Toque de silêncio do tráfico é desafio para militares na Maré

‘Medo será rompido’, diz general sobre ameaças de remanescentes do crime a morador

Por thiago.antunes

Rio - Cuidado, suas atitudes estão sendo monitoradas pelo tráfico. A frase não está exposta em muros ou postes do Complexo da Maré, Zona Norte do Rio, ocupada desde sábado pelas Forças Armadas, mas atormenta o imaginário dos moradores da região. As ameaças estão relacionadas a possíveis diálogos com militares ou profissionais da imprensa.

Soldado entrega envelope a criança%3A presença de tráfico%2C que ainda vigia a região%2C inibe interação de moradores e Forças de PacificaçãoSeverino Silva / Agência O Dia

No boca a boca das vielas, em ambos os lados, casos de pessoas agredidas, expulsões e outros castigos para quem foi flagrado ou apareceu na mídia servem como “aviso”. “Uma mulher teve a perna quebrada, a outra foi espancada e outros foram expulsos. Não quero ser a próxima vítima”, disse uma moradora.

Pelas ruas, a presença da imprensa e dos militares ainda é vista com indiferença por conta da fiscalização constante de olheiros do tráfico. Em motos ou bares, suspeitos acompanham de perto toda a movimentação nas favelas. Mesmo após a entrada dos militares, a divisa entre a Baixa do Sapateiro e a Nova Holanda, que eram dominadas por facções rivais, continua sob tensão.

Ontem, um morador da área do Comando Vermelho, identificado como Carlos Brum dos Reis, foi espancado na Vila Olímpica e jogado no valão ao lado da Linha Vermelha. O Exército precisou intervir, e um militar efetuou disparo. A vítima foi encaminhada para o hospital. Segundo a Secretaria municipal de Saúde, o rapaz, de 22 anos, sofreu traumatismo craniano. Brum foi estabilizado, mas seu estado continua grave.

“O elo de medo e terror será totalmente rompido. É um trabalho progressivo. Sabemos que alguns bandidos já abandonaram a região. Mas ainda há presença de traficantes, apesar de não termos confronto”, garantiu o comandante das Forças de Pacificação da Maré, general Roberto Escoto, durante cerimônia de hasteamento da bandeira do Brasil, na Praça do 18, que simbolizou a ocupação.

Escoto garantiu que todos as áreas da Maré serão patrulhadas 24 horas por dia. Ainda segundo o general, as Forças Armadas irão trabalhar com pontos fortes itinerantes, para surpreender os criminosos, de onde serão lançadas patrulhas. Ontem pela manhã, era possível observar militares em áreas complicadas como na divisa da Baixa do Sapateiro e Nova Holanda, e no Parque Ecológico Municipal da Maré, conhecida como Mata.

>>>GALERIA: Hasteamento da bandeira no Complexo da Maré

“Vamos atualizar essas áreas mais quentes. Mas todas as regiões terão nossa atenção. Temos 2.700 homens e 260 viaturas e agiremos com inteligência. O que o morador precisa entender é que não é possível estar em todos os lugares, explicou o general. “Mas vamos varrer os locais onde as tropas vão estar presentes”, acrescentou ele, após reclamações de moradores sobre a falta de patrulhamento em regiões específicas e circulação de traficantes.

Militares se perfilam em praça da Vila Pinheiro para hasteamento da bandeira%3A gesto simboliza retomada do local por forças de segurançaSeverino Silva / Agência O Dia

O prefeito do Rio, Eduardo Paes, declarou ontem que vai visitar o Complexo da Maré esta semana para conversar com moradores e anunciou que vai construir duas clínicas da família na comunidade. Além de levar o programa Bairro Maravilha para a região. “Vamos cuidar da infraestrutura do complexo e dar atenção especial para a saúde. Temos nove unidades médicas, mas sabemos que algumas delas estão precárias. Precisamos fazer mais duas clínicas. Já temos profissionais, mas as unidades são ruins, velhas e antigas”, disse.

Sobre a visita à Maré, o prefeito disse que estava aguardando a fase de ocupação militar para começar o diálogo. Ele comentou que, apesar da presença do estado no Complexo da Maré, faltava policiamento: “Não se podia mais deixar as pessoas andar com lança-chamas e de fuzil na rua”, argumentou Paes, após reunião com o secretariado. O encontro teve a participação do governador Luiz Fernando Pezão, que ainda não divulgou quando vai visitar o Complexo da Maré.

Chefe do CV: sem paradeiro

A ocupação do Complexo da Maré, há uma semana, não resolveu ainda um dos principais problemas da Secretaria de Segurança Pública em relação ao tráfico da região: Jorge Luiz Moura Barbosa, o Alvarenga, um dos maiores líderes do Comando Vermelho nas comunidades, continua foragido.

Em dezembro, O DIA mostrou que o ‘barão do tráfico’ do conjunto de favelas é praticamente intocável, já que, mesmo com seis mandados de prisão ativos, nunca foi preso. Segundo informações da polícia, ele se dividia entre viagens internacionais, onde apostava alto em cassinos, e o controle da quadrilha do Parque União.

O imóvel de Menor P%2C em Jacarepaguá%3A espaçoso e confortávelDivulgação

Ainda segundo agentes, Alvarenga teria deixado o Rio dias antes da ocupação e seu paradeiro ainda é ignorado. Já o outro líder, Marcelo Santos das Dores, o Menor P, fugiu para vida de luxo num apartamento duconforto em Jacarepaguá, onde foi preso há duas semanas. A Polícia Federal divulgou imagens do imóvel em que o criminoso vivia.

Colaborou Christina Nascimento

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