Por thiago.antunes

Rio - Vivo fosse, o jurista Heráclito Fontoura Sobral Pinto certamente levantaria sua indignação cidadã contra o que estão fazendo com a Rua da Carioca. E não seria a primeira vez. No início dos anos 1960, quando o governador Carlos Lacerda cogitou macular o casario tradicional em sua cruzada modernizante no Centro Antigo, foi Sobral Pinto que tratou da defesa dos comerciantes. E sem cobrar honorários.

Os casarões foram preservados e, em agradecimento, os lojistas batizaram um cantinho na confluência do Largo com a Rua da Carioca como Esquina Dr. Sobral Pinto. Dr. Sobral, Deus o tenha, sua esquina está em petição de miséria. Se sua elegância franzina passasse por ali veria que a homenagem virou infortúnio. Paredes mofadas e pichadas, o esgoto fluindo a céu aberto, cartazes com anúncios de búzios, cartas, tarô. E essa imerecida desconsideração é só um prenúncio.

A boa e velha Rua da Carioca, símbolo do Rio Antigo que deveria ser um exemplo de preservação, é um endereço em frangalhos. Imagine o senhor que no número 16, na esquina da Ramalho Ortigão, o centenário Bar Flora fechou as portas. Custa crer. “O armazém português do tempo do Império”, como dizia a placa na porta, fundado em 1880, de pé-direito alto, os imponentes balcões de madeira com as sortidas mercadorias, não aguentou o tranco.

A boa e velha Rua da Carioca, símbolo do Rio Antigo que deveria ser um exemplo de preservação, é um endereço em frangalhosAlexandre Medeiros / Agência O Dia

Fosse só isso, já seria uma lástima. Mas do lado esquerdo da rua, um pouco adiante, no 37, foi-se também a centenária A Guitarra de Prata, fundada em 1887. Sim, aquela mesma onde o senhor deve ter cruzado por vezes com o Pixinguinha, o Dilermando Reis, o Baden Powell — e onde este fã certa feita deu de cara com o Paulinho da Viola. Um banco comprou o imóvel, junto com outros 17 da rua.

E banco, o senhor sabe, só pensa naquilo: passou o aluguel de R$ 7 mil para R$ 15 mil. Quem suportaria? Ordem de despejo, Di Giorgios e Gianninis no depósito. Agora atendem pela internet. Mas balcão que é bom, conversa sobre música, o gosto de dedilhar o instrumento, a sorte de esbarrar com um Paulinho, isso é passado.

De maior concentração de casas centenárias ainda de pé no Rio, a Rua da Carioca está virando um cemitério delas. Faixas nas sacadas dão o tom da gravidade do caso: “O Centro Histórico pede licença para continuar.” “Não ao desemprego, nós temos família”. Outros sobrados, como o da Guitarra de Prata, ostentam placas de “Aluga-se”: o 8, o 27, o 43... Na tarde de quarta-feira, um sujeito que comia pastel de banana (R$ 2, na promoção) tinha o ar desolado na pastelaria chinesa que funciona no 11, diante de tantas portas cerradas: “Não tá fácil pra ninguém”.

Não mesmo. Num passado recente, a rua já perdera outras casas centenárias. O Pince-Nez de Ouro (1910), no 28, A Mala Ingleza (1900), no 43. Nem se fala da Casa Tupy, no número 6, esta ressuscitada em forma de Casas Bahia. Mesma sorte não agraciou o antigo Cine Ideal, cujos quatro prédios geminados são uma espécie de mausoléu à nossa indiferença cultural.

Da calçada não se pode aferir o estado da cúpula que se abria para refrescar os frequentadores, ou para brindá-los com noites estreladas. Mas não é difícil imaginar. Como em toda batalha inglória, há alguns focos de resistência. O prefeito Eduardo Paes prometeu desapropriar o Bar Luiz, no 39, coladinho à Guitarra de Prata, para que ele não tenha o mesmo fim do vizinho. E lá no final da rua, o proprietário da livraria O Acadêmico do Rio, no 61, faz até planos para o futuro.

Espera que a prefeitura libere uma verba para a reforma do prédio, onde pretende instalar um café, um lounge e prosseguir com a venda de livros, CDs e DVDs. “Não dá mais para se manter só como livraria, ainda mais lidando com livros antigos. Pouca gente hoje dá valor”, lamenta Carlos Cardiano. Nos tempos do pai dele, as vendas de livros enchiam até três páginas do caderno-caixa por mês. “Hoje, se eu completar meia, solto fogos.” 

Não há motivos para comemorar. No trecho final da Carioca, entre a República do Paraguai e a Silva Jardim, há apenas dois imóveis abertos. No Cine Theatro Íris, por R$ 7 a meia, estão em cartaz os clássicos ‘Tentação ao Extremo,’ ‘Gostosa da Vez’ e ‘Dando Duro no Escritório’. Das caixas de som da rua emanam mensagens bíblicas: “E Jesus disse: ‘Eu vos deixo a paz’”.

Olhando em volta, a paz parece distante nessa rua que já foi do Egito e do Piolho, nasceu nas franjas do Morro de Santo Antônio e hoje padece entre o Largo da Carioca e a Praça Tiradentes. É, Dr. Sobral, se a Rua da Carioca tivesse um advogado do seu porte, talvez tratassem a história do Rio com mais dignidade.

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