O advogado do diabo

Dana de Teffé foi vista com vida pela última vez ao embarcar no carro do advogado e namorado Leonardo Heitor, em junho de 1961, em Copacabana. Preso acusado de envolvimento no sumiço da socialite ficou conhecido como 'advogado do diabo'

Por Luarlindo Ernesto

Leonardo Heitor: acusado de matar Dana de Teffé
Leonardo Heitor: acusado de matar Dana de Teffé -
Jovem, bonita, rica e solteira. Nascida na antiga Tchecoslováquia numa rica família judaica de Praga, a socialite Dana Edita Fischerova de Teffé passou por vários países antes de chegar ao Brasil, no começo da década de 1950. Ela foi vista com vida pela última vez aos 48 anos, no dia 29 de junho de 1961, quando embarcou no carro de seu advogado e namorado, Leopoldo Heitor, em Copacabana.
O casal deveria seguir para São Paulo, mas a mulher desapareceu, em Rio Claro. O advogado, apontado como autor da morte dela, deu várias versões à polícia: de sequestro orquestrado por espiões comunistas conterrâneos de Dana e até de assalto na estrada, quando a mulher teria sido levada por bandidos.
Procurador da socialite, Leopoldo vendeu joias, imóveis e sabe-se lá o que mais. Foi preso e chegou a cumprir pena, mas conseguiu a liberdade. O crime prescreveu em 1981. Leopoldo morreu em fevereiro de 2001, de infarto, aos 78 anos. E o caso do desaparecimento, sem cadáver, entrou para o esquecimento.
No IML do Rio, por muitos anos rolou a história de que havia um esqueleto, sem crânio, sem os ossos das mãos, guardado em um armário. Não sei o que fim levou. O saudoso Carlos Heitor Cony, coleguinha jornalista imortal da Academia Brasileira de Letras, escreveu dezenas de artigos, sempre cobrando e lembrando do corpo nunca encontrado da socialite. "Onde estão os ossos de Dana?", indagava, em trechos de suas variadas crônicas, sem se importar com o tema do artigo impresso.
Repórteres da área policial daquela época batizaram Leopoldo como o "advogado do diabo", apelido que ele carregou até depois de morto. Suas versões para o desaparecimento da cliente e namorada enlouqueceram os policiais que investigavam o crime e deliciavam os repórteres que cobriam o caso.
Eu fui parar na Praia do Sono, em Paraty, nos idos de 1967. Uma informação chegou de que um avião de pequeno porte havia aterrizado na areia daquela então pequena e desconhecida colônia de pesca, no Sul do Rio de Janeiro. Um caixão estava sendo transportado de São Paulo. E, no interior dele, estaria o que restou de Dana de Teffé.
Rumei para Paraty, convenci o delegado da área da possibilidade do, enfim, encontro da ossada e ainda arranjei uma lancha de um empresário paulista para nosso transporte até a Praia do Sono. Não havia ligação por terra e o desembarque na praia era quase impossível devido à violência das ondas. Lá, viviam cerca de 100 famílias de caiçaras, que viviam de plantação de sobrevivência e da pesca, sem energia elétrica e outras comodidades da civilização.
Já em terra, ouvi testemunhas do pouso do teco-teco, escutei histórias do caixão mortuário, cheguei até a ao local onde teria acontecido um sepultamento. Só encontramos vôngoles, um marisco saboroso, que usamos na alimentação durante as escavações. Uma delícia.
Passei uns 15 dias entre Paraty e a Praia do Sono. Não encontrei os ossos de Dana de Teffé. Mas descobri que, na época, a cadeia no Centro Histórico de Paraty, tombada, não tinha laje e nem forro. Bastavam três presos na única cela e as fugas estavam garantidas. Eles usavam "escada humana" e saíam pelo telhado. Claro, virou matéria! Foi construída, então, uma delegacia, tipo pré-fabricada, de madeira, fora da área histórica e com as celas em alvenaria. E, ainda, achei a história do prefeito que usou dinheiro público para presentear, com calcinhas, as funcionárias do Executivo. Um mimo.

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