Uso da web, direito ao corpo e alegria são marcas do feminismo moderno

A rede propiciou a fervura do caldeirão que são os movimentos sociais, com coletivos e páginas dedicadas ao tema

Por O Dia

Rio - ‘Companheira, me ajuda que eu não posso andar só. Eu sozinha ando bem, mas com você ando melhor.’ Os versos da cantiga entoada pelo Coletivo de Mulheres da UFRJ mostram o novo espírito do feminismo no país, mais inclusivo e alegre. Tema de discursos da atriz Patricia Arquette e da cantora Beyoncé — ambas norte-americanas — e com cada vez mais adeptas, o movimento pela igualdade entre os sexos ganhou novo fôlego e vê crescer o número de mulheres que se denominam feministas. Um exemplo é a mobilização das normalistas do Colégio Ignácio do Amaral, depois de uma estudante ter sido atacada por um homem quando ia para escola, terça-feira.

O Coletivo de Mulheres reúne estudantes de Psicologia%2C Economia%2C Comunicação Social%2C Ciências Sociais e Serviço Social da UFRJMaíra Coelho / Agência O Dia

“O feminismo me tornou mais feliz, me empoderou”, declarou Josi Oliveira, de 21 anos, estudante de Pedagogia e integrante do Coletivo de Mulheres. Ela e outras amigas relataram como isso foi importante para superar dificuldades impostas pelo machismo, como assédio, preconceito e aceitação do próprio corpo. “Somos ensinadas a competir com outras mulheres. Juntas conseguimos ver que outras meninas são tão oprimidas quanto nós e que podemos superar isso em conjunto”, disse Gláucia Tavares, graduanda de Psicologia.

O movimento, cujo auge ocorreu nos anos 1960, tem ainda hoje as mesma pautas, mas com abordagens diferentes. “São muitas mulheres, muitos feminismos e muitas coisas a serem conquistadas ainda”, disse Heloísa Santos, antropóloga especialista em questões de gênero. Segundo ela, o feminismo era focado num tipo de mulher: branca e de classe média. Atualmente isso tem mudado. “As discussões recentes envolvem as ‘outras mulheres’, e, assim, as pautas específicas são absorvidas pelo movimento de forma geral”, explicou.

Isso acontece com uma das principais reivindicações delas: o direito ao corpo, que ganha formas diversas em cada corrente do feminismo, como a legalização do aborto ou o uso de qualquer roupa, sem constrangimentos. Outro fator decisivo para a popularização do movimento é a internet.

A rede propiciou a fervura do caldeirão que são os movimentos sociais, com coletivos e páginas do Facebook dedicadas ao tema e que hoje transborda o mundo virtual. “Isso não substitui a presença nas ruas e nos movimentos”, ponderou Eloá Dos Santos, do Movimento de Mulheres Olga Benário.

O bloco das Mulheres Rodadas é outra manifestação que saiu da internet e que une o feminismo e algo lúdico como o Carnaval. “Começou como uma brincadeira crítica no Facebook”, contou a jornalista Renata Rodrigues, uma das fundadoras.

A jornalista Renata Rodrigues (C) criou o bloco Mulheres Rodadas a partir de piada machista no FacebookMaíra Coelho / Agência O Dia

De bandeira política à prática diária

Ainda que o feminismo tenha ganhado força com a Era Digital, sua história é bem antiga e remonta ao século 18, na Revolução Francesa. “O que existia era o movimento de mulheres. É desse tempo a luta por escola laica, mista e para que meninas pudessem estudar”, contou Maria Leão, estudante de Ciências Sociais e integrante do Coletivo de Mulheres da UFRJ.

Foi nos anos 1960 que a atuação feminina fez seu maior avanço: “Com a pílula, a Psicanálise e o próprio feminismo... Foi nos anos 60 que tivemos ícones como Leila Diniz”, destacou a antropóloga e professora da UFRJ Mirian Goldenberg. Segundo a autora de ‘A Bela Velhice’ e ‘Homem Não Chora. Mulher Não Ri’, o feminismo deixou de ser bandeira para virar prática cotidiana.

“Isso se deve a uma mudança no papel social. Antes, o lugar das mulheres era isolado, no lar. Hoje, elas estão em todo lugar e sabem que não podem ser violentadas ou desrespeitadas. Sabem que podem contar umas com as outras”, explicou.

Outra transformação foi do perfil das feministas. “O feminismo era composto por grupos intelectualizados. Hoje é uma reivindicação cotidiana das mulheres”, analisou a pesquisadora. “A internet é um facilitador, mas a grande mudança vem da organização e o impacto das conquistas feministas”, avaliou.

Debates

O 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, terá programação para celebrar conquistas e chamar a atenção para a luta das mulheres no Estado do Rio.

Desde quinta-feira, o festival Roque Pense está levando muita música e debates sobre gênero para a Baixada Fluminense. “O tema deste ano é a violência doméstica jovem”, disse Dani Francisco, uma das organizadoras do evento. Ao todo serão 12 bandas, palestras, oficinas e performances. Hoje, para encerrar o circuito, haverá campeonato de skate na Praça do Pacificador, às 15h e às 19h, e quatro shows, no Teatro Municipal Raul Cortez, no Centro de Caxias.

O bloco Mulheres Rodadas, em parceria com alunas e alunos do Colégio Ignácio Almeida, fará um ato contra o assédio às mulheres, lançando o Dia Internacional da Minissaia. A mobilização vai acontecer às 14h, no Posto 4, em Copacabana. Hoje, às 9h, a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres participará do Ação Global, no Parque de Madureira.

Para fechar as comemorações, amanhã, acontece o Ato pela Vida das Mulheres, Legalização do Aborto Já!. Será no Largo da Carioca, no Centro, das 15h até as 19h.

A revista ‘Capitolina’%2C com 74 colaboradoras no país%3A ‘feminismo acessível’%2C diz Sofia Soter (de vestido rosa) Maíra Coelho / Agência O Dia

Revista feminista atrai adolescente

A internet é a principal plataforma de iniciativas feministas. Um exemplo é a ‘Capitolina’, revista eletrônica que foca em adolescentes feministas. “Em vez de escrever ‘seja assim’, vamos escrever ‘seja livre para ser o que você quiser’”, contou Taís Bravo, de 24 anos, uma das colaboradoras, que percebeu que as leitoras não se identificavam com as publicações tradicionais.

“Elas falavam: ‘Leio, mas não me vejo na revista’”, explicou a editora Sofia Soter, de 23, que administra 74 colaboradoras. “Todas são mulheres. Inclusive trans e não-binários”, disse Teresa Soter, 17.

No Facebook, as páginas crescem exponencialmente. Uma das mais populares é a ‘Empodere Duas Mulheres’. Criado há um mês, o endereço já teve 35 mil curtidas. “Só esta semana tivemos mais de 1,4 milhão de visualizações”, comemorou a cineasta e criadora da página Maynara Fanucci, 24. Ela diz que o movimento mudou sua vida. “Me libertei de várias coisas.”

GLOSSÁRIO

EMPODERAMENTO
Tomar consciência de si e se afirmar em espaços políticos e sociais.

SORORIDADE
É a irmandade entre mulheres.

NÃO-BINÁRIO (N-B)
Não se identifica como homem ou mulher. Nega o sexo biológico e de gênero.

CIS E TRANS
Trans não se identifica com as convenções de gênero do seu meio. Já o cis se reconhece nas regras sociais.

Reportagem de Flora Castro

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