David Júnior, Carmo Dalla Vecchia e Dani Ornellas ficam em cartaz até dezembro com peça sobre racismo e escravidão Divulgação/Ale Catan

Rio - A discriminação racial volta a ser abordada em cima do palco a partir da escravização de pessoas pretas na peça "12 Anos ou A Memória da Queda". Em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB RJ), no Centro do Rio, o espetáculo traz Carmo Dalla Vecchia, Dani Ornellas e David Júnior em uma adaptação do livro "12 anos de escravidão", de Solomon Northup. Na trama, um homem negro aceita um emprego em outra cidade, mas é sequestrado e escravizado por mais de uma década.
Baseada na história real que já se transformou em filme vencedor do Oscar, a montagem tem dramaturgia original de Maria Shu e direção artística de Tatiana Tiburcio e Onisajé. O olhar feminino sobre a questão racial fica claro na personagem de Dani, que destaca a importância de abordar o assunto atualmente: "É fundamental, pois a única construção permanecente que permeia todas as relações e estruturas no nosso - e em grande parte do mundo - é a escravocrata. E, se não falarmos sobre esse assunto e o quanto tudo isso nos afeta, nunca conseguiremos uma mudança significativa", opina a atriz, que esteve recentemente na novela "Nos Tempos do Imperador", da TV Globo.
"Sendo eu uma mulher preta retinta, é fundamental reconhecer que o processo criativo me atravessa profundamente. Posso destacar uma fala da minha personagem, Ominira, que reflete o que sinto: 'Sou eu, mesmo quando não estou lá. É o meu antepassado, mesmo quando ele não está lá'", declara ela, ao relembrar o impacto que sentiu quando leu o texto da peça.
Para Carmo, "12 Anos" é uma oportunidade de resgatar "o olhar do oprimido e não do opressor" dentro de um tema que ainda é recorrente na sociedade: "O fato é que, infelizmente, essa luta não está nem um pouco distante de todos nós. Diariamente temos que trazer o tema à tona em nossos grandes e pequenos discursos. Em nossas ações diárias. Em nosso pensamento", destaca o galã, que está no ar com a novela "Cara e Coragem".
Na pele do "conservador" Joaquim de Alcântara, o ator ainda chama a atenção para o alerta que o espetáculo deixa para um público específico: "Espero que as pessoas brancas se enxerguem em mim. E vejam que o preconceito está em todos nós, e não apenas nos livros de história. É disso que se trata o racismo estrutural. Ele está em nós, mesmo que não percebamos isso. Deveríamos ter isso em mente para diariamente pensarmos em nossas ações e palavras que, muitas vezes, normalizamos sem perceber que estamos magoando e repetindo padrões desrespeitosos", afirma.
E David Júnior faz coro com os colegas de elenco ao relembrar que o problema abordado na peça segue em pauta no Brasil, que chegou a ser citado em um relatório da Organização das Nações Unidos, de agosto deste ano, como um dos países onde ainda existem regimes de trabalho análogo à escravidão. "Enquanto esse assunto não for pauta de discussões na mesa de brancxs e privilegiados com a escravização, esse desserviço social será prejudicial à todxs", lamenta o ator, conhecido pela série médica "Sob Pressão", utilizando a linguagem neutra para incluir as pessoas não binárias e intersexo em sua resposta.
"Nossas próximas gerações serão governadas por líderes que ignorarão a existência da escravização e desumanização dos corpos negros", continua ele, que interpreta Solomon Northup na montagem que estreou no último dia 16. "Espero que, no próximo governo, tenhamos uma frente de ação, que incite a sociedade brasileira a discutir essa temática, elaborando meios de acabar de vez com esse câncer social", completa David.
SERVIÇO - "12 Anos ou A Memória da Queda", no CCBB RJ
Em cartaz até 16 de dezembro. Quarta a sábado às 19h30; domingo às 18h.
Endereço: Rua Primeiro de Março, 66 – Centro.
Ingressos disponíveis na bilheteria local ou no site do CCBB, a partir de R$ 15 (meia-entrada).
Classificação indicativa: 12 anos.
Duração: 90 minutos.