Procuradoria municipal salva o centenário Bar Luiz, no Centro do Rio

Grupo Opportunity obteve na Justiça liminar para despejar o bar por falta de pagamento de aluguel

Por nicolas.satriano

Rio - A agilidade da Prefeitura do Rio impediu que o centenário Bar Luiz, na Rua da Carioca, no Centro Histórico, fechasse as portas na manhã desta quinta-feira. Proprietário do imóvel, o Grupo Opportunity obteve na Justiça liminar para despejar o bar por falta de pagamento de aluguel. Mas a Procuradoria municipal foi rápida e, no início da noite desta quarta-feira, conseguiu cassar a liminar, sob o argumento de que o Bar Luiz está entre os imóveis em processo de desapropriação.

À tarde, antes de a liminar de despejo ser cassada, a notícia do fechamento caiu feito uma bomba na cabeça de funcionários e frequentadores. O garçom Cláudio de Souza Marques, de 52 anos de idade e 28 de Bar Luiz, dava sinais de que estava passando mal. De olhos arregalados e meio arfante, parecia atônito: “Isso não pode ser verdade. O que nós vamos fazer da vida?”, indagava a si mesmo, enquanto se amparava numa das mesas.

O gerente Emerson Coelho sacou o celular e foi para a calçada falar com a dona do estabelecimento — ele não quis identificá-la. “Ela não sabe de nada”,adiantou.

Ao saber do risco%2C Tatiana chamou Rodrigo para o que seria “a última chance” de conhecer o Bar LuizAndré Luiz Mello / Agência O Dia

Numa das mesas, três “fregueses” tomavam o que seria o derradeiro chope no tradicional Bar Luiz. “Venho aqui desde os meus 12 anos. Meu pai tomava um chope e eu, uma soda limonada. Vai ser uma perda para a cultura do Rio”, lamentava o engenheiro Luiz Fernandes, de 68 anos. O amigo Augusto Areias Gomes, de 85, já estava com saudade antecipada. “A gente gosta daqui, porque o atendimento é atencioso e a comida muito boa. Tudo é feito da maneira antiga”, comentava, enquanto o também amigo Afonso Moreira, de 75, aquiescia com a cabeça.

O ambiente já estava triste quando entrou o casal Rodrigo Albuquerque, de 30 anos, e Tatiana Alves, de 35. O rapaz passava sempre na porta, mas nunca havia entrado. Ao saber do despejo pelas redes sociais, ela mandou um torpedo para o namorado: “É nossa última chance”. Rodrigo estava indo para casa, mas decidiu dar meia volta e tomar o que seria o primeiro e o último chope no histórico Bar Luiz.

Belmonte quer criar polo

Há cerca de dois anos, o Opportunity adquiriu o imóvel da Venerável Ordem de São Francisco da Penitência. Segundo a assessoria, o Bar Luiz não paga o aluguel desde então.

"Os aluguéis estavam muito abaixo do valor justo. Além disso, parte dos inquilinos estava inadimplente, e as instalações, em péssimo estado, o que é o caso do Bar Luiz”, afirma a assessoria.

Segundo o Opportunity, já havia uma outra pessoa interessa na locação — seria Francisco Rodrigues, dono da rede Belmonte. “Ele manifestou interesse em participar do projeto de recuperação do local e da criação do polo gastronômico da Rua da Carioca”, diz a nota.

A luta pela preservação

Quando imóveis da Rua da Carioca trocaram de mãos, a Prefeitura do Rio viu a necessidade de agir rapidamente para a preservação do patrimônio cultural da cidade.

Em junho de 2013, a prefeitura criou o Sítio Cultural da Rua da Carioca e tombou definitivamente nove imóveis do local. Entre eles os centenários Bar Luiz, A Guitarra de Prata, A Mala de Ouro e a Vesúvio, que vende guarda-chuvas.

Paralelamente, a prefeitura instituiu uma nova categoria de patrimônio imaterial: Atividade Econômica Notável. Ela impede o fechamento desses estabelecimentos comerciais.

Logo depois, o prefeito Eduardo Paes decretou que tais imóveis eram de interesse público e iniciou o processo de desapropriação. Segundo a assessoria de imprensa da prefeitura, o processo está quase finalizado.

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