Por paulo.gomes

Rio - Equipes que combatem as chamas no Parque Nacional da Serra dos Órgãos e arredores encontraram um mecanismo de ignição em um mirante próximo a um dos focos de incêndio que se expandiu para a área de preservação, causando grande destruição na região próxima à Cachoeira da Macumba.

Segundo o coordenador de emergências ambientais do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Christian Berlinck, trata-se de uma lata de tinta que estava cheia de combustível e acompanhada de um cabo para direcionar o líquido inflamável com fogo. A descoberta foi feita na última quarta-feira, na beira da estrada que liga Itaipava, em Petrópolis, a Teresópolis, e, segundo Berlinck, é um indício de que ao menos parte dos incêndios pode não ser acidental.

Bombeiros levam um tipo de mochila com água para combater focos. Acesso às áreas em chamas do Parque Nacional da Serra dos Órgão é difícil%2C e helicópteros são necessáriosCacau Fernandes / Agência O Dia

"A causa desses incêndios não é climática. O clima, por si só, não causa o fogo. A causa pode ser acidental, quando as pessoas perdem o controle do fogo que colocam em suas propriedades, mas também pode ter intenção criminosa", destacou o coordenador do ICMBio.

O mecanismo de ignição foi levado para a sede do parque. Christian Berlinck frisou que estão sendo feitos voos para identificar as propriedades particulares, próximas ao local, onde o foco começou e também onde o equipamento foi encontrado. Os proprietários poderão ser autuados e as terras queimadas embargadas, para que nenhum uso seja feito até que a mata se recupere.

Governo Federal manda ajuda para combater fogo

Quatro aeronaves do Ministério da Defesa chegarão em Petrópolis nesta sexta-feira para reforçar o combate a um dos incêndios mais graves já registrados na área de mata da Região Serrana. O fogo consumiu mais de 2,6 mil hectares da vegetação em 11 dias. A expectativa é de que os focos existentes sejam controlados até domingo. Na quinta, o governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, declarou que o estado pode também enfrentar problemas de falta d’água se a chuva não chegar nos próximos 30 dias.

Apesar de bombeiros descartarem a possibilidade de retirar moradores das áreas atingidas, algumas famílias do bairro Águas Lindas, em Petrópolis, chegaram a deixar suas casas por precaução. A dona de casa Solange Honório, de 28 anos, grávida de 6 meses, passou três dias trancada em casa porque não tinha para onde ir. “Fechei todas as janelas e portas com medo da fumaça. Minha filha de um ano não parava de chorar com medo”, relatou Solange.

A ajuda do Governo Federal vai se unir a outras cinco — duas do Corpo de Bombeiros, uma da Marinha, uma da Polícia Militar e uma da Civil — que já começaram a trabalhar na região. Os esforços estão voltados principalmente para quatro focos de incêndio no Parque Nacional da Serra dos Órgãos e quatro na Serra das Araras. Após sobrevoar a área, Pezão classificou a queimada como assustadora.

“Este é um incêndio de magnitude nunca vista na região. Todas as medidas estão sendo tomadas pela Defesa Civil. Acreditamos que, nos próximos dois dias, todos os focos serão controlados”, declarou o governador. Além das aeronaves, 20 viaturas do Corpo de Bombeiros foram remanejadas para Petrópolis. Desde domingo, 600 bombeiros, de cinco quartéis, atuam no trabalho de combate ao fogo.

Na Serra dos Órgãos, a localidade mais preocupante é o Morro do Mamute, onde o fogo destrói a mata há quatro dias. De acordo com Christian Berlinck, o difícil acesso ao local dificulta o trabalho dos brigadistas.

“Não dá para caminhar lá porque são muitas rochas. O acesso é só por helicóptero e, ainda assim, é muito complicado. Já fizemos testes outros dias e não conseguimos pousar por conta da alta temperatura e da alta altitude”, informou Berlinck.

Duas aeronaves dos bombeiros%2C uma da Marinha%2C uma da Polícia Militar e outra da Polícia Civil atuaram na quinta-feiraCacau Fernandes / Agência O Dia

Outra preocupação do Instituto é com o surgimento de novos focos. Outros cinco pontos de incêndios na direção de Teresópolis foram detectados. “Temos uma equipe de oito homens que está desde segunda na estrada Rio-Teresópolis controlando estes pequenos incêndios para não deixar chegar na Serra dos Órgãos”, completou.

Moradores cedem água de piscina para conter chamas

Diante do problema em Petrópolis, moradores de Nogueira decidiram se unir para combater focos de incêndio. Nos últimos dois dias, o empresário Felipe Almeida, de 38 anos, e seus vizinhos colocaram na mata quatro caminhões-pipa, com 10 mil litros d’água cada, para conter o fogo. “Temos que ajudar os bombeiros. A situação é muito preocupante”, declarou Felipe.

Sem chuva há um mês, o Rio de Janeiro pode ser o próximo estado a sofrer com a falta d’água. Ontem, durante uma sabatina promovida pelo Jornal O Globo, o governador Luiz Fernando Pezão demonstrou preocupação com a estiagem. “Se a seca continuar pelos próximos 30 dias, vamos ter problema. A gente ainda tem o sistema de Ribeirão das Lajes. Em Santa Cecília ainda dá para o abastecimento. Esse reservatório ainda segura uns 30 dias. Espero que comece a chover.”

A previsão de chuva, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), é para segunda-feira. Até lá, o Rio vai enfrentar o aumento de temperatura. “O final de semana promete ser bem quente. A frente fria chegará somente no domingo e pode aliviar toda a Região Serrana”, explicou a meteorologista Marlene Leal.

Na quinta-feira, Petrópolis amanheceu sob uma forte neblina, o que atrasou o sobrevoo das aeronaves no combate ao incêndio. O problema deve continuar nos próximos dias. “Esta neblina é uma mistura do ar muito seco com a fumaça. Só a chuva pode resolver”, alegou Marlene. A umidade relativa do ar na Região Serrana chegou ontem a 40%, quando o ideal é 60%.

Duas décadas para recompor fauna e flora

O Parque Nacional da Serra dos Órgãos não enfrenta um incêndio de grandes proporções desde 1998. Na época, o fogo atingiu mais de 400 hectares. Desta vez, a queimada já chega a 596 hectares, o equivalente a quase 600 campos de futebol.

Para o ambientalista André Ilha, serão necessárias duas décadas, no mínimo, para recompor a fauna e flora da região. “Perdemos áreas preciosíssimas da biodiversidade, onde o reflorestamento só vai dar resultado daqui a 20 anos. A prevenção deveria ter sido mais explorada para não chegar a este ponto”, explicou André.

Segundo o Instituto Chico Mendes, o incêndio que atinge a Região Serrana começou na semana passada, nas proximidades do entroncamento do Morro do Pilar (rodovia MG-010), na Serra do Cipó. O motivo ainda está sendo apurado, mas para o comandante do Corpo de Bombeiros na Região Serrana, Roberto Robadey Júnior, uma simples queimada de lixo no quintal de um sítio pode ter dado início ao fogo.

“Em 29 anos de Corpo de Bombeiros, não tenho dúvidas de que estes focos foram derivados de moradores. E a ventania que tivemos na semana passada ajudou a espalhar o fogo”, apontou Robadey.

Com informações da Agência Brasil

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