Viola Davis interpreta a general Nanisca em 'A Mulher Rei', que estreia hojeDivulgação/Sony/Ilze Kitshoff
'Eu quero que mulheres negras sejam humanizadas', diz Viola Davis sobre o filme 'A Mulher Rei'
Atriz esteve no Brasil para divulgar o longa que conta a história de guerreiras implacáveis na África do século 19: 'Não somos uma metáfora'
Rio - A história de guerreiras que lutaram contra a escravidão no continente africano ganhou vida e chega aos cinemas hoje, com a estreia de 'A Mulher Rei'. Protagonizado pela vencedora do Oscar Viola Davis, o filme se baseia em fatos reais ao mostrar o reino de Daomé (atual Benin) e as Agojie, unidade de elite formada por mulheres-soldado, lideradas pela general Nanisca, no século 19. A estrela do longa esteve no Rio para divulgar a produção e conversou com a imprensa em coletiva realizada no hotel Copacabana Palace, na Zona Sul da cidade.
Em sua primeira visita ao Brasil, a atriz de 57 anos disse estar "maravilhada com a comida, com a profundidade da cultura e a gentileza" que encontrou. "Parece que existe alguma celebração constante no Brasil, você estão sempre festejando", brincou ela, que explicou o motivo do país ter sido escolhido para a pré-estreia de 'A Mulher Rei', na última segunda-feira. Definindo o filme como um drama histórico para além da ação, Davis citou a aproximação entre pessoas negras de todo o mundo por causa dos 400 anos de escravidão.
"Com o comércio de escravos no Oceano Atlântico, nós sabemos que cerca de 12 milhões de escravos vieram de diversas partes da África e sua primeira parada era no Brasil. Existia uma percepção na cultura negra de que nós estamos separados. De alguma forma, nós não nos sentimos conectados. Eu mesma não tinha percebido isto até os meus 20 anos, quando viajei à Gâmbia. Mas isso se destaca nesse filme: a conexão que existe entre nós como pessoas racializadas. E a contribuição que o Brasil traz é enorme, quando vocês assistirem o filme, vocês verão como isto foi incluído na narrativa", adiantou Viola.
Representatividade feminina
Trazendo um elenco formado em sua maioria por pessoas pretas, o filme representa uma mudança na maneira como mulheres negras são retratadas em Hollywood. "Nós estamos no fim da lista, principalmente quando temos pele escura. Sempre somos vistas como advogadas, médicas que não têm nome, aquela personagem que chega no final com uma fala petulante, a mulher que está chorando a morte do filho...", enumerou Viola.
"Não temos história, não temos nome. Eu me cansei disso. Na minha vida, eu sei quem são essas mulheres, e elas são vastas, complicadas, elas têm beleza. Eu quero que mulheres negras sejam humanizadas, como todos os outros. Se estamos lutando contra colorismo e racismo, esse é o primeiro passo, entender que somos, todos, parte da raça humana. Não somos um artifício de narrativa, não somos uma metáfora", declarou a artista, dona de um prêmio Emmy por sua atuação como Annalise Keating na série 'Como Defender um Assassino'.
"Existe uma ideia de que somos tão fortes que não podemos ser vulneráveis. Às vezes, não somos vistas nem mesmo por nossas colegas brancas, existem questões que afetam mulheres pretas porque não somos vistas como valiosas. As Agojie são valiosas, e elas veem isso, porque tudo vem de um lugar de serem importantes", completa Davis.
'Ver para crer'
'A Mulher Rei' foi produzido pela própria atriz em parceria com o marido, Julius Tennon, que acompanhou Viola na viagem ao Brasil. Com direção de Gina Prince-Blythewood, o filme ainda conta com elenco principal formado por John Boyega, de 'Star Wars', e Lashana Lynch, de 'Capitã Marvel', ao lado de Thuso Mbedu e Sheila Atim. "Esse filme pode criar uma mudança que todos nós queremos. Afinal, tudo começa com algo espetacular", defende Tennon.
Além de abordar temas como racismo e machismo ao retratar as guerreiras implacáveis de Daomé, o longa carrega uma mensagem importante desde o título, ao rejeitar o termo "rainha" mesmo no original, 'The Woman King'. "Ela é uma general que mereceu esse título. Essa mulher merece estar no topo. Não como uma parceira, não como uma segunda em comando. Mas uma líder. Nós, geralmente, somos secundárias. Mulheres, mulheres negras. Ver alguém como eu em um pôster com a palavra 'rei' significa algo inacreditavelmente poderoso", explicou a protagonista.
Questionada sobre o futuro de heroínas negras no cinema, Viola joga a responsabilidade para o público e cobra: "É importante que o público pague para ver nossos filmes. É a única maneira de superar paradigmas. A indústria sobrevive de seus sucessos e, se tivermos a bilheteria, teremos reconhecimento", afirmou. "Às vezes, as pessoas precisam ver para crer. E acho que isso acontece com 'A Mulher Rei'. Você assiste (o filme), acredita nele e é afetado por ele. E, quando você é afetado por algo, não há como voltar. Isso é o que eu espero", finalizou a atriz.















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