Mãe que perdeu filha em acidente de helicóptero será abençoada pelo Papa

Mariana, de 20 anos, namorava um dos filhos do governador Sérgio Cabral. Marcia Noleto criou o grupo Mães Sem Nome

Por cadu.bruno

Rio - Mãe de Mariana, de 20 anos, a secretária do cônsul-geral da França, Marcia Noleto, quase viu seu mundo ruir ao saber da morte da filha em 2011, vítima de um acidente de helicóptero em Trancoso, na Bahia. À época, a jovem namorava um dos filhos do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, e até hoje muitas perguntas estão sem respostas sobre as circunstâncias da morte.

Para amenizar a dor da perda, Márcia Noleto, que tem outro filho, resolveu criar o grupo Mães Sem Nome. Nesta sexta-feira, 83 integrantes desse grupo serão abençoadas pelo papa Francisco em Copacabana. Em entrevista ao IG, Márcia fala da importância desta bênção para as mães que perderam seus filhos e dos seus objetivos com o grupo:

“Quero que, quando uma mãe sofra a perda de um filho, alguém diga que tem um grupo de mães que faz um trabalho de acolhida e que existe um espaço para compartilhar a dor e trocar informações e experiências”.

iG: Qual a importância da bênção do papa Francisco para as 83 mães que integram o grupo?

Marcia Noleto: O Papa traz uma palavra de esperança aos corações sofredores. Nós sofremos de saudade, sofremos com a ausência dos nossos filhos, sofremos com a impunidade, com o descaso, com os processos que duram anos e anos sem solução. Sabemos que vamos sofrer dessas dores até o último dia de nossas vidas. O Papa Francisco, com seu carisma e generosidade, renovará a nossa fé. Muitas mães, ao passarem por grandes tragédias, perdem a vontade de viver e brigam com deus. Estar perto do papa é poder resgatar o conceito da vida eterna.

iG: E para o grupo “Mães Sem Nome”?

Marcia: Tenho trabalhado muito para que o “Mães Sem Nome” seja uma referência como é o Alcoólicos Anônimos. Quero que, quando uma mãe sofra a perda de um filho, alguém diga que tem um grupo de mães que faz um trabalho de acolhida e que existe um espaço para compartilhar a dor e trocar informações e experiências. Juntas, sofremos muito menos. Esse é o princípio da caridade. Já dizia São Francisco de Assis que é dando que se recebe. Quando abraço uma mãe que sofre, recebo de volta uma energia inigualável. É a energia do amor fraterno.

iG: Qual é o maior objetivo do grupo?

Marcia: O maior objetivo do grupo é ser um espaço neutro, onde as pessoas nem precisam se identificar, se for o caso. Ali a mãe pode repetir milhões de vezes o que sente sem ser recriminada por isso. Ao contrário, na página, o que ela diz, é compreendido na mesma sintonia por todas as outras mães. Com o tempo, as pessoas dos nossos círculos de amizade se afastam porque não querem mais ouvir a mãe se lamentando. No “Mães Sem Nome” isso não acontece.

iG: Como ele sobrevive?

Marcia: O grupo não tem nenhuma verba. Todos os eventos são patrocinados pelas mães. Gostaríamos muito de ter uma casa para fazer uma sede.

iG: O que mudou dentro de você após receber o telefonema sobre a notícia do acidente com sua filha?

Marcia: Tudo mudou, tudo. Eu morri naquele dia. Fiquei morta por um bom tempo. Mergulhei em um processo de busca espiritual. Li livros de todas as crenças. Indaguei milhões de vezes sobre a existência de deus. Revi todos os meus conceitos. Descobri o quanto era egoísta.

Para quanta coisa se dá importância inutilmente! Quantas brigas podem ser evitadas? Quantas coisas podemos evitar de comprar? Quantas coisas podemos doar? Quantos gestos de carinho podem ou deixam de ser expressados? Quanto tempo perdemos com pequenas preocupações? O mundo está gritando por mudanças. O mundo inteiro precisa rever os seus conceitos. O mundo está muito doente. Quanta guerra, quanto conflito, quanta violência, quanta corrupção, quanta injustiça...

iG: Em algum momento você se revoltou?

Marcia: Sim, inúmeras vezes. Isso é muito normal no nosso caso. Só o tempo ajuda. Ficamos esperando que o inesperado do bem volte acontecer em nossas vidas.

Dizem que só as mães são felizes e se culpam todo o tempo. Em algum momento você se culpou por ter deixado sua filha fazer o passeio?

Marcia: Várias vezes me culpei por ter deixado ela fazer aquela viagem. Mas hoje acredito em destino e busco exercitar a “aceitação”. Busco humildemente entender que não cabe a mim, mesmo sendo mãe, traçar o destino da minha filha. Ela tinha a sua história. Não controlamos nada, por mais que pensemos que podemos protegê-los e salvá-los dos sofrimentos da vida, o caminho é individual.

iG: Você tem outro filho. Acha que é possível ser feliz mesmo com essa enorme perda?

Acho que aprenderei a viver com a tristeza que eu carrego e carregarei para a vida inteira. E que terei alguns momentos de alegria. O importante é não deixar a tristeza se instalar. Isso serve para todo ser humano. Temos sempre os dois lados da moeda: a alegria e a tristeza, o bem e o mal, a esperança e a descrença.... Nossas escolhas podem mudar nossas vidas. E o livre arbítrio.

Mas hoje eu sei que a felicidade passa pela simplicidade, pelo convívio com a família, pelo amor que tenho no coração e que posso distribuir para as pessoas que estão ao meu redor. A estrada da vida é longa pois é eterna, mas o nosso tempo aqui é curto. Passa muito rápido. Em breve descobrirei o grande mistério. Por isso tenho que viver o que me resta na Terra com dignidade, aceitação e saboreando delicadamente cada segundo como se fosse o último.

Reportagem de Waleria de Carvalho

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