Quase 10% dos rodoviários fazem tratamento contínuo de doenças laborais

Especialistas dizem que categoria é submetida a uma dura rotina de violência, equipamentos de trabalho inadequados e o medo da covid-19

Por Irma Lasmar

Problemas articulares, na coluna, joelho e a síndrome miofascial são os problemas mais comuns
Problemas articulares, na coluna, joelho e a síndrome miofascial são os problemas mais comuns -
Niterói - Pelo menos 1.290 rodoviários e familiares recebem tratamento contínuo atualmente no Departamento Médico do Sindicato dos Rodoviários de Niterói a Arraial do Cabo (Sintronac). Deste total, 903 (70%) são motoristas de ônibus e 500 (38,76%) estão afastados de suas funções e sem previsão de volta. Os especialistas em Medicina do Trabalho da entidade são unânimes em apontar o estresse no exercício da função como a origem de doenças graves que levaram os profissionais a procurarem as especialidades de Cardiologia, Neurologia, Neuropsiquiatria, Psicologia, Fisioterapia e Nutrição. 
Esse número representa 9,9% do total de 13 mil rodoviários do eixo de treze municípios que compõem a base do Sintronac e 25,8% dos 5 mil profissionais sindicalizados. A média anual de atendimento médico no sindicato é 35 mil pessoas, entre titulares (70%) e dependentes. Quase 40% dos pacientes são sintomáticos em psicopatologias. 
Os médicos do Sintronac concordam que os rodoviários estão sendo submetidos a uma rotina de trabalho dura e são extremamente frágeis a fatores externos, como a violência, o caos urbano, ameaças de passageiros, equipamentos de trabalho inadequados, dupla função (com motoristas atuando como cobradores), desemprego e, mais recentemente, o medo da contaminação pelo novo coronavírus.
“Temos 70% dos casos relacionados à hipertensão arterial. Os demais são complicações como arritmia cardíaca, cardiopatia estrutural, diabetes, colesterol alto e doenças vasculares periféricas, como na carótida e nos membros inferiores. A origem desses males são as condições de trabalhado envolvendo violência, a insegurança no emprego e, agora, a pandemia. Seria fundamental que as empresas permitissem a seus profissionais ao menos uma revisão cardiológica por ano, pois a ampla maioria, pela carga horária de trabalho, não consegue fazer isso. Só nos procuram para iniciar um tratamento quando passam mal”, afirma o cardiologista e médico intensivista Jaime Dela Rosa, que há um ano atua no sindicato.
O Sintronac classifica como tratamento contínuo quando o paciente faz consultas semanais por mais de três meses. As áreas de Neurologia e Neuropsiquiatria têm 500 pessoas em tratamento contínuo; a Fisioterapia, 450; a Cardiologia, 130; a Psicologia, 80; e 130 têm auxílio de nutricionistas.

“Problemas articulares, na coluna, joelho e a síndrome miofascial (dores em partes do corpo aparentemente não relacionadas por pressão sobre pontos sensíveis dos músculos) são os mais comuns entre os rodoviários. Isso tudo é resultado de um profissional que passa várias horas na mesma postura, com carga horária excessiva e submetido a grande tensão. Temos usado a acupuntura com sucesso para aliviar o estresse”, diz Rodrigo Grandelli, fisioterapeuta e professor de Fisioterapia, que trabalha há 15 anos no Sintronac.
Há casos em que os motoristas de ônibus sofrem com várias doenças e precisam de tratamento multidisciplinar. Antônio Rodrigues Santana, de 51 anos, rodoviário há 21, tem hérnia de disco, hipertensão arterial e síndrome do pânico. Todas foram controladas com tratamentos no Departamento Médico do sindicato nas áreas de Fisioterapia, Cardiologia, Neurologia e Neuropsiquiatria.
“Já vi de tudo dirigindo ônibus. Sofri assaltos, fui sequestrado com o coletivo, vi gente ser assassinada na minha frente, fui agredido e ainda tenho que trabalhar muito, para sustentar a família, agora em dupla função, também como cobrador. Essa carga de estresse vai se acumulando e, chega uma hora que arrebenta com a mente e o corpo. Hoje estou bem, com minhas doenças sob controle, mas sei que são para a vida toda e vou precisar sempre de ajuda médica. Não temos como pagar planos de saúde, que estão caros demais, e o sistema público é deficiente. Por isso conto com o sindicato”, assegura ele.
De acordo com o ortopedista Jorge Alves, há 15 anos no Sintronac, as condições de trabalho inadequadas e a má conservação das vias nas cidades também são fatores que contribuem para o agravamento das condições de saúde dos rodoviários. “O motorista fica horas na mesma posição, sentado em um banco em geral inadequado, sem amortecedor, sacudindo e levando trancos em buracos nas ruas. Isso acaba com a coluna, as articulações e, em geral, a hérnia de disco é uma consequência dessas condições de trabalho”, avalia o especialista.
Para melhorar essas condições de trabalho dos rodoviários, o Sintronac reuniu pareceres de um grupo de especialistas médicos, que aponta, inclusive, a dupla função como um agravante desse quadro dramático de saúde coletiva da categoria. O documento foi encaminhado para o Ministério Público do Trabalho (MPT), propondo ao órgão uma ação na Justiça para evitar essa prática. Ao mesmo tempo, cobra do poder público e das empresas o aprimoramento da frota e melhorias na área de Segurança Pública.
“Há dois caminhos a serem seguidos em relação à dupla função: ou se inclui nos contratos de concessão das linhas de ônibus a volta dos cobradores, ou se adota um sistema de pagamento unicamente através de meio eletrônico, inclusive com o uso de cartões bancários de débito e crédito, acabando assim a circulação de dinheiro em espécie nos coletivos, o que também diminuiria a incidência de assaltos. Acredito que a solução tecnológica seja a mais viável a curto prazo. Também é necessária a adoção do câmbio automático em toda a frota, o que também aliviaria muito o desgaste físico dos motoristas”, propõe o presidente do Sintronac, Rubens dos Santos Oliveira.

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Problemas articulares, na coluna, joelho e a síndrome miofascial são os problemas mais comuns Divulgação / João Messias Xavier
'Seria fundamental que as empresas permitissem a seus profissionais ao menos uma revisão cardiológica por ano, pois a ampla maioria, pela carga horária de trabalho, só nos procura para iniciar um tratamento quando passa mal' - Jaime Dela Rosa, cardiologista Divulgação / José Messias Xavier
De acordo com o ortopedista Jorge Alves, as condições de trabalho inadequadas e a má conservação das vias nas cidades também são fatores que contribuem para o agravamento das condições de saúde dos rodoviários Divulgação / José Messias Xavier

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