Rio - Palavras como ‘try’, ‘side step’, ‘ruck’ e ‘line out’ nunca fizeram parte do vocabulário do pequeno Thiago Alves, de 13 anos. Morador da Rocinha, o garoto sequer conhecia o nome do esporte, que, em 2016, no Rio, voltará a fazer parte dos Jogos Olímpicos. No entanto, com a evolução de projetos sociais que tentam popularizar o rugby na Cidade Maravilhosa, a prática de origem inglesa começa a subir, cada vez mais, as comunidades carentes e chegou até Thiago.
Inaugurado há pouco mais de um mês, o segundo polo da escolinha gratuita ‘Rugby é Nossa Paixão’ na Rocinha, em São Conrado, já conta com mais de cem crianças. A garotada está íntima com o os termos do jogo de roupagem gringa. Além de atividades na quadra da escola de samba da comunidade, as aulas agora ocorrem no Complexo Esportivo da Rocinha. Já o grupo integrado pelos paulistas do “Rugby para Todos” oferece treinos nas praias de Ipanema, Copacabana, Leblon e na Chácara do Céu, ao lado do Vidigal.
“Meu professor de futsal que me avisou da nova aula e me convidou para conhecer. Nestas semanas que tenho vindo, o futebol tem perdido de goleada e o rugby passou a ser minha nova paixão. Já até acompanho os jogos na televisão”, conta Thiago, que se transformou em um divulgador do esporte na Dionéia, localidade da favela. “Já trouxe uns três amigos para as aulas desde que comecei”.
VALORES
Para o professor voluntário Michael Cavalcante, 23, que também é gerente do projeto, o rugby pode não só apresentar um futuro a estas crianças e adolescentes como ensiná-los algo que irão levarpara a vida inteira.
“A gente não quer parar por aqui e quem sabe podemos estar em todas as comunidades. O rugby traz na base valores da comunidade como responsabilidade, disciplina, companheirismo, respeito. Isso que queremos que eles aprendam”, explica Michael.
Um exemplo de força de vontade
O projeto de iniciativa do clube Rio Rugby também conta com núcleos na Praia de Ipanema, onde atende moradores do Cantagalo, em Realengo, na Praça do Canhão, e na Ilha do Fundão. Hoje em dia, as aulas são mantidas com apoio da Embaixada da Nova Zelândia.
Exemplo de que a iniciativa pode dar certo, Marcos Miliano, 21, o “Careca”, é exemplo de um sonho que vem se tornando realidade. Morador do Cantagalo, há dez anos começou a praticar as aulas na orla da Zona Sul. Hoje, além de ser um dos professores da Rocinha, é considerado o melhor jogador do Estado. “Quem sabe as crianças de hoje não podem virar grandes jogadores. É um esporte diferente e uma chance para todos”.
Mas Careca avisa: “Tem que ter vontade, pois a maioria do Cantagalo que começou comigo parou. Eu continuo perseguindo meu sonho”.
Agressividade das crianças diminuiu
Foi de olho na popularização do esporte com a participação nas Olimpíadas do Rio que o “Rugby para Todos”, fundado há dez anos em São Paulo, aterrissou nas areias cariocas. Só em Ipanema, são cerca de 150 crianças atendidas em parceria com o “Rugby é Nossa Paixão”.
“Percebemos que aos poucos vamos diminuindo a agressividade das crianças que nos procuram. Apesar de ser um esporte de contato, eles aprendem a respeitar o outro”, conta Raphael Yuri Vianna, professor de Ipanema. As aulas ainda contam com acompanhamento psicológico e, em breve, nutricional. “Eles também ganham lanches. É mais do que ensinar o esporte”, diz Raphael.




