Milton Cunha posa no estudio do jornal O Dia para a capa da revista Se LIga do jornal Meia Hora. CARNAVAL 2018, RJ, 05 de fevereiro.
Milton Cunha posa no estudio do jornal O Dia para a capa da revista Se LIga do jornal Meia Hora. CARNAVAL 2018, RJ, 05 de fevereiro.Marcio Mercante / Agencia O Dia
Por Leonardo Damico
Rio - Adiado de fevereiro para julho, o Carnaval do Rio começa a ganhar mais corpo para 2021. Na última semana, a Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) definiu a ordem dos desfiles do ano que vem. Com as posições das agremiações definidas, a Estação Primeira de Mangueira, única escola do Grupo Especial que ainda não havia divulgado enredo, o revelou. Em conversa com o 'Dia', o carnavalesco e comentarista de Carnaval na 'Rede Globo', Milton Cunha analisou os enredos.

"No próximo ano, quem mais se destaca entre os enredos é a negritude. A maioria vem falar da beleza negra, a luta, a exaltação aos orixás. É uma leva de enredos que reafirma as comunidades das escolas de samba. Acredito que o foco será muito mais na narrativa e não no luxo, o visual passará a ser consequência e não primordial. E esses discursos produzem sambas incríveis. É um recado das escolas, para dizer que estão aqui e estão lutando", disse o artista de 58 anos.

Apesar de já ter a ordem, dias escolhidos (9, 10, 11 e 12/7) e enredos definidos, o desfile das escolas de samba ainda divide expectativas entre sambistas. A vacina da covid-19 ainda engatinha mundialmente, e no Brasil ainda não há previsão para abranger toda população do país. Para a realização da festa, meses antes as escolas precisam dos ensaios e dos trabalhos nos barracões. Enquanto alguns preferem enxergar a execução dos desfiles com otimismo, outros adotam cautela, como é o caso de Milton.

"Uma das coisas que eu aprendi com a pandemia é que os planos tem que entrar em compasso de espera. Eu não tenho vontade de fazer festa, de forma insegura. Prefiro celebrar só depois que as variáveis estejam controladas. É melhor não ter pressa, se não for em julho será em setembro, se não for em setembro, será em 2022, e assim segue. O sambista não é um louco, a gente não quer sambar em cima de cadáveres. É preciso respeitar. É um momento difícil do Brasil e do mundo", comentou.

No dia 14 de dezembro, a Liesa definiu a ordem dos desfiles, e escolas de grande tradição, como Mangueira, Salgueiro e Beija-Flor caíram no domingo, o que preocupou os torcedores. Esse receio dos fãs e componentes se dá pelo histórico de escolas vencedoras. Desde 1984, quando os desfiles passaram a ser realizados no Sambódromo, o dia de domingo teve apenas oito campeãs, enquanto a segunda-feira tem 32, o que gera o discurso do 'favorecimento' das agremiações que desfilam no segundo dia.

"Não acredito em nada disso. Nesse ano, quando a Viradouro passou, ela passou dizendo que quem quisesse ganhar, teria que ganhar dela. As escolas tem que acreditar no seu taco, tem que ter a disposição para vir bonita e fazer um bom trabalho. Pouco importa se você é o primeiro ou último. Tem um borogodó que você vai sentindo nos ensaios, no enredo, na bateria, que você para e pensa 'essa aqui vai dar trabalho'. Não se ganha carnaval antes. Se ganha porque teve o tico tica bum", opinou ao 'Dia'.
Milton Cunha posa no estudio do jornal O Dia para a capa da revista Se LIga do jornal Meia Hora. CARNAVAL 2018, RJ, 05 de fevereiro. - Marcio Mercante / Agencia O Dia
Milton Cunha posa no estudio do jornal O Dia para a capa da revista Se LIga do jornal Meia Hora. CARNAVAL 2018, RJ, 05 de fevereiro.Marcio Mercante / Agencia O Dia
Milton Cunha assinou 16 carnavais no Brasil durante a carreira, com passagem por grandes escolas, como Beija-Flor, Unidos da Tijuca, União da Ilha e Viradouro. Teve três terceiros lugares (Beija-Flor 95-96 e Viradouro 2006), como melhores colocações. Após o trabalho na Acadêmicos do Cubango, em 2010, deixou de assinar carnavais no país. No entanto, continua trabalhando como carnavalesco em outras cidades, como Londres-ING e Lausanne-SUI. Desde 2013 comenta os desfiles na 'Rede Globo'.

