'Que vida que a gente escolheu', diz PM após morte de comandante de UPP

Em depoimento, policial militar afirma que não há união na corporação e afirma ter 'se sentido um lixo' na Nova Brasília

Por paulo.gomes

Rio - Uma policial militar que participou na quinta-feira do tiroteio que culminou com a morte do capitão Uanderson Manoel da Silva, comandante da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) Nova Brasília, desabafou num áudio enviado para o WhatsApp do DIA (98762-8248). Com duração de mais de três minutos, o depoimento chama atenção por declarações fortes sobre a situação dos PMs no Complexo do Alemão, na Zona Norte.

GALERIA: Policiais militares fazem operação no Complexo do Alemão

"O capitão (Uanderson Manoel), infelizmente, não pensou muito e saiu do jeito que ele estava, pegou o fuzil e foi. À paisana, sem colete, e aconteceu isso aí (morte). E para não ser pior, tinha uma granada também. Eles chutaram a granada e a granada não estourou, graças a Deus".

Ainda no depoimento, ela diz ter "se sentiu um lixo" durante o fato na Nova Brasília e questionou a união dos policiais militares.

"A gente está sendo vendido. Um cabo lá, mesmo com a rendição, não queria liberar eu (sic) e os meus colegas. É nessas horas que eu vejo que tem colega que faz besteira. Mas a revolta é tão grande que dá vontade de você matar um mesmo. Gente, que vida que a gente escolheu. Mas é porque não tem união e não sei se vai existir união na polícia um dia. Se tivesse união, não faziam isso com a gente".

O capitão Uanderson Manoel da Silva será sepultado nesta sexta-feira, às 16h, no Cemitério Jardim da Saudade, em Sulacap. Nesta madrugada, policiais da 22ªDP (Penha) prenderam Cassiano da Silva Harris, de 20 anos. Ele é suspeito de ser um dos responsáveis pela morte do comandante da UPP Nova Brasília. No final da manhã, um outro suspeito ainda não identificado foi preso pelos agentes do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope).

Cassiano da Silva Harris foi preso na madrugada desta sexta%2C na Vila Cruzeiro. Ele é um dos suspeitos de ter participado da morte do comandante da UPP Nova BrasíliaFabio Gonçalves / Agência O Dia

Cassiano foi reconhecido por policiais por ter participado de um ataque a base da UPP Vila Cruzeiro, antes da morte do capitão. Ele arremessou um artefato explosivo idêntico ao que foi jogado contra aos PMs comandados por Uanderson, na Nova Brasília. Cassiano, que não tem passagem pela polícia, responderá por tráfico de drogas, associação para o tráfico e homicídio simples. Já o outro suspeito foi preso no interior de uma fábrica desativada, na Avenida Itaóca.

Policiamento reforçado no Alemão

Durante a madrugada desta sexta, houve um confronto entre PMs da UPP Fazendinha e traficantes na localidade conhecida como Beca do Desabamento. No entanto, não houve feridos e o caso foi foi registrado na 45ªDP (Alemão). Com isso, policiamento segue reforçado nesta manhã em todo o Complexo do Alemão. O Bope segue atuando na região, assim como o Grupamento de Intervenções Táticas (GIT) das UPPs. Policiais de outras UPPs também participam das ações. Não existe previsão de término para as incursões.

Por conta do clima tenso na região, uma escola da rede municipal não está funcionando. Com isso, 465 alunos estão sem aulas na manhã desta sexta-feira.

Capitão estava há três meses no comando da UPP Nova Brasília

Uanderson foi socorrido em estado grave na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Alemão e transferido para o Hospital Getúlio Vargas, onde foi submetido a uma cirurgia no tórax. O tiro passou entre o braço e o peito, área que não é protegida pelo colete à prova de balas.

O capitão estava há 11 anos na Polícia Militar. Ele trabalhou no 14ºBPM (Bangu), 15ºBPM (Caxias) e 41ºBPM (Irajá), e foi subcomandante da mesma unidade, ocupava o cargo de comandante há três meses.

O capitão Uanderson Manoel da Silva%2C comandante da UPP Nova Brasília%2C será sepultado na tarde desta sexta-feira%2C no Cemitério Jardim da Saudade%2C em SulacapReprodução Internet

Esse é o segundo caso de morte de militar em comando em UPPs. Em março, o subcomandante da UPP Vila Cruzeiro, Complexo da Penha, Leidson Acácio Alves Silva, 27, morreu ao ser baleado na testa durante patrulhamento na Rua 10, no Parque Proletário.

Num confronto no início da tarde, na localidade conhecida como Campo do Seu Zé, equipes da UPP Fazendinha trocaram tiros com um grupo suspeito que conseguiu fugir e deixou para trás 58 papelotes de cocaína, 10 pedras de crack e duas motos.

Momentos depois, Raian Dias da Rocha, 20 anos, foi socorrido na Unidade de Pronto Atendimento do Alemão ferido a tiros. Raian foi transferido, sob custódia, para o Hospital Municipal Souza Aguiar, no Centro. O caso foi registrado na 45ªDP (Alemão). O tiroteio, às 17h30, no qual o capitão foi baleado durou 30 minutos, no Largo do Vivi.

Chocados com o crime, vários policiais militares fardados e à paisana foram para a porta do Hospital Getúlio Vargas em busca de informações sobre o comandante. No entanto, eles não comentaram o caso.

O cabo Mesquita estava com o comandante: "O ataque foi pelo beco do mercado. Entramos no beco, eu, outro companheiro e o capitão, que levou uma rajada. Comecei a trocar tiro com os marginais e o capitão gritou que tinha sido atingido no peito. Troquei tiros até acabar a minha munição. Peguei o capitão pelo ombro e na saída ainda tropecei em uma granada que por sorte não explodiu. Levamos para o hospital, mas infelizmente ele não suportou".

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