Titãs lançam o álbum "Olho Furta-cor" Divulgação

Rio - Com 40 anos de formação, os Titãs estão mais atuais que nunca. O grupo lançou no início deste mês o álbum "Olho Furta-cor" com canções inéditas. Guitarrista da banda, Tony Bellotto comemora o novo trabalho, que traz referências a temas contemporâneos e globais, como destruição das florestas, política e o isolamento social causado pela pandemia do novo coronavírus. O músico ainda cita os planos de aposentadoria e a convivência com Branco Mello e Sergio Britto. 
"Em vez de a gente fazer uma coisa óbvia, previsível, um show com maiores sucessos da carreira, achamos que a maneira mais titânica e surpreendente (para comemorar os 40 anos de banda) seria lançar um disco de inéditas, até pra reafirmar a nossa força criativa, disposição de não ficar apegado ao passado, pensar no futuro. Sempre que a gente começa um disco a gente fala: 'Vamos fazer um disco de rock pesado, com elementos de música brasileira'. Mas nossos discos acabam sendo sempre uma crônica do momento, do que o Brasil está vivendo, que o mundo está vivendo", analisa. 
Uma das músicas deste álbum é 'Apocalipse Só', de sua autoria com o auxílio de Britto, que tem cantos indígenas. "Essa ideia da brasilidade foi interessante, porque me inspirou a pensar qual seria a música mais brasileira possível. A música dos índios. Fui pesquisar e achei aquele canto de índios do Xingu. Um canto ritual e aquilo me inspirou a começar a compor o 'Apocalipse Só'. Essa é a música que abre o disco. Ela é muito representativa, é um rock pesado, que tem a presença dos índios, colocamos um coro de crianças do Instituto Anelo, associação de Campinas com a qual colaboramos, que ensina música para moradores de comunidades", explica Tony. 
O disco também traz outros temas atuais. "Tem elementos como a destruição das florestas, tem política, a música 'Caos', feita por Rita Lee, Roberto Carvalho e Beto Lee especialmente pra gente. Tem a polarização, o isolamento que a pandemia exacerbou nas pessoas. Tudo isso está presente no disco", enumera o cantor.
Tony admite que, apesar de difícil, é gostoso escolher o repertório de um novo trabalho. "É uma dificuldade boa, o que a gente gosta de fazer é compor, fazer música boa. Desde o início da carreira. Isso é uma linha que une a gente nesses 40 anos. Quando entro pra gravar um disco, tenho a mesma excitação e euforia que tinha há 40 anos. A gente gosta de inventar música, de fazer, é um período criativo gostoso, muito prazeroso. A gente sempre acaba fazendo muita coisa, algumas a gente descarta, não leva a diante. Há um trabalho de escolher, mas é um problema positivo. Faz parte de um processo que é muito motivador na carreira", explica. 
Bellotto ainda ressalta a importância de lançar trabalhos novos mesmo com uma carreira consolidada. "Acho fundamental, quando a gente sai pra estrada e a gente vai cantar músicas antigas, de 20, 30 anos atrás, a gente tem que estar motivado com a gente mesmo, saber que a gente continua criativo, relevante, fazendo coisa interessante. Motiva muito a gente, pra dar mais prazer de tocar o que a gente fez, estar fazendo coisas. A gente tem essa vontade de se superar. Nessa gana de fazer coisas boas a gente vai produzindo e ao longo do caminho algumas músicas vão permanecendo, fazendo sucesso, tocam as pessoas", destaca. 
A mistura de ritmos nas canções é uma marca registrada do Titãs, que ao mesmo tempo não perde sua essência. "Desde o começo a gente tem essa diversidade, essa marca, a gente transita por vários ritmos. Ao longo da carreira nós temos punk-rocks pesados como 'Polícia', rocks como 'Homem Primata' e músicas como 'Epitáfio', 'Enquanto houver Sol'. Tem reagges, funk, a gente quis manter isso no 'Olho Fruta-cor'".
Planos de aposentadoria
Cheio de disposição, aos 62 anos, Tony Belloto não pensa em se aposentar. "Na pandemia ficou muito claro como gosto de fazer isso. No começo foi muito angustiante, muito difícil. Mas tinham momentos que eu falava: 'puxa, que legal, posso ficar um fim de semana em casa, sem ter o que fazer'. Depois foi me dando uma angústia muito grande. Quando as coisas melhoraram e a gente voltou a fazer shows, senti o quanto gosto de fazer isso. Isso está mais presente que nunca. A aposentadoria não vai vir nem tão cedo", comenta o artista, que cita a boa forma dos 'Rolling Stones'. "Eles estão com quase 80 anos e fazendo shows incríveis. A referência é essa. Então, acho que pelos próximos 20 anos a gente pretende seguir daqui", diverte-se. 
Relação de respeito
A banda Titãs começou com oito integrantes. Atualmente, são três. No entanto, Tony garante que a relação entre todos é de muito respeito e afeto. "São 40 anos, a vantagem de terem saído outros integrantes é que hoje é mais fácil a gente decidir as coisas em três do que era no começo em oito (risos). A gente foi aprendendo a conviver, é como irmão. A gente se conhece, sabe o que vai chatear, sabe o que está pensando, a gente administra isso muito bem. A gente é muito amigo, temos muita admiração, inclusive, pelos (integrantes) que saíram. E eles pela gente. Então, esse respeito que a gente sempre teve, mesmo nas situações mais difíceis, de divergência, até quando o cara sai da banda, claro, que é difícil, mas a gente mantém esse respeito e afeto. A gente se dá muito bem. Uma banda é um casamento sem sexo. As canções são os filhos", brinca Tony.