Por O Dia
Como toda grande cidade do mundo, o Rio de Janeiro deve ao seu centro boa parte de sua história. Como muitas outras megalópoles, o coração da cidade ficou negligenciado durante boa parte dos últimos anos. Foi se esvaziando, primeiro de moradores, aos poucos da atividade econômica. A pandemia agravou a situação, com mais de 40% dos bares e restaurantes fechando as portas.
O processo de abandono do centro não é incomum. As cidades crescem e vão dando as costas para o seu núcleo inicial. As novas fronteiras costumam ser mais atraentes do ponto de vista construtivo, ter uma legislação mais flexível e contar com mais incentivos para a expansão.
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Nas últimas décadas, importantes cidades fizeram um esforço para reverter essa dívida histórica e para se reconectar com seus centros, tornando eles mais dinâmicos e vivos. O caso mais lembrado é sempre o de Barcelona, que aproveitou os Jogos Olímpicos para essa guinada. Mas há outros exemplos.
O primeiro é o Marais, em Paris, um bairro central e histórico, que havia passado praticamente incólume à imensa reforma do prefeito Haussmann no século 19 que deu à Cidade Luz a sua cara atual, com grandes bulevares e seus prédios característicos.
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No inícios dos anos 1960 o Marais estava relegado ao abandono, com mansões e prédios históricos caindo aos pedaços, transformadas em casebres decrépitos, com fachadas enegrecidas de poluição. Em alguns locais havia surtos de tuberculose.
A virada dos anos 50 para os 60 foi o auge da arquitetura de concreto armado que nos deu Brasília, por exemplo. A perspectiva de então, no Marais, era simplesmente botar abaixo o que fosse possível e erigir construções modernas. Afinal, após séculos de ocupação continuada ele se tornara um bastião de insalubridade.
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Em 1962, o ministro da Cultura, o escritor André Malraux, promulgou uma lei protegendo o patrimônio histórico e dando bases para a revitalização da área. O Marais foi o primeiro a ser protegido dessa forma na França.
Seria difícil imaginar que essa área degradada se transformaria tanto, com algumas das ruas mais vibrantes e animadas da cidade, sete dias na semana, juntando moradores e turistas.
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Pois, temos aqui no Rio a chance de seguir esse caminho com o Reviver Centro, recém-aprovado pela Câmara de Vereadores. É a mais significativa tentativa de reverter o esvaziamento dessa parte histórica. O projeto retoma a ideia do legado Olímpico de revalorizar o Centro.
A primeira parte, implantada para os Jogos, nos deu o fim do Elevado da Perimetral. E, assim, reabriu a vista do carioca para o mar com o Porto Maravilha, o Museu do Amanhã, o AquaRio e outros atrativos com imenso potencial turístico. E também reforçou o sistema de transporte com a criação do VLT.
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Mas ficou faltando vida, gente morando e vivendo na região, uma das que mais perde habitantes no município. Para ser revitalizada, ela precisa funcionar 24 horas por dia, sete dias na semana. Com a implantação do projeto a Prefeitura prevê aumentar em cerca de 20% a população da área, que abrange o bairro de Fátima, o Castelo, a Cruz Vermelha e Lapa, entre outros.
Ao mesmo tempo em que permite a preservação de construções históricas, como os armazéns do porto e o Moinho Fluminense, o projeto incentiva a transformação de imóveis comerciais para uso residencial ou misto. E penaliza com aumento de IPTU quem mantiver imóveis vazios e não aproveitados. Também está previsto um plano de locação social, com benefício temporário para custear o aluguel em novas moradias na região.
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A parte turística e histórica não ficou de lado. Será criado o Distrito de Vivência e Memória Africana no local onde ficava os escravos eram desembarcados ao chegar à cidade no período colonial. O público-alvo são servidores públicos, estudantes universitários.
O Reviver Centro é um projeto de fôlego que pode se tornar um marco na retomada da cidade. Vamos torcer e apoiar.
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Luciano Bandeira é presidente da OABRJ.