Caso Amarildo: 400 exames em busca de vestígios

Material colhido em cadáveres, locais por onde o pedreiro teria passado e veículos de acusados fazem parte da análise. Mas até o momento, nada foi encontrado

Por O Dia

Rio - Quase 400 exames e perícias já foram feitos pela Polícia Civil em busca de vestígios de Amarildo de Souza, de 47 anos, que desapareceu em 14 de julho após ser torturado e morto por policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Rocinha. Materiais colhidos em corpos não identificados, locais por onde o pedreiro teria passado e veículos de acusados e até do Batalhão de Operações Especiais (Bope) fazem parte da análise: porém, até o momento, nada foi encontrado.

Conforme O DIA mostrou nesta sexta-feira com exclusividade, quatro viaturas da tropa de elite da PM foram submetidas ao exame de luminol — substância que identifica sangue — por peritos do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE). O Ministério Público (MP) investiga se o corpo saiu da comunidade num veículo do Bope.

Corpo do pedreiro teria sido levado para mata após tortura ocorrida atrás de contêiner da UPP da RocinhaAlessandro Costa / Agência O Dia

Dos 25 PMs da UPP que são acusados de participação no crime, 13 estão presos. Pelas contas dos investigadores, especialistas do Instituto de Pesquisa Perícias Genética Forense (IPPGF) analisaram 90 amostras diferentes. A viatura oficial que servia ao major Edson Santos, ex-comandante da UPP e um dos presos, também foi submetida a exame. 

Para garantir a confiança no exame é feita prova e contraprova. Quando os resultados deram negativos ou inconclusivos, as análises foram refeitas. Como é o caso das viaturas do Bope. Na primeira avaliação, peritos do instituto — que funciona como laboratório de DNA da Polícia Civil — não encontraram vestígios biológicos de Amarildo. Porém, o trabalho de análise do material colhido nos veículos continua sendo feito.

Autorizadas pela Justiça, gravações telefônicas entre acusados que mencionavam a ida do Bope à Rocinha também são analisadas pelo MP. O grupo foi à favela porque o major Edson alegou que haveria um ataque à UPP. “Não descartamos nada na investigação”, afirmou a promotora Carmem Eliza Bastos, do Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco) do MP.

A mulher e os filhos de Amarildo no último Dia dos Pais%2C na Rocinha%3A parentes já cederam material genéticoAlessandro Costa / Agência O Dia

Tortura para saber onde ficava paiol

Amarildo foi capturado e torturado até a morte para dizer onde ficava o paiol do tráfico da Rocinha. Um dia antes, agentes da 15ª DP (Gávea) realizaram na favela a Operação Paz Armada. O pedreiro chegou a ser apontado nessa ação como traficante, mas a Divisão de Homicídios provou a inocência do pedreiro.

A sessão de espancamento aconteceu atrás do contêiner do comando da UPP. Ali, ele apanhou, recebeu choques e foi afogado num balde sem dizer o que os PMs queriam. Epilético, não resistiu. O corpo dele foi enrolado na capa de uma moto e retirado da favela por uma mata, segundo as investigações.

Policial do Bope presta depoimento

O comandante do grupo de 20 PMs do Bope que foi à Rocinha no dia da morte de Amarildo já prestou depoimento na 8ª Delegacia de Polícia Judiciária Militar (DPJM). Segundo o militar, a tropa chegou na comunidade às 23h e se apresentou ao tenente Luiz Felipe de Medeiros, subcomandante da UPP, que está preso. O grupo só teria deixado a Rocinha às 2h30.

Segundo ele, Medeiros deu ordens para que os 20 policiais vasculhassem as ruas 1 e 2, além da Estrada da Gávea. Ainda de acordo com ele, o contato com o major Edson foi feito por telefone. A Divisão de Homicídios tem imagens de viatura do batalhão, por volta de meia-noite, na sede da UPP. O oficial afirmou que a ordem chegou ao batalhão pelo coronel Erir Costa Filho, então comandante da PM.

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