Vídeos que ofendem religiões afro-brasileiras continuam disponíveis

Presidente da Associação Nacional de Mídia Afro foi autor da ação que resultou na decisão de juiz que inicialmente não considerou cultos afro como religiões

Por adriano.araujo , adriano.araujo

Jagun abriu ação contra vídeosDivulgação

Rio - Márcio de Jagun é advogado e babalorixá. À frente da Associação Nacional de Mídia Afro, foi autor da ação que resultou na decisão de juiz que inicialmente não considerou cultos afro como religiões.

O DIA: Após as críticas que recebeu, o juiz Eugêniode Araújo voltou atrás em sua decisão. Você achou a retratação suficiente?

MÁRCIO DE JAGUN: Não foi suficiente de forma alguma. Depois de toda a comoção popular que a decisão anterior gerou e da manifestação contrária de lideranças de outros credos, a única questão alterada por ele foi o reconhecimento como religião. Disso todos já sabiam, e ele não nos fez favor nenhum ao conceder esse reconhecimento. O cerne da questão ainda está mantido. Os vídeos (considerados ofensivos a religiões afro que o advogado queria tirar do ar através do processo judicial) continuam disponíveis como se não fossem abusivos, odiosos e representação de intolerância. O tratamento que recebemos não foi o mesmo dado a outras religiões.

Pode-se considerar que a decisão do juiz, ao gerar uma forte mobilização, ajudou na luta pelo fim do preconceito contra às religiões afro-brasileiras por parte da sociedade?

Não posso dizer que o fato de um juiz não reconhecer os cultos afro-brasileiros como religiões pode ter ajudado na nossa luta. Por outro lado, eu acho que as manifestações de repúdio que aconteceram após a decisão foram muito importantes porque demonstraram aos poderes administrativos do nosso país, especialmente ao Poder Judiciário, a força que essas religiões têm e o quanto elas devem ser respeitadas por todos.

A Associação Nacional de Mídia Afro (ANMA) pretende manter a mobilização criada nas últimas semanas para conseguir a retirada dos vídeos de circulação?

Com certeza. Desde o início do processo, não fixamos um pedido de indenização porque não queríamos misturar a defesa de princípios com valores financeiros. Esses vídeos são uma afronta à democracia. Estamos lutando por dignidade e não iremos nos desmobilizar enquanto não for concedida dignidade às religiões afro-brasileiras.

A ANMA já esteve à frente de outras ações de reparação das religiões afro-brasileiras? Como a associação trabalha?

A ANMA foi criada há um ano e meio para propagar os princípios da tradição afro-brasileira e coibir abusos cometidos na mídia. Para isso, nós mantemos um trabalho contínuo de monitoramento das redes sociais e sites de notícias para ir atrás de reparação e esclarecimento toda a vez que ocorra um caso de discriminação. Ainda existe um desconhecimento muito grande sobre as práticas das religiões afro-brasileiras e procuramos combatê-lo com diálogo.

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