'Se faz muita promessa cuja única intenção é a de enganar o eleitor', aponta especialista

Propor o impossível, dizer que é fácil de resolver... É preciso ficar atento para não ser levado pelas promessas vazias que já começam a aparecer

Por *Felipe Rebouças

Bolsonaro (PSL): negação da História e tese econômica duvidosa
Bolsonaro (PSL): negação da História e tese econômica duvidosa -

Rio - Pode ser diante das câmeras, em cima do palanque, nas redes sociais ou nas proposta do plano de governo. Candidato a cargo público adora promessa e diz o que o eleitor quer ouvir. Muitas vezes, as promessas são feitas por desconhecimento da realidade ou equívoco. Mas, na maior parte das vezes, são apenas engodo, palavras vazias que serão esquecidas após a posse no cargo. “Se faz muita promessa cuja única intenção é a de enganar o eleitor”, diz Saturnino Braga, veteraníssimo em campanhas eleitorais.

A temporada de propostas impossíveis para seduzir o eleitor já foi aberta. E é preciso estar atento para não embarcar em propostas que não têm a menor possibilidade de se concretizar, como a de conseguir vagas em creches particulares para cobrir o déficit nas unidades públicas. Ou as que prometem soluções fáceis, como a de derrotar a corrupção “por decreto”.

Sem falar das que são feitas sem levar em consideração a realidade, como a de zerar o déficit público no primeiro ano de governo ou a de negociar com o Congresso tendo por base apenas programas de interesse público. Todas essas já foram feitas nos últimos dias e são analisadas ao lado para que o leitor fique atento aos modelos mais clássicos de ‘lorota eleitoral’.

“O eleitor precisa ver quem é o candidato capaz de atacar toda a estrutura da gestão, ao invés de focar em promessas específicas, propostas de pouca importância que, no final, só servem mesmo para angariar votos”, diz Bruno Sobral, especialista em gestão pública e em Economia fluminense. Na próxima sexta-feira, começam os programas na televisão e no rádio. É hora de redobrar a atenção. 

ANÁLISE DAS PROPOSTAS

"Isentar o Imposto de Renda de todos aqueles que ganham até cinco salários mínimos” PLANO DE GOVERNO - PT

Boa boa vontade não basta

A proposta é positiva. A tabela do IR tem defasagem de 88,4% desde 1996, segundo o Sindifisco. Porém, 18 milhões dos 28 milhões de declarantes ficariam isentos - baque impensável para um governo que vai lidar com um déficit previsto em R$ 139 bi no primeiro ano. Gil Castello Branco, da ONG Contas Abertas, lembra que “em 13 anos de governo, com maioria no Congresso, o PT não levou a proposta à frente”.

"Oferecer a todas as famílias com Bolsa Família o direito de colocar seus filhos em creches particulares” - Henrique Meirelles (MDB)

Tem vaga para todo mundo?

Apenas 22,5% das crianças brasileiras de zero a três anos estão em creches. Faltam vagas para cerca de 7 milhões de meninos e meninas. Não há rede privada que dê conta. “E seria a instituição definitiva da barbárie”, avalia a professora de Educação da Uerj Inês Barbosa de Oliveira. Segundo a especialista, “ampliar o ‘direito’ de mandar as crianças para a creche privada se trata, na verdade, de tirar a responsabilidade do Estado de fornecer vagas em creches públicas”. Inês lembra que o Bolsa Família é interligado à questão da frequência escolar. 

"Aqui no Brasil não existe isso de racismo” - Jair Bolsonaro (PSL) 

Negação da História

A professora de História da Universidade Federal da Bahia Wlamyra Albuquerque diz que “além de ser uma demonstração de ignorância sobre a estrutura social e a História do país, a frase revela descompromisso com o combate a violência”. A autora do clássico ‘Historia do Negro no Brasil’ lembra que “no Congresso Nacional, nos ministérios, nos álbuns dos cursos de Medicina e nas reuniões de magistrados, os negros são exceções”. Para ela, ‘quem nega a existência do racismo, nega o desejo de igualdade no país”.

"O déficit público primário precisa ser eliminado já no 1º ano e convertido em superávit no 2º ano”- Jair Bolsonaro (PSL) 

Se fosse fácil...

“Absolutamente inviável fazer essa transformação em apenas dois anos”, assegura Gil Castello Branco, do Contas Abertas. Uma nota técnica das consultorias de Orçamento da Câmara e do Senado, previu, em junho, que, além dos R$ 139 bilhões de 2019, o próximo presidente vai lidar com déficit de R$ 110 bi em 2020 e R$ 70 bi em 2021. “O presidente não tem condições de reequilibrar as contas públicas com uma bala de prata”, diz Castello Branco. Sobretudo porque o orçamento brasileiro tem margem estreita de manobra e o Congresso prefere criar despesa do que cortar.

