Por bferreira

Rio - Depois do cancelamento das missas da Semana Santa, o mesmo ocorreu ontem com a tradicional Festa da Misericórdia, marcada para a Catedral Metropolitana do Rio. O evento foi cancelado devido à presença dos ex-ocupantes da Favela da Telerj, acampados no local desde o dia 17. Após apelos do desembargador Siro Darlan, um grupo de desabrigados se reuniu pela manhã com representantes da prefeitura e da Igreja para reivindicar acolhimento no interior da catedral, mas passou a tarde chuvosa ao relento.

Aproximadamente 250 pessoas estão morando em toldos improvisados no estacionamento da Catedral Metropolitana%2C enquanto aguardam permissão para entrar no temploAndré Mourão / Agência O Dia

Através de internet, em rede social, Siro Darlan afirmou que “o pároco estuda a possibilidade de abrigar crianças e mulheres grávidas em algum lugar da igreja”, sem dar previsões de quando isso ocorrerá.
“Na reunião, levantamos a possibilidade de abrigarem as mulheres e crianças dentro da catedral, mas o que precisamos é que o estado nos ajude”, cobrou um dos líderes do assentamento, identificado apenas como Rodrigo, de 34 anos. Ele disse que todos estão vivendo à base de doações dos fiéis e de voluntários.
“O único lugar em que encontramos paz foi na igreja, e Dom Orani garantiu que ninguém nos tirará daqui”, afirmou. E contou que os moradores têm sofrido com a truculência da PM: “Tem muito P2 por aqui querendo nos assustar. Não precisavam nos tirar da Telerj daquele modo, queimaram tudo e mataram gente, sem dar nenhum prazo”.

Entre as cerca de 250 pessoas que vivem no estacionamento do templo, a maioria crianças pequenas que dormem em colchonetes colocados diretamente no chão, a desempregada Silvânia Mendes, de 31 anos e grávida de seis meses, resume a situação geral: “Estou dormindo numa barraca pequena com meus quatro filhos, quando chove molha tudo”.

A prefeitura ofereceu vagas para que os desabrigados fossem levados para um abrigo em Jacarepaguá, mas a ideia foi repudiada pelo grupo. “Todos os moradores de rua e usuários de drogas são levados para este abrigo, isso é perigoso para nossos filhos e mulheres”, lamenta o líder Rodrigo, com esperança de conseguir se abrigar na catedral, ainda que temporariamente.

Enquanto a equipe do DIA fazia a reportagem, a chuva começou a cair e levou preocupação a desabrigados como Angela Maria da Silva, 59. “Moro ali embaixo, naquele barraquinho”, disse, apontando para lonas de plástico sustentadas por ferros do estacionamento. “O chão é muito frio, espero conseguir logo uma casa”, disse Angela.

Universitária entre os desalojados

A tarde está muito fria, mas Pâmela Mila Gonçalves Moreira, de 31 anos, não se importa porque precisa estudar para a prova da faculdade de enfermagem. “Ganhei uma bolsa de 100 % de um vereador, não vou deixar a chance passar”, diz.

Mesmo dividindo uma barraca de camping com o marido e os dois filhos, Rebeca, de 7 anos, e Lucas, de 3, ela encontra tempo para se preparar para as avaliações do 5º período do curso. “É uma ótima oportunidade, tenho uma prova por dia, estou estudando direto”.

Desempregada, ela sonha chegar logo ao 7º período e poder estagiar. “Será uma forma de conseguir me manter”, planeja. Antes, ela morava com a família em um quartinho em Manguinhos. Para ajudar na renda, foi com o marido vender salgados na favela da Telerj. “Vi que podia ser a chance de termos nossa casa.”

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