Rio - A manifestação de quinta-feira no Rio, que uniu as principais centrais sindicais, mostrou que antigas lideranças organizadas estão perdendo espaço para grupos sem representatividade oficial, mas com maior capacidade de mobilização popular.
Enquanto no dia 20 de junho a passeata convocada por estudantes do Fórum de Lutas Contra o Aumento das Passagens reuniu multidão estimada em 1 milhão de pessoas, a da semana passada, puxada pelas centrais sindicais, juntou pouco mais de 20 mil militantes, segundo a PM. Uma novidade no cenário político nacional.
Darby Igayara, presidente da CUT no Rio, diz que a intenção, no caso dos sindicatos, não foi competir em números com outras passeatas, mas reconhece que os quadros dessas entidades precisam de renovação urgente. “A pulverização dos sindicatos causa desunião das classes trabalhadoras. Hoje, há categorias com dez sindicatos diferentes”, analisa Igayara, apontando a reforma sindical como opção para atrair “sangue novo”, principalmente em termos de liderança. “A reforma acabaria com sindicatos de fachadas, que só existem no papel”, justifica.
Para Nilson Duarte Costa, presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT), o fato de o Brasil estar sendo administrado há 12 anos por trabalhadores fez com que a juventude, que antes se adiantava em conduzir os movimentos sociais, relaxasse.
“Acharam que Lula e Dilma seriam os salvadores da pátria e ‘jogaram a toalha’. Nossas reivindicações, porém, nunca foram atendidas. Nós, os coroas, estamos ainda à frente apenas para não deixar a peteca cair”, comenta Costa, apontando a criação de cursos de formação sindical como uma das saídas para se atrair novos militantes.
De forma inusitada, segundo Joacir Pedro, líder da Federação Única dos Petroleiros (FUP), os mais velhos estão reaprendendo a ir para as ruas. “Mas organização e pautas nunca podem faltar. Senão vira anarquia”, observa.
De volta às ruas 30 anos depois de manifestações
João Carlos Gonçalves, secretário geral da Força Sindical, que representa 17 milhões de assalariados no país, reconhece que os esforços para a renovação de lideranças têm sido em vão. Juruna, como é conhecido, diz que a forma de luta classista organizada hoje não atrai a juventude.
“Esse modelo de conduta sindical atual é retrógrado, muito conservador. É primordial que avancemos na comunicação, utilizando cada vez mais as redes sociais na internet. Além disso é preciso criar uma política direcionada aos jovens, promovendo atividades nas áreas de esporte, educação, saúde e lazer”, opina Juruna.
Na quinta-feira, antigos manifestantes se encontraram na Avenida Rio Branco. “Fiquei surpresa. Achava que iria encontrar mais jovens aqui (na passeata), mas acabei revendo velhos companheiros de luta. Parece um desfile de escola de samba, mas valeu”, afirmou a funcionária pública Inez Rezende, de 54 anos, revelando que há mais de 30 anos não participava de manifestações.
O eletricitário aposentado Mário Sérgio Conceição, 66, contou que a última passeata em que esteve presente foi em 1984, pelas Diretas Já. “Três décadas depois estou revivendo meus tempos de cara-pintada”, disse Mário Sérgio.
‘O PT desmobilizou a militância’
Um dos nomes mais respeitados do PT na década de 1990, o jornalista Milton Temer, hoje no Psol, aponta o governo como responsável pela mudança da mentalidade política na população neste século.
“A guinada ideológica do PT desmobilizou a militância. Partidos como Psol, PSTU e PCB nunca deixaram seus ideais, mas aí entra a grande mídia, que só abre espaço para o PT ou para o PSDB. Fica difícil informar a população assim”, critica Temer.
O jornalista não concorda que as manifestações do mês passado, que chegaram a reunir 1 milhão de pessoas no Rio, tenham tomado tal proporção somente através das convocações feitas pelos estudantes universitários. “Eram grupos com o apoio, mesmo minoritário, dos partidos. Mas a repressão brutal que eles sofreram em São Paulo despertou uma indignação nacional”, analisou.
Cyro Garcia aposta na criação de uma nova correlação de forças
Líder sindical desde o fim dos anos 1970, integrante da executiva nacional da CUT em três gestões na década seguinte, quando ajudou a coordenar três greves gerais, o advogado Cyro Garcia considerou vitoriosa a passeata que levou 20 mil pessoas à Avenida Rio Branco.
“Conseguimos tirar uma pauta comum entre vários sindicatos e mobilizamos trabalhadores em todas as capitais, no mesmo dia. Isso não é pouca coisa. Não levamos 1 milhão de pessoas porque houve uma retração natural das manifestações após algumas conquistas, como a redução do preço das passagens e o arquivamento da PEC 37”, avaliou Cyro, hoje secretário-geral da Central Sindical e Popular Conlutas e presidente regional do PSTU.
Cyro acredita que as últimas manifestações mudarão o processo político brasileiro, criando uma nova correlação de forças entre os governos e a classe trabalhadora. “Até maio, o trabalhador só apanhava. Continuamos apanhando, mas agora também batemos. E as centrais sindicais hoje governistas, que não entenderem isso, vão perder o bonde da história”, diz.




