Por bianca.lobianco

Rio - Domingo, Vaticano: 1,5 milhão de pessoas lotam a Praça São Pedro e as ruas de Roma em celebração à canonização dos papas João XXIII e João Paulo II. Segunda-feira, Rio de Janeiro: admiradores do Pontífice carinhosamente chamado de João de Deus pelos cariocas fazem uma romaria às lojas de artigos religiosos. Cartões-postais, pôsteres, miniaturas, e até medalhinhas com a imagem do novo santo, que visitou três vezes a Cidade Maravilhosa, ganham mais espaço nas estantes.

Muito popular por aqui, o Santo Padre polonês João Paulo II atraiu milhares de fiéis para o Aterro do Flamengo e o Estádio do Maracanã nas vindas ao Rio de Janeiro. “Escrevi cartas para o Papa João Paulo II e acompanhei a vida dele no pontificado. A santificação dos dois papas foi justa, não só pelos trabalhos dentro da Igreja, mas por que eles pregaram a bondade pelo mundo”, disse a professora Maria da Conceição Lopes, 73 anos, que comprava ontem pôsteres dos novos santos, na Livraria Paulinas, no Centro do Rio, sem esconder uma simpatia maior por aquele que ficou consagrado por aqui como João Deus.

A professora Maria da Conceição Lopes acompanhou as visitas do Papa João Paulo II ao Rio%3A com a canonização%2C ela quis comprar um pôster dos dois novos santos católicosDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

Gerente da livraria, a irmã Maria da Glória, 79, conta que a procura por artigos relacionados aos dois papas já aumentou. Ela ressalta também a atuação do italiano João XXIII: “Em seis anos como Papa, ele começou um trabalho de proximidade da Igreja, ao qual o Papa João Paulo II deu continuidade. E, dentro da Igreja, a abertura do Concílio Vaticano II (que modernizou a Igreja Católica) foi muito importante”, explicou.

Com a canonização dos dois papas, livros e DVDs que contam a história deles ganharam um espaço de destaque nas prateleiras ontem. A aposentada Maria da Conceição, 56, acredita que as visitas de João Paulo II ao Rio e a sua simpatia cativaram não só católicos.

“A atenção aos necessitados era o que mais me encantava. Minha família inteira acompanhou as visitas dele ao Rio. Era um Papa que todos nós, fiéis, sentíamos perto da gente. Sofremos quando ele sofreu o atentado”, disse Maria da Conceição, 56 anos, que comprou, ontem, uma imagem do novo santo.

Para a gerente da loja de artigos religiosos Arte Sacra Renovação, Mari Mar Garcia, 45, a popularidade de João Paulo II estava decretada mesmo antes de ele se tornar santo: “Ele sempre vendeu muito”, conta.

Pé-quente e padroeiro do fluzão

João Paulo II fez bonito até nas arquibancadas do Maracanã. Pelo menos entre os tricolores. Ainda como Pontífice, ele foi convocado para ser padroeiro do Fluminense, em 2010, somando forças no altar do clube, junto à padroeira Nossa Senhora da Glória.
Além de ter sido um exímio jogador de futebol na Polônia, João Paulo II recebeu uma camisa do time das Laranjeiras, em sua visita ao Rio, em 1980, tornando-se uma inspiração para jogadores e torcedores.

A frase ‘A bênção, João de Deus’ passou a ecoar forte entre a torcida tricolor, depois de uma decisão do primeiro turno do Campeonato Carioca entre o time e o Vasco .
Nos pênaltis, os tricolores cantaram a música feita para a visita do Papa. Depois da vitória, ela tornou-se quase obrigatória.

Livrarias e lojas especializadas em artigos religiosos estão reservando mais espaço para os novos santos Daniel Castelo Branco / Agência O Dia

Para homenagear o seu padroeiro, o Fluminense fez, no domingo, um pequeno altar na sede das Laranjeiras e convocou o pároco da Igreja Matriz de Nossa Senhora Da Glória — e tricolor de coração — Ionaldo Pereira, para celebrar missa, que contou com a presença de associados do clube.

“Se Deus é brasileiro, o Papa é carioca’’, disse em viagem ao Rio

Em uma visita ao Rio, em 1997, o Papa João Paulo II reafirmou seu carisma entre os cariocas. Em um discurso no Riocentro para 2 milhões de pessoas, ele disse uma frase que ficou gravada na memória de muita gente: “Se Deus é brasileiro, o Papa é carioca”.

Teólogo e professor da PUC-Rio, o padre Waldecir Gonzaga destaca a cerimônia de canonização dos dois novos santos: “Temos um número grande de papas santificados, mas nunca vimos dois serem canonizados ao mesmo tempo. Além disso, dois papas vivos, o atual, Francisco, e o Emérito Bento XVI, celebraram a cerimônia. Foi histórico”.

Ele explica que apesar de serem exigidos dois milagres para a santificação, esses critérios não são tão rígidos. Enquanto João Paulo II teve dois milagres reconhecidos (a cura de uma religiosa francesa que sofria do Mal de Parkinson e de uma costarriquenha que tinha lesão cerebral), seu antecessor, João XXIII, teve apenas um milagre reconhecido. “No julgamento da canonização, a Santa Sé pode avaliar o comportamento da pessoa, como o fato de ter tido uma vida santa”.

João Paulo II ganhou o mundo com sua política de aproximação com fiéis de outras religiões, em visitas a países como Israel. Mas também foi criticado por causa de sua luta contra o comunismo na Polônia e pela condenação ao aborto. A ida a 129 países é destacada pelo teólogo Waldecir: “O Papa João Paulo II levou a Igreja ao mundo em um momento em que os meios de comunicação eram fortes. Foi eleito Papa com 56 anos, com vitalidade, viajou muito e fez um trabalho forte com jovens e família”.

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