limpa e quero morrer em paz.
Confesso que chorei quando soube de sua morte, no dia 13 de janeiro de 1983. Outros golpes aconteceram por lá. E, hoje em dia, já temos a internet.
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