"Buscaremos diálogo com o Legislativo, a partir de um programa de interesse público, com transparência” - Marina Silva (Rede)

Marina Silva: sonhática - Marcello Casal jr/Agência Brasil

Pura ilusão

No papel, perfeito. Mas o próximo presidente vai lidar com um Congresso bem parecido com o atual, que pauta suas negociações pelo interesse em cargos e liberações de emendas. Senso de realidade, nessa hora, cai bem. O ex-senador Saturnino Braga considera a intenção de Marina “nobre, mas de árdua execução”. “É preciso ter noção de que o Congresso é um ambiente extremamente complexo, difícil de lidar”.

"O Estado do Rio tem dinheiro sobrando” - Pedro Fernandes (PDT) 

Conta maluca

Desprezar a matemática não é novidade no debate político. “Achar que vai apertar e vai tirar leite de pedra, fazendo dinheiro surgir, é uma presunção, e das maiores”, avalia Pedro Sobral, professor da Faculdade de Ciências Econômicas da Uerj. Na opinião do especialista, o projeto de austeridade na gestão que o candidato abraça prevê cortes na despesa, inclusive com o funcionalismo público, mas não indica como a receita pode aumentar. “Hoje, no Rio, muitos setores essenciais à população estão sucateados. Não haverá no curto prazo geração de renda para ter receita capaz de fomentar grandes avanços nas estruturas funcionais do estado”, explica.

"Eu vou decretar o fim da roubalheira no Estado do Rio” -  Wilson Witzel (PSC)

Na base dacanetada

Os políticos adoram prometer que podem resolver os problemas na base da “vontade política”. Saturnino Braga entende que a declaração de Witzel é “fantasiosa” e “sem valor nenhum”. O ex-senador lembra que nenhum candidato tem o poder de agir sozinho, através de um decreto, sobre a vontade dos muitos corruptos e corruptores que gravitam os poderes do estado. “Se não houver mudança política, no funcionalismo e na investigação, a corrupção se mantém”, diz.

"Vou tirar 63 milhões de brasileiros do SPC" - Ciro Gomes 

Ciro Gomes (PDT): autor da promessa que mais deu o que falar na atual campanha - Marcello Casal Jr./ABr

Proposta parece impossível, mas é baseada em feirões que o SPC já realiza 

A promessa que mais deu o que falar na campanha presidencial até agora foi feita pelo candidato Ciro Gomes (PDT): “Eu vou tirar seu nome do SPC”. Já virou até samba, em paródia de ‘SPC’, sucesso de Zeca Pagodinho nos anos 1980.

No entanto, a proposta do candidato é, com ajustes, factível, segundo especialistas. “Trata-se de entender o volume da dívida que humilha 63 milhões de pessoas”, defendeu Ciro. A base da proposta é um amplo programa de refinanciamento das dívidas.

O primeiro passo seria aplicar descontos nos juros e reduzir o valor médio dos débitos – hoje, em torno de R$ 4,2 mil – para algo próximo de R$ 1,4 mil. E depois parcelar esse valor em suaves prestações. Os recursos para financiar essas operações viriam de um afrouxamento no compulsório – a parte dos depósitos bancários que as instituições são obrigadas a recolher ao Banco Central.

Os executores do plano seriam o Banco do Brasil e a Caixa. O candidato espera que as instituições privadas também possam aderir. O economista Mauro Benevides, ligado à campanha de Ciro, lembrou, em entrevista à GloboNews, que o SPC costuma realizar feirões de renegociação de dívidas. “Ele (o consumidor) sai de uma dívida de cartão de crédito de 400% ao ano e vem para uma operação de crédito. (...) Em vez de ser 400% de taxa de juros, vai ser de, por exemplo, 10 ou 12% ao ano”. Benevides acredita que isso possa liberar R$ 70 bilhões para serem injetados na economia. Claro que há dificuldades, como um eventual impacto na lucratividade dos bancos públicos ao arcar com os custos iniciais da proposta, ou um excesso de liquidez, de caráter inflacionário, com a redução dos compulsórios, mas não é uma proposta que possa ser colocada numa lista de promessas impossíveis.

Debates no fim de setembro

Os principais debates televisivos entre os presidenciáveis, nos quais surgem as promessas mais retumbantes  as campanhas, só vão acontecer no final de setembro, quando já poderá estar definida a substituição de Lula (PT) por seu vice, Fernando Haddad - caso se confirme a perspectiva de que a candidatura do petista seja impugnada, com base na Ficha Limpa.

Em 20 de setembro, a TV Aparecida, católica, é a anfitriã de um debate. A presença de Jair Bolsonaro (PSL) é uma incógnita.

No dia 26, começa a temporada dos grandes encontros, com o debate do SBT. No dia 30, é a vez da TV Record. E em 4 de outubro, três dias antes do primeiro turno, o embate é na TV Globo.

*Estagiário sob supervisão de Dirley Fernandes 

Galeria de Fotos

Bolsonaro (PSL): negação da História e tese econômica duvidosa AFP PHOTO / Nelson ALMEIDA
Marina Silva Marcello Casal jr/Agência Brasil
Pedro Fernandes: verba ilimitada Reprodução / Band
Pedro Fernandes Divulgação
Witzel: decreto mágico Severino Silva
Ciro Gomes (PDT) Marcello Casal Jr./ABr

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