"Eu fui o injustiçado do século no Carnaval (risos). Aquele desfile do 'Boi voador sobre o Recife: o cordel da galhofa nacional' (São Clemente 2004) não merecia descer. Enquanto outros desfiles mequetrefes ficaram. O 'Agudás', que arrebatou diversos prêmios, só tirou um 10. Eu acho que o meu personagem, assumido demais, artista demais, querendo se divertir demais, atropelou a visão de notas. Mas eu não me arrependo de nada. Fico feliz e orgulhoso da minha trajetória e vivi pra balançar a roseira dessa gente", disse Milton, antes de emendar:

"Quando eu viro, o público grita por mim. E cadê eles, aqueles que me rebaixaram? Eles foram os verdadeiros rebaixados. Foi bom ter feito as loucuras que eu fiz. Os desfiles dependem das assinaturas dos carnavalescos. Não interessa à ninguém a padronização. Só a Rosa pode ser a Rosa, só o Renato pode ser o Renato, só o Paulo pode ser o Paulo... Ninguém quer ver 12 espetáculos iguais. Então eu acho que, daqui a 20 anos, quando revisarem minha obra, vão falar 'Caramba, o cara era bom'. Eu sou velha, mas sou gostosa", encerrou o amadíssimo.

Confira outros trechos da entrevista de Milton Cunha:

Críticas ao enredo do Paraíso do Tuiuti ('Soltando os bichos')
"Não concordo com as críticas ao enredo do Tuiuti, porque é uma pauta de modernidade, de ecossistema, fauna, flora, natureza. Não vai entrar na avenida só pra tratar da beleza e exuberância dos animais. É politicamente corretíssimo e pode dar um desfile lindo, com uma mensagem de preservação, de respeito às espécies. Acho muito legal a ideia"

Gestões de Marcello Crivella e Eduardo Paes para o Carnaval
"É questão de gestão pública. O Rio de Janeiro vende seu ativo de felicidade, de alegria, que é o Carnaval. Além da saúde, educação, indústria, a cidade também tem a identidade da festa. É cultura. A vitória do Eduardo Paes resgata isso. O Crivella não fez nem uma coisa, nem outra. Além de atacar o Carnaval, pioraram os índices básicos da sociedade. Era necessária essa mudança, para trazer esse reconhecimento do carioca de felicidade, de alegria"

Discurso de notas dos jurados por 'peso do pavilhão'
"Esse é o fracasso do júri, não das escolas. O júri insiste em ter essa escala de grandeza. O jurado tem que ter o discernimento de julgar sem levar em consideração o nome da escola. O jurado não pode ter medo, tem que peitar e dizer 'olha, está rica, mas não é bom'. Sempre quando grandes desfiles não voltam nas campeãs, quem fracassa é o júri. A escola acaba dependendo de outros fatores sem ser o desfile. Se for bom tem que dar 10, e se a escola 'grande' for ruim tem que dar 9,5 e ponto"

Nova safra de carnavalescos do carnaval carioca
"Leandro, Marcus, Tarcísio, Gabriel, Leonardo, todos são espetaculares, se prepararam culturalmente pra ocupar o espaço dos mais velhos. Leram, frequentaram, estudaram. Respeitam os valores da narrativa das escolas de samba. Eles tem a visão de que a cultura negra se mantenha negra, de enredos que falem com o coração do povo. Além de serem artistas maravilhosos, tem a inteligência e a sensibilidade de entender que a escola é da comunidade. Eles vem pra oxigenar o Carnaval por mais uns 30 anos"

Veja a ordem dos desfiles do Grupo Especial do Rio e os enredos definidos:
DOMINGO (11/7)
1. Imperatriz ('Meninos eu vivi... Onde canta o sabiá, Onde cantam Dalva & Lamartine')
2. Mangueira ('Agenor, José e Laurindo')
3. Salgueiro ('Resistência')
4. São Clemente ('Ubuntu')
5. Viradouro ('Não há tristeza que possa sustentar tanta alegria')
6. Beija-flor ('Empretecer o pensamento é ouvir a voz da Beija-Flor')

SEGUNDA-FEIRA (12/7)
1. Paraíso do Tuiuti ('Soltando os bichos')
2. Portela ('Igi Osè Baobá')
3. Mocidade ('Batuque ao Caçador')
4. Unidos da Tijuca ('Waraña - A reexistência vermelha')
5. Grande Rio ('Fala, Majeté! Sete chaves de Exu')
6. Vila Isabel ('Canta, canta, minha gente! A Vila é Martinho')